A Sinagoga das Américas

sinagoga-sinagoga-kahal-zur-israel-primeira-das-americas-e-um-marco-da-historia-judaica-no-brasil (1)No bairro que hoje chamamos o Recife Antigo, existe o prédio da Rua do Bom Jesus, número 197. É uma edificação que se inscreveu há muito na história do mundo. Não pensem, por favor, que isso é afirmação megalomaníaca, mais uma de pernambucano, da gente do Recife. Nesse prédio houve e se encontra recuperada, novinha e em cores para todos nós, a Primeira Sinagoga das Américas. Isso é história, documentada de modo irrefutável.

Desse fato, muitas vezes o recifense se põe a falar, num acesso de espantoso exagero que os forasteiros mais gentis chamam de bairrismo: “os judeus do Recife fundaram Nova York”. Ou melhor, na imaginação mais desenfreada, o recifense pode chegar ao bom esclarecimento de que sem Pernambuco não haveria Nova York. E, quem sabe, porque imaginar com freios não existe, pode até ser dito que a civilização norte-americana não existiria sem o trabalho dos judeus do Recife. Menos, muito menos. É claro, uma sólida ponderação exige: o Recife como origem de Nova York é apenas mistura de brincadeira com um sexto de verdade e um risonho ufanismo. Vamos aos fatos.

O certo, em poucas linhas, é que, na fundação da cidade de Nova York, houve um grupo de 23 judeus, composto por homens, mulheres e crianças. Eles saíram do Recife em 26 de janeiro de 1654, na véspera da assinatura da rendição holandesa, e desembarcaram em 12 de setembro na cidade de Nova Amsterdam. Faz precisamente 360 anos! Eles foram a primeira imigração de judeus a chegar à cidade, que, tempos depois, passaria a ser chamada de Nova York, a grande metrópole.

Exaustos e com pouco dinheiro para continuarem a jornada, o grupo pediu para ficar ali.  O diretor-geral da colônia, Peter Stuyvesant, se opôs, mas acabou cedendo à ordem dos seus superiores na Companhia das Índias Ocidentais, que lhe chegou no ano seguinte: “Essas pessoas podem viajar e fazer comércio na Nova Holanda, aí viver e residir, desde que os pobres dentre elas não se tornem ônus para a Companhia, mas recebam ajuda de sua própria nação.”

 É de se notar que essa imigração pioneira se encontra preservada na cidade norte-americana, não apenas na Shearith Israel, a mais antiga congregação judaica da América do Norte, mas até mesmo em documentos à margem dos livros. No filme Era uma vez na América, por exemplo, há imagens no cemitério judeu da cidade em que aparecem lápides com os sobrenomes Carneiro, Bezerra, Fonseca, entre outros. Isso não significa que pertençam aos fundadores, mas deixa claro que pertencem a suas famílias.  Mais, nos cânticos da principal sinagoga de Nova York, há palavras em português que perderam o significado para os norte-americanos, mas que continuam a ser entoadas por força da tradição.

História maravilhosa

A história real é que é maravilhosa em sua natureza. Porque olhem só: na verdade, o Recife teve duas sinagogas, ambas as mais antigas das Américas. A existência dessas duas sinagogas no Recife está provada tanto por documentos da época quanto pela lembrança de um poeta sefaradi bem conhecido, Daniel Levi de Barrios, que escreveu o seguinte:

“Dos sinagogas el Brasil ostenta,

Una en el Arrecife se ilumina

Com Aboab; com Aguilar se aumenta

Outra, Angélica en nombre y doctrina…”

Foram, portanto, duas: a Zur Israel, na Rua dos Judeus, que se transformou na Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo, e a Maguen Abraham (Estrela de Abraham), na antiga Ilha de Antônio Vaz, depois Maurícia, por não haver sido construída, ainda, a ponte que ligava Maurícia ao Recife Antigo. O lugar é onde hoje existe o bairro de Santo Antônio, mas se perdeu a localização precisa da Maguen Abraham. O poeta Daniel Levi esclareceu em versos que numa servia Isaac Aboab, e na outra, Moisés Rafael de Aguilar. Vamos então para a de Isaac Aboab, que resiste e reside na Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus. Já a mudança do nome da rua é bem sintomática. Nesta altura caberia uma digressão sobre o desrespeito aos nomes que refletem a nossa história, mas devemos seguir adiante.

A história da recuperação desse prédio, contada pelo talento artístico, poderia dar uma obra que mostrasse o encontro da necessidade e da sorte. Ela começaria pelo historiador José Antonio Gonsalves de Mello, o qual, em suas pesquisas, foi à Holanda e achou, modo de dizer, pois ao buscar com inteligência o período holandês no Recife, descobriu um manuscrito com data de 1657, publicado em 1839. E assim fez ressurgir um mundo até então encoberto. Nos papéis encontrados se via o inventário das casas do Recife “construídas ou reformadas por Flamengos ou Judeus” durante a fase do Brasil Holandês, de 1630 a 1654. Neles, a Sinagoga do Recife está localizada na antiga Rua dos Judeus.

“Com a publicação em 1839 de um precioso manuscrito de 1657, que contém o inventário das casas do Recife e da outra banda de Santo Antonio ‘construídas ou reformadas por Flamengos ou Judeus’ durante os anos de ocupação pelas tropas da Companhia das Índias Ocidentais (1630-1654), ficava indicada a localização da sinagoga da cidade. Situava-se na Rua dos Judeus e estava descrita assim no inventário: ‘umas casas grandes de sobrado da mesma banda do rio, com fronteira para a Rua dos Judeus, que lhes servia de sinagoga, a qual é de pedra e cal, com duas lojas por baixo, que de novo fabricaram ditos Judeus’”, nos conta o historiador.

A essa descoberta se acrescentou o magnífico trabalho do arquiteto e urbanista José Luiz Mota Menezes. Durante anos, pesquisadores tentavam localizar esse prédio, mas o ponto exato onde existiu foi determinado através das pesquisas cartográficas e documentais, iniciadas em 1997 pelo arquiteto.

Nas escavações arqueológicas, entre outros artefatos, foi descoberto o Bor, poço que alimenta a Mikvê, utilizada para os banhos de purificação espiritual e de renovação dos judeus. Um Tribunal Rabínico, constituído por três autoridades no assunto, diante do poço, analisou os achados e confirmou tratar-se da piscina ritual, com base nas medidas do local. Prova incontestável da presença do templo naquele lugar.

Às descobertas de José Antonio Gonsalves de Mello e José Luiz Mota Menezes se somou o fecundo trabalho da historiadora Tânia Kaufmann. Ela é quem coordena o Museu Sinagoga Kahal Zur Israel, organizado no mesmo prédio da Sinagoga. Com o material reunido nas suas pesquisas, como fotos, documentos e até utensílios, ela construiu o acervo do atual Arquivo Histórico Judaico do Estado e da Sinagoga.

Em dezembro de 2001, o prédio original reconstituído foi aberto ao público, sendo hoje um dos mais importantes lugares turísticos do Recife. A edificação é a parte visível do que foi a comunidade judia, que atingiu metade do total dos habitantes de origem europeia do Recife na época dos holandeses. Mas isso foi antes que descobrissem Nova York. Ali, na Rua do Rua do Bom Jesus, número 197.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

 

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