A romã nas três culturas mediterrâneas

Uma antiga canção hebraica descreve assim a romã: “O aroma da romãzeira está em toda parte, é levado pelo vento desde o Mar Morto até Jericó …”

A origem da palavra romã é controversa. Segundo alguns autores, viria do hebraico rimmon; segundo outros, do árabe rumman. Quem sabe seria uma mistura das duas, já que em português arcaico era chamada romana ou maçã romana? Em espanhol, a forma utilizada é granada, que provém do latim malum granatum, que significa ‘maçã com muitas sementes’. Em judeu-espanhol, há duas formas derivadas do latim: granada ou agranada; e uma forma derivada do catalão e do aragonês: mangrana. As formas granada/agranada são usadas pelos sefaradis ocidentais, enquanto a forma mangrana é usada nas comunidades sefaradis orientais*.

Em Rosh Hashaná é comum consumir romãs, símbolo de fertilidade, renovação e prosperidade. Esse simbolismo não se restringe somente ao judaísmo. Nas outras culturas mediterrâneas – a cristã e a islâmica – a romã também é símbolo de muitas virtudes.

A romãzeira é uma das árvores citadas no Alcorão. A aleya (versículo) 68 da sura (capítulo) de Al-Rahman diz: “Nos dois (jardins) haverá frutas, palmeiras e romãzeiras.”Maomé disse que “quem comer uma romã inteira terá seu coração iluminado por Deus e se afastará dos enganos do demônio e da tristeza por 40 dias”; e aconselhava: “Coma uma romã para se livrar da inveja e do ódio.”

No cristianismo significa vida eterna e fertilidade. A romã aparece em obras de arte, principalmente em pinturas de Maria e de Jesus menino. É muito conhecido o quadro La Madonna della Melagrana, de Botticelli (1445-1510). O menino segura uma romã aberta, símbolo de plenitude espiritual. Na iconografia cristã, costuma fazer referência à Paixão de Cristo, com a profusão de sementes significando a plenitude do seu sofrimento. San Juan de la Cruz (1542-1591), um dos maiores poetas espanhóis, no seu “Cântico Espiritual”, reconhece  na fruta as virtudes e os atributos divinos, que são inumeráveis  como suas sementes.

No judaísmo, a romã é símbolo de integridade, porque suas 613 sementes correspondem às 613 mitsvot da Torá. No Cântico dos Cânticos, as faces da amada “por trás do véu, são como as metades de uma romã”. A fruta aparece representada na arquitetura e nas formas dos objetos: nas colunas do Templo do Rei Salomão, nos trajes e nas joias dos reis e dos sacerdotes. A romã tem um cálice em forma de coroa, que, segundo a tradição judaica, inspirou a forma das coroas dos reis. Em Rosh Hashaná deve-se comê-las, para que os méritos possam crescer como suas sementes. A bênção ”Yehi Ratzon Milefanecha Ado-nai Elo-henu Velo-he Abotenu Shenihie Meleim Mitsvot Carimon” significa “Senhor nosso D’us, o D’us de nossos pais, que nossas mitsvot cresçam como os grãos da romã”.

* O judeu-espanhol se divide em dois ramos: o oriental e o ocidental. O oriental se desenvolveu no Oriente do Mediterrâneo, no antigo Império Otomano (Bálcãs, Turquia) e em Israel – é também chamado de ladino. O ocidental se desenvolveu no norte do Marrocos, onde recebe o nome de haquetia.

Boletim nº 150 – setembro/outubro de 2014 – An0 26

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder setembro 21, 2016

    Passepartout

    Brillante nota. Llena de conocimiento y sensibilidad. ”Granada, tierra soñada por mí / mi cantar se vuelve gitano cuando es para tí / mi cantar hecho de fantasía / mi cantar flor de melancolía / que yo te vengo a dar.
    Granada, … te sueño rebelde y gitana, cubierta de flores, y beso tu boca de grana, jugosa manzana, que me habla de amores”. Gracias Cecilia por su HERMOSA E INFATIGABLE tarea. Bendiciones y Almendrikas.

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