Ein Breirá?

Haim Arlozorov

O desenrolar dos acontecimentos em Israel mostra mais uma vez que a lógica da mesmice impera. Estes ciclos de guerra são mais do mesmo, e enquanto não se encerrarem as atuais rodadas de lágrimas e dor, as sociedades israelense e palestina serão cada vez mais envenenadas e corroídas pelos gritos de vingança seguidos por atos intempestivos. Sair desta armadilha é o primeiro estágio para se perceber o que está em jogo. Na superfície dos fatos, muitos ficam discutindo quem lançou a primeira pedra como se uma resposta taxativa encerrasse o conflito e os lutos. O problema não é quem tem razão, mas os lados que pensam ter razão absoluta. Dentro desta ótica o futuro será a mesma coisa.

Ninguém contesta o direito de autodefesa de Israel, mas os limites entre autodefesa e  agressividade desabrida são cada vez mais tênues e, certamente, levarão a novo cessar- fogo precário e à manutenção de um status quo insuportável. Por outro lado, está à vista que nenhuma solução militar vinga.

É uma contradição o governo israelense querer, concomitantemente, uma dominação e opressão “tranquilas” na Cisjordânia e Gaza sem eventual ou permanente estado de guerra ou sem terrorismo bárbaro. A usurpação territorial e política nunca foi resposta e remédio ao terrorismo, muito pelo contrário, é a razão primordial para seu aparecimento e acirramento. Não querer a guerra e sabotar a paz é uma quimera.

A verdade nua e crua é que não estamos na Cisjordânia para lutar contra o terrorismo, para salvar a pátria, pela eternidade e segurança de Israel, etc. etc. Esta não é (e nunca foi) a causa primordial para que governos de Israel ocupassem e assentassem colonos nos territórios. No caso dos três jovens, mortos barbaramente, isto se deu debaixo de um estrito controle militar israelense. A insurgência não será extirpada. Atrás dela, além de armas e fanatismos, existem corações e mentes moldados por ressentimentos históricos. As legiões palestinas insatisfeitas se identificam cada vez mais com os extremistas dessas causas, e o processo continuará, caso as suas principais demandas não sejam atendidas.

O foco do problema

Há que se ver, apesar do momento, a floresta e não as árvores. Esta Gaza II surgiu em consequência do vácuo causado pelos impasses das negociações com os palestinos. O governo de Israel, por esta razão, pode dizer que venceu combates, mas todos sabem que perdeu a guerra. O conflito só se encerrará encerrando-se o conflito. Pretensas vantagens ou desvantagens circunstanciais de um sobre o outro geram ilusões de que o atual status quo pode vigorar ad eternum, quando dados concretos apontam o contrário.

Esta imobilidade patrocinada atinge tanto os de boa-fé quanto os de má-fé. Os pregadores de uma única solução militar, colonizadora e unilateral são aqueles que traíram Rabin – mártir de uma mudança de paradigma  –   e que hoje estão por aí, espalhando incertezas sobre o futuro de Israel sob o pretexto fútil de uma meia ou inteira Grande Israel.

Daí ao famoso e resignado ein breirá (não tem jeito ou opção) é um passo. Assim é, assim será, dizem os resignados ou mal-intencionados, o que equivale a chancelar a expressão. O impasse e seu cultivo proposital se ideologiza como profecia de um futuro estático e distorce a forma de atuar e enxergar a realidade presente. A eternidade não se impõe, mas é imposta e se congela em uma inércia inviável, tornando-se um engodo para lá de mal-intencionado. O foco no agora não é desnecessário, mas a urgência do presente curto serve de biombo para o adiamento de tudo. Enquanto Hamas e Gaza forem os únicos assuntos, estaremos nos desviando do essencial. Esse novo embate é parte de um mesmo contexto vigente desde 1967. Esta guerra não é um acontecimento autônomo; o Hamas não é o conflito, mas parte do conflito. Ele é mais consequência do que causa. O diagnóstico de que só uma paz acordada pode conter a violência não é apenas “politicamente correto” ou “humanista”  –  como muitos debocham e desdenham em Israel  – , mas elementar! Enquanto persistir, não haverá solução à vista.

A ocupação israelense é o foco do problema; os confrontos sazonais acabarão tornando o impasse insolúvel. A inflexibilidade do governo israelense foi o adubo para o crescimento e prestígio das opções descabidas e mortíferas. Ninguém com a cabeça no lugar é a favor desta sangueira. Gaza já foi atacada duas vezes e nada mudou, e haverá, depois desta, uma nova rodada e mais outra… e a espiral de guerra tende a prosseguir sem novidade no front.

Perceber este processo não é cansaço, mas pragmatismo realista, o mesmo que fez o belicoso Rabin mudar de rumo. O lado viável para negociações de paz atualmente é a OLP, mas esta opção foi e está sendo, paradoxalmente, cada vez mais sabotada e enfraquecida pela obstinação em se manter tudo como está através da criação de obstáculos crescentes nas negociações e da continuação maligna dos assentamentos em terras alheias.

Mais além, apesar das diferentes causas para os conflitos atuais no Oriente Médio, um de seus estopins históricos foi e é o embate israelo-palestino, biombo atrás do qual se esconderam e se escondem as inquietudes locais. Enquanto persistir,  será mais lenha na fogueira e pretexto para o desencadeamento de  movimentos hostis.

Cada vez mais a radicalização dos cenários  principalmente os fracassos das negociações de paz  – enfraquece os moderados na área e torna mais remotas as possibilidades de acordos de paz. Tal processo pode chegar ao extremo de não haver mais segmentos internos que atendam, dos dois lados, a esta possibilidade. Restará uma intervenção externa constrangedora ou alguma desgraça suprema na direção dos ventos fratricidas.

Realidade complexa 

Enquanto isto, caminha, apesar dos protestos do governo, a deslegitimação de Israel. Embaixadores são chamados, e não somente aqueles bolivarianos. Boicotes vários são propostos contra produtos e segmentos israelenses. A reversão desta tendência  – apesar do desdém de parte da opinião pública israelense  – é e será primordial para o bem-viver do Estado de Israel. Cabe às pessoas de bom senso ficarem atentas a esta corrosão e ao isolamento que leva esta nação, hoje, a só depender do voto e veto dos Estados Unidos em todas as entidades internacionais. Até quando será possível manter tal posição? O isolamento pode abalar, no limite, até mesmo seu direito de existência  tão arduamente alcançado, transformando-o em uma entidade pária, como aconteceu com a África do Sul branca. Tal previsão não é delírio, mas processo, com avanços e recuos, em andamento.

Não há outra saída: como fez Rabin, atacar radicalmente a base do problema que envenena o resto e dá legitimidade aos fundamentalismos inaceitáveis de ambos os lados. No entanto, na realidade, governos sucessivos de Israel, nos últimos tempos, têm, propositalmente, sabotado qualquer avanço. Neste vazio de perspectiva, o que se pode esperar?

Em tempos de guerra as patriotadas vazias e grandiloquentes contaminam a percepção mais equilibrada dos fatos. Resumo da ópera: a vingança e o anjo da morte prevalecendo nas ruas e nos combates. Dizem os extremistas que com terroristas não se negocia. Mentira. Se o adversário quer sentar, não se pode de antemão recusar. O que foram o contato de Rabin com Arafat e toda a negociação por Guilad Shalit? Até  Kerry está em tratativas com o Hamas !!!  Para os de memória curta: a Organização Sionista negociou com os nazistas, em 1933, o que se chamou Transfer, que permitiu a saída de judeus alemães de lá  até 1938 em troca de compra de mercadorias alemãs por parte desses imigrantes forçados  com destino a Israel. Enquanto os judeus americanos pregavam o boicote às mercadorias alemãs, o sionismo apoiava a compra para que os judeus pudessem  sair da Alemanha com bens. Quem tratou do Transfer foi Arlozorov, assassinado pelos antecessores do atual Likud, justamente por esta razão. Sokolov, na década de 1920, mantinha contato e visitas a Mussolini etc. etc. A realidade é muito mais complexa do que uma cartilha de propaganda.

Pikuach nefesh  prioriza um acordo de paz, e não reincidentes selvagerias. Ninguém é profeta, mas, caso  ocorra, pode mudar todo este quadro viciado e refazer expectativas, hoje, cada vez mais  longínquas.

Chega de discutir guerras, uma atrás da outra, em vez de discutir a paz.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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