O sorriso de Jorgina

IMAGENS VitralIa pela calçada da praia em manhã de sol ameno, era mês de junho antes de Santo Antônio. Levava pela mão a Manoela, era babá da menininha feliz da Maria Adélia, e buscava a saúde daquele ar marinho abençoado de Copacabana. Parou por um momento de brisa, olhou para o mar e sorriu. Sorriu de prazer, claro, mas também de bondade, ou de felicidade, daquela bondade feliz que lhe era natural desde menina, criada em Nilópolis com o carinho da mãe. Sorriu, sim, também de outra felicidade, aquela do coração, que havia chegado junto com a carta, a cartinha, o bilhete de Reginaldo pedindo perdão, pedindo volta, jurando amor.

Então era, era um dia propício, eram assim os dias de Jorgina na sua maioria. E sorriu. Só não sabia que estava sendo fotografada no sorriso. Do alto do posto de salvamento, um profissional fotografava instantâneos para uma propaganda da Prefeitura sobre as novas posturas que regulavam o comércio ambulante nas praias. Não sabia que o seu sorriso de dentes muito brancos na face morena de cabelos ondulados e desalinhados pelo vento, não sabia que compunha um instantâneo tão belo e adequado para qualquer ilustração propagandista, não só de dentifrício como de qualquer outro produto gerador de saúde e de bem-estar.

E foi assim que sucedeu que a foto de Jorgina, daquele profissional, foi admirada e vendida a outro, que trabalhava para o marqueting de um banco, que buscava então uma imagem de felicidade, e logo classificou aquela foto como candidata à seleção para o seu objetivo. Tinha de encontrar a pessoa, o fotógrafo da Prefeitura tinha dado a dica, e tinha de obter a autorização da moça, comprar o direito de imagem, o que não seria caro, no caso, talvez até de graça, pela promoção dela, da beleza dela aparecendo em revistas, e este era um fator que conferia um grau maior de pontos àquela foto na avaliação da seleção.

Dinheirinho

E assim tudo se passou: Jorgina foi procurada, localizada com certa facilidade porquanto vinha frequentemente com a Manoela àquele mesmo ponto da praia, em frente à Constante Ramos, e foi inteirada do assunto, do interesse na sua autorização para o uso público da sua fotografia. Nenhum valor de compra foi mencionado, mas foi marcado um encontro no escritório da firma de publicidade, dali a dois dias, no Largo dos Leões.

Ora, foram dois dias daquele sentimento completamente novo na mente simples e morena de Jorgina: a cara dela aparecendo em propaganda de revista, um arrepio, como seria? O inesperado, nunca, nem de longe, rodou aquilo mil vezes na cabeça dela todo o tempo, uma fama de repente. E aquela coisa de direito de imagem, que precisa de autorização e que pode ser vendido, que era aquilo? Que dinheiro podia ganhar, só por isso? Nem perguntou a ninguém, não saberia explicar, não conhecia ninguém que pudesse entender daquilo, nem queria falar com ninguém sobre aquilo. Medo de ser uma enganação, de fazer papel de boba, medo até de cair numa armadilha, pensou em não ir. Mas a vontade de saber o que era, o impulso de viver aquela novidade era invencível, dava um nervoso.

Foi. Não dormiu direito, mas levantou e foi. Decidida e tensa, foi. E não era armação, era coisa séria. Ela ia aparecer na propaganda de um banco como uma pessoa que tinha feito uma coisa certa e estava feliz, recompensada. Sim. E aquilo podia abrir outras oportunidades, de outros anúncios, ela podia ser modelo. Sim. E podia ganhar um dinheirinho logo, assinando a autorização. Sim. Cinco mil reais. Sim.

– Assina? – mostrou o papel.

Vacilou, assim, de repente:

– Amanhã, está bem?

– Amanhã? Sim, amanhã. Por que amanhã?

– Bem, é melhor, penso mais um pouco.

– Está bem, mas amanhã mesmo?

– Mesmo.

– Espero você aqui à mesma hora.

– Sim.

Saiu e não sabia. O alvoroço, a confusão na cabeça, a vontade enorme de aceitar, e o medo, a vida simples que gostava, seu trabalho, sua gente, Reginaldo agora decidido, casamento, seu caminho natural, de repente aquilo, parecia tentação, volúpia, coisa do maligno, fama, dinheiro, o medo e o impulso terrível da vontade.

A mãe arregalou, disse “vai, filha, o que cai do céu não se rejeita”. A irmã Celina esbugalhou ”vai que é a sua; pede mais que eles te dão; pede dez mil”. Avantajaram a vontade dentro dela: não era do mal, mãe sabe quando é, não podia vir do mal, era uma bênção.

Só faltava Reginaldo, e Jorgina temia, a intuição lhe dizia. E não deu outra:

– Não vou casar com uma modelo, que todo mundo fica vendo e querendo.

Ela sabia. Pior é que tinha sonhado, pra depois vir aquela cortada, um não peremptório. A frustração funda, quase revolta, não era ainda seu marido, direito não tinha nenhum. Mas era o seu homem, que a vida lhe tinha destinado, o destino, a vida, a sua vida, o seu mundo, a sua gente, o seu limite, sim, aceitava o mando do seu homem e rejeitava aquele sonho vão, que não era do mal, mas era irreal.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar