Segredos do quarto escuro (parte 2)

Rolo da Torá

Rolo da Torá

Dona Genoveva veio avisar que a ceia está posta na mesa e que todos estão convidados a lavar as mãos e sentar-se para jantar. A caixa com a judaica foi levada de volta para o “quarto escuro”, até a manhã seguinte quando voltaria a ser analisada. 

A pedido do Licenciado Efraim deixaram uma caneca para que ele lavasse suas mãos antes de sentar para jantar. Vale a pena lembrar que judeus religiosos lavam as mãos despejando a água duma caneca e nunca diretamente da torneira ou da fonte.

[A água é o líquido da vida que propicia a existência de todos os tipos de flora e fauna. Como o ato de comer pode ter um foco materialista e baixo, mas também possui um sentido espiritual, uma vez que a comida e o bom sabor dão força e alegria para levar uma vida significativa, deve-se purificar as mãos em água, a base da vida no mundo. Diz-se que a água que vem diretamente da torneira ou, no passado longínquo, de uma fonte, pode estar impregnada de impurezas grosseiras e colocá-la antes em um recipiente possivelmente possibilitará retirar tais impurezas antes de sua utilização.]

Quase não se falou durante a ceia.  Dona Genoveva sentou-se e deixou a empregada que vinha nos dias de visitas dar uma mão nos trabalhos caseiros e servir a comida.

Como sempre, no jantar eram servidos ovos da granja, croquetes de verduras, carne de pato temperada com pimenta malagueta e outros condimentos de cheiro e gosto, pois sem eles esta carne não tem graça, além de arroz, pão comprado numa padaria próxima, café coado no bule e uma fatia de queijo tipo “coalho de Minas” e umas tantas de goiabada Peixe, de Pesqueira.

Ao terminar fizeram a digestão deitados nas redes no alpendre. Beberam água fria das quartinhas e foram dormir.

O amanhecer do campo é mesmo madrugar.  Já às quatro da manhã, a empregada e Dona Genoveva estavam de pé, atiçando o fogo e preparando o “pequeno almoço” (uma expressão que só ouvi no interior). Este “pequeno almoço”, às 5 horas da manhã, é o nosso conhecido café matinal.

Prepararam num dos terraços uma bacia com água morna, um pedaço de sabão de coco, uma toalhinha de rosto para o licenciado se lavar ao despertar.  O coronel tomava uma ducha de água gelada que vinha da caixa d’água no telhado.

Interessante que o coronel, ao se banhar, cantarolava ou assobiava o hino francês A Marselhesa, lembrança ruim do tempo em que fez, em Toulon, na França, o curso de artilharia quando servia no glorioso exercito brasileiro! Então, em qualquer dificuldade da vida, era o que lhe saía dos lábios.

Na mesa do “pequeno almoço”, como de costume, o café da terra cheiroso demais, macaxeira rosa com manteiga, mingau de maizena, (com canela e cravo da Índia), estrias de carne do sol e a eterna fatia de queijo com goiabada de sobremesa.  Os guardanapos muito brancos com monogramas em azul, o açucareiro com açúcar mascavo úmido, produto de algum engenho vizinho, o saleiro e o paliteiro sempre estavam presentes. Este último era em forma de um peru ou um bacurau (ave também conhecida como curiango) e nele estavam espetados os palitos, coisa comum no interior, pois no fim de todas as refeições era um prazer e costume fazer uma pausa para palitar entre os dentes.

O coronel costumava dizer: “Uma refeição de pobres numa casa humilde.”  E, só depois disso, era servido o café aromático fumaçando no bule. 

O coronel continuava relatando a Dadinho o desenrolar do encontro com o licenciado Efraim. Dadinho e Susana, sentados abraçados na rede, escutavam e tragavam as palavras do coronel como se fosse o melhor néctar de fruta do conde.

Surpresa

Continua o coronel: “A caixa estava em cima da mesa, o licenciado tirou com muito cuidado o rolo de pergaminho e começou a desamarrar os nós das fitas que o amarravam. Não durou mais que 2-3 minutos, e tudo já estava desatado. Aí começou o verdadeiro trabalho, abrir o rolo que há tantos anos estava sem uso.  Todo cuidado era pouco, sem danificá-lo com o mínimo arranhão no pergaminho nem em qualquer letra do texto. A coisa não era fácil, claro que seria mil vezes preferível fazê-lo num laboratório, como na Universidade de Pádua. Mas estamos no Ipê Roxo, em Triunfo, e estas eram as condições existentes. Então tocamos para frente.

Devagarinho, devagarinho, o licenciado suava frio e ia abrindo o Livro dos Livros, a Torá dos judeus. A cada movimento se escutava nitidamente o ruído com que ela ia descolando uma face da outra, e o licenciado sussurrava: “Está escutando, senhor coronel, este é o cantar sagrado da Torá ao receber novamente a liberdade.  Esta é a sua função principal, sempre estar às ordens, aberta para o uso religioso, nas rezas do seu povo.”

O licenciado parou por uns minutos, estava muito tenso e necessitava de um descanso. Pegou na mão do coronel e o aproximou: “Venha ver, coronel, veja como as letras são tão bonitas, veja que caligrafia, e esta tinta preta dá a impressão de que as letras estão em alto relevo, não é?”

O coronel nem respirava, só balançava a cabeça em sinal de aprovação.

Dona Genoveva trouxe limonada e bolachinhas caso os “arqueólogos” tivessem necessidade de mastigar algo, vivendo este clima de tensão danado, desde de manhã cedinho.

– Você sabia, coronel, naquele tempo não se comprava a tinta na quitanda, esta tinta é algo muito especial, não é tinta comum.  A tinta para escrever no pergaminho uma escrita duradoura e que não desbote com o tempo era feita artesanalmente pelo escriba. Dizem que da casca de uma árvore do deserto de nome rotem ou de um inseto parasita dos cactos que, ao ser esmagado, libera um líquido que se utiliza como base da tinta! Tinha que ser um “alquimista” para conseguir esta tinta tão preta e lustrosa. Como nada ficou documentado sobre como esta tinta era elaborada, paira a dúvida se foram realmente estes os métodos usados. O instrumento para escrever era um estilete de madeira ou a pena de um ganso ou outra ave de penas longas. O profissional que se dedicava a esta arte deveria ser um tipo muito especial. Religioso, honesto, não carregar maldade nem crimes de espécie alguma, humilde, bom pai de família e quase sempre um pobre necessitado. Deus o utiliza como seu escrivão.  A este profissional escriba denominam, em hebraico, sofer stam.

Tomaram a limonada e o licenciado voltou à sua faina de descolar e abrir o rolo da Torá.

O coronel indagou-lhe:

– Me diga, senhor licenciado, vosmecê, no fim dos contados, poderá me dar a informação, com o que já temos em mãos, de qual seria a origem verdadeira de meus antepassados, os Barbur? [A palavra barbur, em hebraico, significa “cisne”.]

– Não sei não, senhor coronel! Se não encontrar as pistas para isto nestas escrituras ou nos outros objetos do ritual judaico contidos na caixa, então com certeza, só um bom laboratório, como o da Universidade de Pádua, terá o prazer de responder a esta sua inquietude.

Chegaram ao fim do rolo sem que houvesse problema de espécie alguma, intacto, kasher le mehadrin.  A grande surpresa, porém, foi encontrar (o que não é comum) um pequeno bilhete em papel arroz.

Ali poderia estar contido todo o segredo de quem encomendou ou de quem escreveu este rolo das escrituras sagradas.

* Publicado originalmente em zipora70.blogspot.com.br .

Revisão de Renato Mayer

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

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