Agressividade

Slide1O recente processo eleitoral no Brasil nos legou a sequela de uma polarização extrema, agressiva, a qual parece – muito mais do que a escolha de um melhor candidato – uma divisão do país em duas partes, cada uma senhora com fé de sua razão.  Nas redes sociais, sobretudo, mas, de um modo geral, nas discussões políticas e mesmo na mídia, as mais ofensivas denominações foram atribuídas aos que apoiavam a candidatura oposta. Houve até quem dissesse: “Não chamo de amigo quem vota em fulano ou sicrana.”

É certo que posições políticas distintas revelam visões diferentes da sociedade e do país, interesses de classe ou particulares específicos, oposições a avanços de determinados segmentos, mas quando sua apresentação deixa de se dar no quadro da tolerância e da democracia e revela um primarismo visceral, uma rejeição à racionalidade e à empatia, isso abre as portas ao ódio, ao preconceito e à violência. Quando emergem e se aguçam os piores sentimentos, a negação do outro e do seu direito de opinar e participar, é o caso de se perguntar: por que essa gente se sente tão ameaçada?  Por que se tornaram tão frágeis os pilares das nossas instituições a ponto de transformarem o debate político  num campo de batalha do pior nível de truculência? Aceitar derrotas e buscar entender suas causas para superá-las faz parte da vida democrática.  Civilidade é fundamental, até para que se mantenha a convivência e, eventualmente, se possam abrir espaços e canais de negociação.  O que vimos na recente campanha foi um acirramento do que cronistas diversos já têm dito em jornais e revistas: que o nível de agressividade em relação ao diferente vem se constituindo em uma doença cada vez mais visível nas sociedades contemporâneas.  E, claro, não estamos falando somente do circo de horrores do Oriente Médio.

A tradição judaica é outra. Ela se consolidou como uma tradição de controvérsias: seus mais importantes textos resultam da contraposição de ideias.  Aceitar o outro, respeitar a diversidade, ter sempre em mente que o pensamento não pode ser único – fundamentos da paz que servem tanto para o Brasil como para o resto do mundo.  Um novo ano judaico é a ocasião mais propícia para fazer deles princípios a serem adotados em nossa vida cotidiana.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

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