O filme da guerra

O escritor David Grossman durante manifestação

O escritor David Grossman durante manifestação

David Grossman é um escritor pacifista judeu-israelense nascido em 1954. Já nasceu num Estado independente. Filósofo, faz da literatura sua arma para defender ideias.  Em 2004 publicou Mel de leão, onde retrata Sansão como um nazireu que adquiriu sua força ao comer favo de mel que tirou da boca de um leão. Dalila é filistina, e ao descobrirem que Sansão é judeu, os filisteus sentem-se ultrajados pelo amor de um judeu a uma filistina. A amante Dalila descobre que o segredo da força de Sansão está em seus cabelos e os corta. Aprisionado, acorrentado às colunas do Templo, Sansão retira do seu interior o que lhe resta de forças e, num último esforço, derruba as colunas do Templo.  Todos que estão lá dentro sucumbem em uma guerra insensata.

Seria uma metáfora a Israel e Palestina? Esta é apenas a introdução do livro. Na segunda parte, Grossman tenta explicar a possível convivência dos dois povos.  Em 2006, no final da invasão do Líbano por Israel, quando as tropas já se retiravam do território ocupado, morre seu filho Uri, a quem Grossman dedica longa carta falando das ideias progressistas de um jovem oficial do exército preocupado com o respeito e os direitos humanos. O pacifista morreu como tanquista na invasão de Israel ao Líbano da qual pai e filho discordavam (http://elpais.com/tag/david_grossman/a/).

Difícil enredo de um filme que, para quem está fora de Israel, é incompreensível: o que faz um jovem pacifista a bordo de um tanque de guerra? Por que a defesa de Israel está centrada no uso de armas de guerra e não na força das ideias humanistas que alimentam os escritores, filósofos, sábios judeus, há milênios?

A mesma lógica prevalece para os homens-bomba palestinos.  Muitos meninos, muitas meninas, que só veem a solução na morte, na solução final do outro, alimentados por um ódio milenar.

O que fizemos de errado? O cinema em parte dá esta resposta no filme Kedma, de Amos Gitai. Kedma trata do processo de implantação do Estado de Israel durante a guerra de independência, em 1948. Nesse  momento encontramos as sementes do drama que germinou e gerou o mundo  de violência e intolerância que vivemos hoje.

O personagem Janusz, recém-chegado da Europa, escapa do Holocausto e busca a paz em Israel.  Logo no desembarque do navio Kedma é armado para combater árabes e ingleses na luta pela independência. No final do filme, num plano-sequência de 8 minutos, Amos Gitai, cineasta fã de Glauber Rocha, narra o desespero de quem busca paz e encontra mais guerra. Janusz desabafa a solidão dos judeus.

O outro personagem-chave é Yussuf, árabe que mora em território onde será implantado Israel. Expulso de suas terras, ele amaldiçoa e promete lutar contra o novo Estado e fala da nacba  (com este filme aprendi a palavra árabe que quer dizer humilhação, vergonha). Enquanto mundo afora os judeus comemoravam o novo Estado, os árabes amaldiçoavam nossa terra prometida, Eretz Israel.

Nenhum livro onde estudei sobre Israel me conta essa história. O cinema israelense, de Amos Gitai, conta melhor, de forma mais realista, a verdadeira história do Estado de Israel, e a partir de então começo a entender a real dimensão do conflito.

Em 2002,  através do filme Kedma entendi mais do que através do que os norte-americanos mostraram com Exodus (1960), filme de Otto Preminger baseado no romance de Leon Uris. O filme de Gitai é bem  mais próximo da realidade.

Federação

Voltando aos dias de hoje, tecnologicamente, Israel está muito mais preparado para a guerra, mas deveria saber que, guerreando, não conseguirá alcançar a paz. Os árabes são bem mais numerosos e o tempo age a favor deles. Nunca é demais lembrar a derrota a que França e Estados Unidos foram submetidos pelo Vietnam, em 1954 e 1975, numa guerra desigual em termos de armamentos e tecnologias. Usando armas artesanais os vietnamitas derrotaram duas potências. Entre Israel e Palestina, a paz só será construída através da coexistência. Pela guerra não haverá Israel no futuro. Talvez tampouco Palestina, se Israel resolver usar a bomba atômica e destruir o templo com todos dentro.

Tudo isso para dizer que não participarei deste Corinthians e Palmeiras nem das brigas na arquibancada, apoiando, de um lado ou de outro, uma violência insensata, cujos únicos beneficiários são políticos sanguinários que não se preocupam com o bem-estar de seus povos e a indústria bélica, que vai muito bem, obrigado.

Manifestos circulam, uns apelando à paz, outros justificando a violência, outros ainda tomando partido de um dos lados. Respondo com a frase de Jacques Prévert: “Que babaquice, a guerra”.

Quem é mais canalha, o que atira sem piedade em alvos que fazem crianças de escudo  humano, ou os que se escondem em escolas, igrejas e hospitais? Sem esquecer de contar “os humanistas” que  tomam partido de um lado ou de outro, incentivando o ódio de uns contra os outros.

Os responsáveis por essa carnificina deveriam ser julgados e condenados como criminosos de guerra junto com os fabricantes de armas e seus lobistas. Aí, sim, estaremos dando um passo em direção à paz.

Utopia? Utopia pura, pura utopia. Qualquer medida menor que a luta pela paz é mero paliativo. E passaremos a vida discutindo limites das fronteiras. Façamos melhor, rebentemos as cercas e os arames farpados das fronteiras, destruamos os muros, e construiremos um mundo de paz. É o mínimo que precisamos.

E não nos deixemos impressionar pelas imagens de guerra. São todas fabricadas a serviço de um lado ou de outro. Não há inocência nas imagens de guerra. Construamos imagens de paz, dessas que não se veem na TV, mas que pulsam em corações palestinos e judeus, cansados de guerra.

Dois estados para dois povos vai se tornando insuficiente. Devemos começar a pensar numa federação palestino-israelense como já propõem alguns intelectuais israelenses (Para quem quiser saber bem mais, recomendo assistir à entrevista de Guila Flint à TV Brasil, onde ela brilhantemente descreve a responsabilidade israelense na criação do Hamas e fala da proposta de federação entre judeus e palestinos. Vale a pena assistir. http://tvbrasil.ebc.com.br/espacopublico/episodio/espaco-publico-recebe-a-jornalista-brasileira-guila-flint ).

Deixem Sansão e Dalila namorar em paz, e não haverá destruição do Templo.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

É cineasta.

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