Segredos do quarto escuro (final)

2 lupasQuem teria encomendado ou escrito aquele rolo das escrituras sagradas, um tesouro encontrado na Fazenda Ipê Roxo do coronel? Um pequeno “bilhete” em papel arroz poderia conter a resposta.

– Confesso francamente, senhor coronel – disse o licenciado Efraim – , que o idioma usado não é o hebraico usual das escrituras, parece que é aramaico, um idioma que antecedeu ao hebraico, porém ainda não tenho certeza, poderia pertencer a um dos ramos do judaísmo.

– Oi – se surpreendeu o coronel – , o judaísmo tem ramificações?

– Sim senhor, os hebreus, depois da conquista de Sion, eram compostos de doze tribos. Quando dividiram o território, foi doada a cada uma a sua gleba. Claro que sem alterar uma letra das Escrituras, poderia cada tribo interpretá-las de sua maneira e criar tradições diferentes. Mas isso foi no passado longínquo. Hoje, na diáspora do povo judeu, causada pelos conquistadores romanos, a Bíblia continua sendo a mesminha em qualquer parte do globo onde se encontram os judeus, sem botar ou tirar. As diferenças nas tradições, porém, se fazem sentir. Hoje, temos judeus sefaradim (de origem oriental), ashkenazim (de origem do  leste europeu), karaim (do Egito,  que só aceitam o testamento escrito, sem emendas do Shul’han Aruch), teimanim (originários da Península Arábica e que  dizem ser os verdadeiros judeus, pois nunca se mesclaram com outro povo), kuzarim (convertidos pelo rei deste povo, nas estepes  da Rússia), falashmura (originários da Abissínia, hoje Etiópia), bnei Menasse (se dizem filhos da tribo perdida Menashé e hoje vivem na Índia) e samaritanos (nunca abandonaram a área da Samaria e hoje restaram como um grupo pequeno que proíbe casamento com outros grupos judeus e estão reduzidos a umas poucas famílias em Nablus e nas proximidades da cidade milenar de Jafa). Com certeza, existem outros grupos de judeus ainda não detectados ou escondidos.  Depois da dispersão pelo mundo causada pelo Império Romano, lá se vão quase 2 mil anos,  a Inquisição na Península Ibérica deu outro impulso à diáspora dos judeus. Agora nos resta definir a qual desses grupos pertenceu a sua família, coronel, os Barbur. Vamos tentar decifrar o bilhete deixado pelo escriba. Quem sabe, lá encontraremos a resposta  que buscamos. O senhor tem por acaso uma lupa para aumentar o tamanho do escrito no tal bilhete?

– Claro que tenho, comprei mais de uma para Ramiro, quando fez o curso de entomologia prática, na Escola Técnica de Tapera. Já vou buscar!

O licenciado murmurava para si mesmo:

– Meu Deus, que sorte ter encontrado estas relíquias aqui no Ipê Roxo, em Triunfo!

Isto vale cem vezes mais do que as lápides de falecidos judeus ou cristãos-novos que procuro e não encontro. Dizem que a razão disso é que enterraram os judeus e os cristãos novos nos cemitérios comuns. Com tanta documentação, nomes, atuação na comunidade e na sinagoga, datas de nascimento e óbitos, como é possível que num cemitério cristão no Recife ainda não detectaram uma única sepultura desses finados?

E falando com seus botões, lembrava  que um seu colega brasileiro na Universidade de Pádua dizia que no Recife, mas não só lá, a Igreja Católica fez tudo para apagar, fazer desaparecer, desorientar, desnortear todos aqueles que buscam os  últimos vestígios deste fenômeno no Nordeste. Quem sabe, pode ser! Nunca houve um grande amor pelos judeus por parte da Igreja Católica, nem no Nordeste do Brasil nem no mundo cristão em geral. O conterrâneo complementava afirmando que na  União Soviética fizeram o mesmo com a historia dos kuzarim: não se encontram vestígios de um povo enorme que desapareceu como por encanto, tudo isso para evitar que constasse na história soviética que existiu lá um povo de religião judaica com rei, exército, cidades e um enorme território independente. Mas não poderão esconder os fatos por muito tempo, pois no futuro, sem o comunismo, a nova geração de estudiosos fará as pesquisas necessárias e desenterrarão a verdadeira história dos judeus kuzarim. O licenciado falava para si mesmo como se tivesse perdido o juízo.

Origem sefaradi

Nesse exato momento, voltou o coronel com duas lupas. Depois de examinar e reexaminar o minúsculo “bilhete”,o licenciado tirou a primeira conclusão:

– Está escrito em hebraico e árabe e não em aramaico, como pensei antes de analisar mais a fundo.  Em tradução livre diz o seguinte:

“Eu, Moshé Ben Rachel Pinto, damasquino, escriba de Deus, coloquei neste pergaminho a divina Torá, ditada pelo Senhor. Eu, servo do Senhor, só servi com a minha mão humana para registrar os fatos que Deus me ditou. Este livro sagrado é dedicado à  memória do venerável rabino e patriarca da família Barbur, o respeitável e o mais humilde dos humanos Shmuel Ben Sara Rivká Ben Barbur. Originários do Marrocos, viveram lá muitos anos, depois  passaram para a Turquia e lá também se assentaram por séculos. A família inteira abandonou a Turquia com destino a Eretz Israel. Nessa viagem se salvaram, com a ajuda de Deus, do naufrágio da embarcação, chegando, por um milagre divino, sãos e salvos às costas da Síria. Aqui viveu, construiu  uma sinagoga e criou uma grande família de  justos (tsadikim)  e sempre contribuiu com dinheiro para tsedaká ve matan be seter (ajudas e contribuições aos necessitados, anônimas para evitar constrangimentos). Deus abençoe esta mishpahá tsadeket (família de justos). Escrito no idioma sagrado e no árabe aqui usado, no ano da maior produção de olivas em todo o império sírio.”

O coronel olhou para o licenciado Efraim e perguntou:

– O senhor entendeu? Que pode me adiantar sobre minha origem?

– Uma parte está clara. Fugiram da Península Ibérica para o Marrocos, lá não diz quanto permaneceram. Depois se instalaram na Turquia e, mais tarde, na Síria, com um naufrágio no caminho.  Até aí diz o “bilhete”. Quanto tempo ficaram num lugar e noutro, não há suficientes pistas e nem  tenho a mínima ideia do ano da “grande produção de olivas na Síria”. Em Pádua analisaremos com mais detalhes e máximo cuidado e, sem dúvida,  chegaremos a uma conclusão mais aproximada à verdade das coisas. O senhor coronel pensa que seus antepassados saíram para o Brasil, da Grécia ou da Turquia. Olhe, tudo pode ser: o povo judeu  foi um povo errante. Uma coisa está mais que clara: sua família, tanto pelo nome como pelas andanças e lugares onde desenvolveu suas raízes,  tem origem sefaradi! Pelo menos, essa parte de sua história está desvendada. Com seu consentimento, levarei esta caixa para a Itália. Lá, no laboratório cuja especialidade é desvendar o passado das coisas, poderão chegar a maiores detalhes com a ajuda desta relíquia aqui encontrada, através da idade do pergaminho, química da tinta, estilo da prataria, bordado das toucas, qualidade dos diversos tecidos etc. Prometo fazer contato com o senhor logo que tenha maiores detalhes. Proponho que fique com um candelabro para lembrança, um livro de reza (Sidur), uma ou duas toucas bordadas e duas ou três mezuzot para as portas.  Todo o resto levarei para a Itália por navio do Recife. Ao terminar a pesquisa, com seu consentimento, esta relíquia será doada ao pequeno museu etnográfico da Universidade ou  oferecida à Grande Sinagoga de Roma, conforme o senhor achar mais conveniente.

Vou arrumar minhas coisas. Quando tem hoje trem ou ônibus para o Recife?

O coronel tirou do bolso da algibeira seu relógio de ouro Patek Philippe, que passa por  herança em sua família, olhou e disse:

– São  quase 11 horas. Às 14h30 tem ônibus de primeira, muito confortável, para a capital. Se quiser, mando preparar a charrete;  uma outra, com duas pessoas de confiança, o acompanhará por questão de segurança.  O meu pessoal ficará na estação até  o senhor embarcar. Venha  de lá um abraço, licenciado Efraim, eu até comecei a gostar de vosmecê, e é quando o senhor se manda de volta para  a Itália. Se lembre que aqui ficamos à sua disposição para o que der e vier, a casa é sua, estará sempre às suas ordens.

Dona Genoveva e a empregada olhavam aquela cena de despedida entre os dois  adultos com um passado longínquo e, com água nos olhos,  não percebiam que os homens tinham os deles da mesma forma.

* Publicado originalmente em zipora70.blogspot.com.br .

  Revisto e condensado por Renato Mayer.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

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