Imprensa judaica argentina: brevíssima relação

Di Presse – 19-6-1963

Por motivo da celebração dos 25 anos de existência do Boletim da ASA e desta sua edição n° 150 – o que constitui uma façanha – , resolvemos abordar o tema da longa e rica trajetória da imprensa judaica na Argentina.

Em 1898 apareceu o primeiro jornal judaico no país. Até 1989, em um século, registraram-se ao todo umas 350 publicações compreendendo uma ampla gama de formatos (revistas, jornais, boletins), periodicidades (diários, semanais, quinzenais), duração (de alguns dias a mais de 70 anos de existência), tipos e graus de vínculo institucional (de independentes a porta-vozes institucionais e a subordinados), além de uma singular diversidade linguística (ídish, castelhano, hebraico, alemão, húngaro, árabe, ladino), ideológica (integracionismo liberal, sionismo, sionismo socialista, bundismo, anarquismo, comunismo) e temática (informação geral, política, cultural, infantil, cooperativista).

Quase sem exceção, a mídia e os jornalistas judeus sempre foram abandonados e inclusive combatidos e assediados pelo establishment institucional da comunidade. Todos os empreendimentos jornalísticos judaicos foram quixotismos de indivíduos que, movidos por uma convicção férrea, rumaram contra o vento e a maré apesar do establishment comunitário.

Como não somos  historiadores e aceitamos as colaborações de memorialistas e estudiosos, lancemos mão das lembranças.  Na casa de meus avós maternos recebia-se tanto o Di Ídishe Tsáitung (DIT), de tendência conservadora, quanto o Di Presse, esquerdista. E mesmo o meu zeide e a minha bobe sendo progressistas,  queriam  conhecer várias opiniões, queriam colaborar com tudo o que dissesse respeito à comunidade e faziam questão de ler  (compreender, comentar, pensar) em ídish… daí a amplitude de interesses.

Ideários

Esses e outros meios de comunicação nasceram de cooperativas de operários de esquerda, em geral muito pobres, que pretendiam difundir ideais socialistas, servir de vínculo cultural e identitário entre os imigrantes de fala ídish. Foram um marco na vida daqueles imigrantes.

Di Ídishe Tsáitung agrupa jornalistas, literatos e intelectuais ligados, em diferentes momentos de suas trajetórias, a projetos jornalísticos gerais ou sionistas de centro. No Di Presse, pelo contrário, reuniam-se escritores e jornalistas de esquerda. Ambos atuaram como rede de sociabilidade e formação  intelectual, como instância de elaboração e difusão de discursos políticos e ideológicos distintos, e como ponte  com o mundo judaico do exterior.

Di Ídishe Tsáitung ,  nascido em 1914 e encerrado em 1974, atingia, em linhas gerais, os setores mais tradicionalistas e estabelecidos da comunidade.

O Di Presse (A Imprensa) tem suas raízes no efêmero Di Naie Tsáitung (O Novo Jornal), por sua vez originado do DIT, em 1917. Nascido em 1918 e fechado em 1993, Di Presse é o jornal diário progressista mais relevante da história judaica argentina. Pínie Katz foi seu fundador  e diretor entre 1918 e fins da década de 1930.

Outro veículo de imprensa foi o Nueva Presencia (NP). Dirigido pelo jornalista Herman Schiller, escrito em castelhano e nascido nos anos de chumbo da ditadura militar, sempre assumiu uma postura combativa e valente na luta pelas liberdades públicas, contra o antissemitismo (às vezes oculto, outras vezes aberto) do regime genocida e, no fim de sua existência, na denúncia das violações dos direitos humanos na Argentina.

Criado em julho de 1977 como suplemento do Di Presse, último jornal em ídish editado na Argentina, NP logo tornou-se independente e, junto com The Buenos Aires Herald,  denunciou as violações aos direitos humanos no país. Fechou em 1993.

Da imprensa progressista judaica, mas sem a repercussão do NP, foi a revista Tiempo, editada entre 1968 e 1987 e cenário predileto dos integrantes do ICUF, que fizeram refletir em suas páginas os avatares políticos pelos quais precisavam transitar. Atravessou duas ditaduras (Onganía – 1966-73 – e Videla – 1976-83), sendo dirigida por Julio Schverdfinger e Alex Szaragat. É testemunha das transformações e dos conflitos políticos no interior da comunidade e das tensas relações e configurações de sentidos da política nacional argentina.

Durante vários anos, o espaço progressista tentou manter sua presença através da mídia escrita. O último esforço foi Comentarios y Opiniones, dirigido por Angel Grushka. De saída irregular, mas com a contribuição de numerosos colaboradores, estendeu-se até meados da primeira década do século 21.

A grande maioria dessas publicações pertenceu a cooperativas, ou a herdeiros ou a algum empresário; cada edição significava um esforço enorme; funcionaram com uma austeridade muitas vezes heroica,  inclusive pondo em risco, em mais de uma oportunidade, a própria existência. Finalmente, vencidas pela realidade econômica e  apesar de suas incríveis contribuições à dignidade judaica, acabaram fechando.

Nueva Sion tenta ser uma Nueva Presencia atualizada, tanto no formato como no ideário, como porta-voz do Meretz-Argentina,  e ocupa e vem consolidando um lugar-chave na coluna vertebral do sionismo de esquerda em língua castelhana. O grupo Convergencia para un Judaísmo Humanista y Pluralista edita uma publicação mensal de excelente conteúdo e tamanho.

La Luz, Mundo Israelita, Comunidades, La Voz Judia, Davar, OJI, Majshavot, Masorti, Jabad Magazine e algumas outras publicações são expressões dos partidos políticos israelenses e seus seguidores locais, agrupações religiosas de diferentes matizes, particulares ou de outras organizações que as tiveram ou têm com a finalidade de difundir o seu pensamento.

Muitas desapareceram e outras continuam, às vezes penosamente. Resta às sobreviventes uma tarefa artesanal, que se baseia no voluntariado e sacrifício permanente de seus fazedores.

Rádio, TV, web

Programas de rádio como a histórica Ídishe Shu, a Juvenil Hora Hebrea, Israel en Buenos Aires, Emet e algumas outras foram sempre esforços solitários de seus realizadores, que, em muitos casos, sofreram penúrias inenarráveis para sustentar essas loucuras contra o vento e a maré enquanto o corpo, a resistência e o bolso lhes permitiu.

Nas últimas décadas, a dos meios de comunicação de massa, após o nascimento da Radio Jai e inclusive como consequência, nasceram a Radio Shalom, o canal de televisão  Alef Network e o seu continuador Menorah.

A AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), instituição-mater que administra o orçamento mais vultoso da comunidade (produto sobretudo da administração dos cemitérios), investe nos meios de comunicação judaicos, de acordo com informação extraoficial de seus dirigentes, menos de 1% do que arrecada anualmente. Informalmente, sabe-se que a Radio Jai recebe 12% da verba publicitária.

Não estaria completa esta crônica se não incorporasse a mídia surgida com a internet: Shalomonline, Radiojai, DelaCole, Itongadol, AJN, Visavis e outros. Alguns fecharam e outros realizam sua tarefa sem os recursos mínimos necessários.

Este breve apanhado das publicações judaicas em Buenos Aires revela um espaço denso de produção, circulação e consumo de bens simbólicos sustentado por um conjunto de intelectuais, jornalistas, escritores e militantes sociais, comunitários, políticos, radicados no país e no exterior, e por um público leitor com características singulares, que se diferencia do de publicações mais gerais por ser simultaneamente judeu e argentino.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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