In vino veritas*

Octávio Malta

O velho Octávio Malta¹ escrevia uma deliciosa seção diária, na Última Hora, com esse título. E o que ele dizia, nas entrelinhas, era que, sob a ação do vinho, prevalece a verdade, e as palavras proferidas nesse estado são sinceras e espontâneas.

O vinho balizou os poemas, aguçou o olfato e o sexo entre macho e fêmea.

Com uma boa taça de vinho à mão, especialmente num fim de semana prolongado, temos o dia para discutir Nietzsche e Chomsky, filosofar Platão e Leibovitz,  descobrir Aristóteles e Moses Hess. Dia de resenhar as leituras da semana acreditando no humano sonho de Ícaro.

E o vinho, a água ardente e até a cerveja alegram as horas de tertúlias amorosas, somadas às gargalhadas de quem sabe ser feliz. Llosa, Neruda, Hugo, Lobato, Machado, Philip Roth, Amós Oz.

Porque a vida só é possível reinventada³.

Promoção

Samuel Wainer z’l tinha dessas coisas. Eu, com pouco mais de 20 anos,  já havia passado por quase todos os cargos e posições na Redação da Última Hora. Um dia, Samuel decidiu me colocar no fechamento da edição vespertina², iniciando o expediente às 6 horas da manhã e na companhia de dois redatores, o copy Mario Curvelo (conhecido por acumular três ou quatro empregos quase simultâneos) e o ícone Octávio Malta. Malta estava na UH desde a sua fundação, foi o primeiro organizador da Redação e, no início do jornal, seu editor-geral. Pois bem, o Samuel me colocou chefiando a Redação, naquele horário matutino. Me colocou como chefe do Malta!

Fiquei profundamente inseguro, como é que eu poderia “dar ordens” ao Malta?! Pois o grande Malta percebeu meu incômodo, me chamou para um cafezinho e decretou: “Calma, Veltman, chefe é chefe, dê as ordens, eu e o Curvelo vamos cumpri-las. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.”

E assim foi, para o orgulho de minhas memórias.

* In Vino Veritas – No vinho está a verdade, afirmavam os antigos romanos. Queriam dizer que a embriaguez soltava a língua e fazia a verdade vir à tona, no que eles tinham inteira razão, tanto que foram grandes produtores e apreciadores de vinho. Conheciam também a cerveja, o “vinho da cevada”, a que chamavam cervecia, mas não a apreciavam muito. Em todo o mundo mediterrâneo, considerava-se o vinho e o azeite de oliva como  símbolos da civilização, ao passo que a cerveja e a gordura animal seriam  símbolos da barbárie.

¹ Octávio Ribeiro Malta (Pernambuco, 1902Rio de Janeiro, 25 de abril de 1984) foi um jornalista e militante comunista.  Fundou com Samuel Wainer o jornal Última Hora. Opôs-se ao Estado Novo de Getúlio Vargas e ao golpe militar de 1964. Foi preso no rastro da Intentona Comunista de 1935 e teve os direitos políticos cassados pelo regime militar.  Morreu aos 82 anos, vítima de edema pulmonar.

² Naquele tempo, a Última Hora tirava duas edições diárias, uma matutina, encerrada no fim da noite, e outra vespertina, nas bancas a partir de 11 horas.

³ Trecho de Reinvenção, de Cecília Meireles:
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas…
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo… – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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