Grécia: as relações tensas entre romaniotas e sefaradim


Matzá com Moussaká
, Histórias de Judeus e Gregos

 

Táki Athanássios Cordas

Prefácio de Alberto Dines, Cotia, São Paulo, Ateliê Editorial, 2007

234 págs.

Como revela o jornalista Alberto Dines no seu Prefácio, o autor deste livro é “professor de psiquiatria na Universidade de São Paulo, paulistano de origem grega, cristão-ortodoxo”. O que levou o doutor Cordás a escrever sobre os judeus na Grécia e a história daquele país foi sua paixão por ambos – a comunidade judaica e os gregos – , que conviveram fraternalmente por milênios. Esta fraternidade foi interrompida pela Segunda Guerra e pela invasão nazista. Depois das atrocidades dos nazistas, judeus sobreviventes e gregos prosseguiram com a antiga convivência, como podem expressar os emblemas culinários no título: “matzá”, um biscoito típico da Páscoa judaica, e “moussaká”, um prato grego internacional, feito de camadas de massa com berinjela e molho, ambos apreciados ao longo da história das terras helênicas. Ambos os povos estiveram sob os jugos romano e otomano, atravessaram as batalhas pela independência e se revigoraram após as grandes guerras.

São 16 capítulos, encabeçados pela temática de cada um deles como, por exemplo: “Chegando a Atenas, rumo ao Museu Judaico”, “Na Grécia Otomana”, “Surge a Grécia Moderna”, “Joseph Eliyia”, “Pequena História do Rebetiko”, “O Fim dos Judeus em Thesaloniki, a Jerusalém dos Bálcãs”, “A Vida após a Segunda Guerra Mundial.”  Nestes, como nos demais aqui não mencionados, o método utilizado pelo psiquiatra consiste na compilação de textos de historiadores consagrados (identificados por nome e data de publicações), integrá-los na sua narrativa e completá-los com cartas, todas elas endereçadas ao prefaciador Dines. Nelas, num total de cinco, o autor passa ao jornalista impressões das suas leituras e visitas aos locais de interesse tanto para a história grega quanto para a história judaica na Grécia.

O tom da narrativa é intimista, isto é, escrito em estilo coloquial, de conversa entre amigos, longe do tom professoral de livros de História. Aliás, são várias, como está no título: histórias de gregos e judeus narradas por um profundo conhecedor destes dois povos. Retornando à pátria dos seus antepassados, o autor revê monumentos, documentos e fotos de mapas, desenhos, pessoas e objetos, reproduzidos nesta edição.

Confusão

A narração da história da Grécia transcorre em sintonia com a descrição da história do estabelecimento judaico no país, que se deu entre os anos 300 e 250 antes da Era Comum (marcada pelo autor como a.C., p. 25).  Não só a placa com esta data mostra tal antiguidade, mas também o piso de uma sinagoga e ruínas de outra, ambas datadas possivelmente no século 5° antes da E.C., também foram encontrados em regiões distintas do país, além de outros vestígios que atestam a longevidade da vida judaica na Grécia. A inclusão de ilustres historiadores nesta pequena obra tem início com Flávio Josefo, que escreveu em grego, contando que “cerca de seis mil escravos judeus foram enviados pelos imperadores romanos (de Vespasiano a Nero) para  trabalhar como escravos na construção do canal de Corinto, uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade, e depois permaneceram aí” (p. 27).

Conhecidos como “romaniotes”, “romaniotas” e “judeus bizantinos”, eles assim se denominam até hoje, com predominância do qualificativo “romaniota”. (Fazem questão de não serem confundidos com judeus “sefarditas”, mesmo porquê não o são, embora tais confusões sejam generalizadas.)

As peripécias de Sabatai Tzvi, o cabalista e rabino de origem turca, que se estabeleceu na região de Tessalônica (na Grécia de hoje), também receberam atenção do autor. A história do falso messias é narrada de forma sucinta e, ao mesmo tempo, informativa, como nestas linhas: “Filho de Mordechai Tzvi, um agente comercial nascido na região de Moreia (antigo nome para o Peloponeso), na Grécia … desde a juventude Sabatai se mostra muito diferente de seus dois irmãos. Segundo seus biógrafos, já entre os 15 e 20 anos começa a dar sinais do desequilíbrio que iria acompanhá-lo a vida toda, e que os pais – Mordechai e Clara – e seus irmãos  – Elias e Josef – logo notaram. … Sabatai alterna períodos (ora mais longos, ora mais curtos) de grande excitação e hiperatividade, com estados opostos de profunda melancolia e apatia” (p. 65). Se o trecho sobre o falso messias se mostra como produto de excelente pesquisa de parte do autor, suas conclusões a respeito do ilusionista são pertinentes ao psiquiatra: “Menos poético, sugiro eu que a descrição do seu comportamento hoje não o livraria de um diagnóstico de doença bipolar (antigamente Psicose Maníaco-Depressiva) e de um tratamento psiquiátrico com lítio” (p. 66).

Inquisição e nazismo

Continuando com a história, abalos maiores vieram com a Inquisição na Península Ibérica, o que levou muitos dos sobreviventes da matança geral na Espanha e em Portugal, para a Grécia. Lá, os sefarditas se encontraram com os romaniotas. Não foi muito auspiciosa a convivência desses grupos, pois os judeus ibéricos se achavam superiores aos locais e estes espezinhavam os “estrangeiros” por não falarem grego e por seguirem a religião judaica com ritos muito diferentes dos que eles conheciam. Os recém-chegados, no entanto, foram bem recebidos pelo sultão e pelos muçulmanos do Império Otomano, que souberam distinguir, nos imigrados, uma força intelectual e material necessária ao seu reinado. E os sefarditas ficaram, Tessalônica sendo a região de sua preferência. Com o passar dos séculos, foram inevitáveis as influências recíprocas, principalmente na língua. O ladino, falado e escrito pelos ibéricos, foi incorporando termos dos romaniotas e estes, do judeo-espanhol, o que resultou num novo idioma, o djudezmo da Grécia (p. 47). Os gregos também se entusiasmaram com a música ladina, resultando daí rica interferência no “rebetiko”, expressivo representante da sua musicalidade, “exatamente tal qual o samba, o tango argentino, o fado, o flamenco, ou o jazz e o blues” o são para seus respectivos países (p. 126).

Os séculos do desenvolvimento grego foram compartilhados com os judeus nacionais e imigrados, de forma geral, sem grandes conflitos, embora uns tantos aparecessem aqui e ali. Mas, com as batalhas pela independência e, finalmente, com a Grécia livre dos otomanos, os judeus sofreram percalços mais duros, por terem apoiado ou ocupado “altos cargos na hierarquia muçulmana” (p.82).

Tessalônica, considerada a Jerusalém dos Bálcãs, foi massacrada pelos nazistas, assim como todas as comunidades povoadas por judeus na Grécia, incluindo a região insular (Corfu, Creta, Rodes). No relato de episódios relativos ao Holocausto, o autor faz longa referência ao comportamento controverso (no mínimo) do rabino Zevi Koretz, acusado de colaborador dos nazistas, ao mesmo tempo que sua memória ganha também o beneplácito da dúvida.

Obra exemplar pelo constante registro de fontes de informação, pelo tom narrativo (já comentado) e pela coerência em manter equilíbrio entre as duas histórias, dos judeus e dos nacionais na Grécia. Altamente recomendada a todos que queiram saber ou aumentar seu conhecimento sobre a presença judaica na Península Helênica, hoje grande atração turística para todo o mundo, principalmente para os israelenses…

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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