Caminhos alternativos

Jeremy Ben Ami, fundador do JStreet

Jeremy Ben Ami, fundador do JStreet

Uma das características marcantes de nossa comunidade é o histórico marcado por um ativismo não centralizado que brotou em forma de diferentes associações, cada uma com seus respectivos fundadores, finalidades específicas e mesmo determinado público. O senso de autonomia das entidades sempre foi muito forte, pois se consideravam e se consideram, naturalmente, donas de seu espaço, e qualquer abordagem “por cima” pode ser vista como intromissão indesejada. Daí, pode-se imaginar a dificuldade que encontraram órgãos comunitários centralizadores para se impor ou se fazerem efetivos. São dezenas de exemplos desde a década de 10 do século passado que o espaço não permite citar.

A essa origem descentralizada agregam-se as diferenças culturais, ideológicas, existenciais que emergiram e emergem na comunidade, tornando-a efetivamente plural.  Pode-se chegar a um nível, inclusive, mais individual. Entre os imigrantes que mal tinham estudos primários, uma atribuição ou cargo nas diferentes entidades representava simbolicamente uma espécie de distinção, prestígio, importância, preenchendo os vazios da autoestima. Mesmo aqueles que não alcançavam cargos procuravam uma espécie de participação, por exemplo, discursando nas reuniões, fazendo-se ouvir, com uma carga crítica só explicável, em certas circunstâncias, por uma necessidade psíquica. As rusgas individuais, as suscetibilidades atingidas foram intermináveis.

Nessa construção, o mais característico foram os apelos, muitas vezes derrotados, à unidade em meio a uma fragmentação real. A unidade foi e é muito mais um objetivo a alcançar do que existente. No entanto, paira uma fantasia sobre a unidade judaica, ora vista como perdida, ora como uma forma necessária de se apresentar perante o “público externo”, quando em muitos casos é inalcançável entre os próprios entes comunitários. Assim, falar em nome de todos os judeus, na realidade, é uma apropriação, de certa forma, arbitrária e espúria do coletivo, pois “todos os judeus” não existe em muitos casos. Às vezes se trata meramente de um expurgo autoritário das diferenças.

Aqui não se faz um julgamento de valor e nem o elogio do consenso ou do dissenso. Tenta-se simplesmente apreender a realidade como ela se delineia no terreno. A veiculação dos judeus como uma voz única serviu (e serve) muitas vezes às necessidades de época. Por exemplo: a comunidade, como um todo, emergiu no discurso, no começo do século 20, para condenar os cáftens e as polacas. Ninguém queria ser confundido com “eles”. Daí o “nós não somos eles” cabia como uma luva. E, mais ainda, era necessário afirmar, no limite, que “eles” nem eram judeus.

Acusações desprezíveis

Mas nem sempre a convergência entre o discurso do nós e a realidade  foi pacífica,  nem mesmo em função de objetivos similares. Frente à praga do antissemitismo, muitas vezes não se construíram “frentes únicas” porque as lutas internas tornaram isto impossível, mesmo que o discurso preconceituoso se dirigisse contra “todos os judeus”.

Às vezes a descentralização e a diversidade trazem facetas interessantes. Se puséssemos no papel o que cada entidade prepara de atividade em uma semana ou um mês e as somássemos, verificaríamos que somos os reis de eventos per capita. Isto é positivo ou negativo?

Há momentos em que a apropriação do conceito de todos por uma parte torna o ambiente irrespirável, como é o caso das posições oficialistas de entidades e mídias de apoio irrestrito – se não mais que isto – às posturas de governos israelenses na questão palestina.

Na primeira guerra contra Gaza se sedimentou em Israel e no mundo judaico a prática de acusações desprezíveis, tipo “quem não é a meu favor é contra”, que deram origem a um extremismo que vê, à primeira manifestação de dissenso, “judeus antissemitas”, “judeus traidores”, “apoiadores de terroristas” etc., visando excluir essas vozes do jogo político, marginalizar suas opiniões, utilizando inclusive ameaças e violências.

Nesta balela de uma unidade que não existe, principalmente em tempos de guerra, muitos caem. Os mais desavisados argumentam, inocentemente, que os judeus em outros países não devem intervir e dar opinião sobre os problemas israelenses, por não estar sob fogo, mas ser a favor pode e é recomendável. Não entendem a própria contradição do que dizem. Esta isenção é exigida das vozes discordantes quando é sabido que parte do dinheiro movimentado em eleições israelenses vem de fontes judaicas abastadas no exterior. No entanto, quando descobrem que ONGs israelenses recebem dinheiro de fora, o escândalo e o cinismo se instalam, e se promove uma caça às bruxas.

Pode ser que exista, sim, em Israel uma maioria a favor desta política governamental, fato que é mensurável, mas o mesmo não se dá fora de Israel. Nos Estados Unidos, de 60% a 70% dos judeus votaram em Obama e não nos republicanos. No entanto, os grandes lóbis judaicos passaram a agir articulados com os republicanos por causa da maior afinidade destes com as posições israelenses.

Ausências

Outro dado que não é levado em conta é que a principal fatia dos judeus no mundo, em termos de problemas do mundo judaico e israelense, é de desinteressados, ou afastados. Além de não se saber o que pensam sobre os problemas judaicos (se é que pensam a respeito), esta ausência torna possível a um grupo de ativistas e militantes relativamente pequeno arrebatar a voz do todo e utilizá-la a seu bel prazer. Mas executam esta tarefa porque acham que podem, pois quase não existe contrapartida sólida. Querer deste grupo que garanta um espaço aos minoritários é inocência.

Nos Estados Unidos e na França se criaram importantes entidades antiestablishment: o Jewish Street e o JCall, respectivamente, reúnem um número expressivo de participantes, quebrando o monolitismo que se apropriava do todo sem autorização expressa.

Pode-se argumentar que o tamanho dessas comunidades judaicas tornou possível o aparecimento desse tipo de associação política. Será? A única manifestação em prol de organização de entidade similar para a América Latina partiu de uma voz relativamente desconhecida e residente em Israel. Será que a América Latina ou mesmo a Argentina ou o Brasil não comportam algo similar?

Acontece que não basta dizer que “eles não me representam” se esta não representação não se fizer presente dentro e fora da comunidade. É redundante, mas não existe vácuo nesta área. No caso do Colégio Andrews, o professor de geografia, desinformado, pecou justamente por utilizar uma generalidade, “os judeus”, como se houvesse um bloco judaico homogêneo e maldoso, típico do pensamento preconceituoso. Desconhece possivelmente um Shalom Achshav, um Meretz, um JStreet, e a luta política que se trava dentro e fora de Israel, no mundo judaico. Os judeus para ele resolvia a parada.

Mas à nossa volta garanto que conhecemos relevantes vozes no mundo judaico, pessoas de bom-senso que não se definem ideologicamente como de esquerda e “afastados”, que não simpatizam com este governo israelense e têm um grau de indignação travado na garganta. No entanto, apesar da sensação de que existe um número crítico de pessoas com este perfil, nada acontece, possivelmente devido a um fracionamento deste segmento em pequenos grupos de internet, quase particulares, mídias sem repercussão etc., e também uma inércia, produto talvez de desilusões.

Por que não uma mídia ambiciosa, um jornal ou revista digital, uma reorganização de forças e pessoas dispersas em uma organização-teto alternativa?

Será a própria tendência centrífuga a responsável?

Cartas para a redação.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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