Monumento na Praça da Shoá

Líderes judeus com Cristina Kirchner, abril de 2014

Em um  fato sem precedentes, a presidente Cristina Fernández de Kirchner recebeu na Quinta de Olivos, residência presidencial, em abril,  dirigentes de diversas instituições e personalidades do esporte, do espetáculo e de organizações de direitos humanos da comunidade judaica, além de funcionários de primeiro escalão do governo, para anunciar a construção de um monumento em homenagem às vítimas do Holocausto, na Plaza de la Shoá. A praça foi  inaugurada pelo governo há dois anos, no ex-Paseo de la Infanta, num importante local da capital argentina: os parques de Palermo, na interseção das avenidas Del Libertador e Intendente Bullrich.

O presidente do Museu do Holocausto, Claudio Avruj, explicou que a iniciativa remonta a 1995. “É uma notícia muito boa porque era uma dívida pendente. Mais importante do que uma homenagem aos sobreviventes, é uma claríssima mensagem ao mundo sobre a posição argentina com respeito à Shoá, que não dá margem a dúvidas e constitui uma resposta inequívoca aos negacionistas… Trata-se de uma política pública. Certamente receberá o beneplácito e o olhar positivo do mundo inteiro.”

Terminado o encontro, o secretário de Cultura, Jorge Coscia, detalhou o projeto, entregue aos arquitetos Mansilla e Nielsen, vencedores do concurso do Monumento ao Holocausto.  Ele afirmou que a obra começará em breve e sua duração é estimada em “sete ou oito meses, dependendo de questões climáticas… Este monumento, motivo de um concurso em 2009, será financiado pela Secretaria de Cultura”. E sustentou que “apesar de o assunto reacender a profunda dor despertada pelo episódio mais negro que podemos recordar, mantivemos um encontro muito emotivo, que expôs a comunidade judaica em toda a sua diversidade”.

O presidente da DAIA – Delegación de Asociaciones Israelitas de la Argentina, Julio Schlosser, destacou, na conferência de imprensa, que foi um “dia muito importante para a comunidade judaica”, pois “faltava o monumento alusivo ao Holocausto… para demonstrar que as vítimas da Shoá, a parte mais negra da Humanidade, não serão esquecidas”.

Isaac Rapoport, vice-presidente do ICUF, declarou que “foi dado um importante passo adiante não só no que se refere estritamente ao monumento, o que é muito significativo, mas no reconhecimento da pluralidade de vozes e enfoques no interior da comunidade judaica argentina”.

Irã

O representante de Familiares das Vítimas do Atentado à Embaixada de Israel, Carlos Susevich, agradeceu especialmente ao Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos e à Curadoria Geral da União pela rapidez e profissionalismo de seus funcionários na reparação às vítimas daquele ataque terrorista.

Iniciando o ato, a presidente Cristina Fernández de Kirchner ressaltou “a importância da palavra sobre a violência, porque o ódio envenena, faz adoecer e destrói o ser humano… a obra enfatizará a memória e o conceito de que nunca mais venham a ocorrer genocídios e ataques ao ser humano sob nenhuma forma e em nenhum lugar do mundo”.

Minutos mais tarde, a mãe da Plaza de Mayo e sobrevivente do Holocausto Sara Rus, em diálogo com a presidente, disse que “o ódio não leva a nada”, ao que Cristina Kirchner  respondeu que “não há nada mais importante  que uma pessoa que passou o horror da Shoá diga isso… É muito importante que  em uma praça vai-se poder recordar, e não esquecer”.

O secretário de Direitos Humanos da Nação, Martín Fresneda, afirmou que “a Shoá continua nos comovendo. Foi uma das principais e mais graves tragédias que o mundo viveu”. Acrescentou que a presidente insistiu na importância da memória e na necessidade de responder ao ranço dos velhos fundamentalismos com mais vida e trabalho e ações que extraiam o melhor do ser humano”. Por outro lado, ele negou que “a Argentina tenha uma aproximação política com o Irã”. Na realidade, disse, existe um “vínculo diplomático imprescindível para solucionar o grande conflito que tivemos (o atentado contra a AMIA), algo que ainda não se conseguiu resolver… continuo confiando no Memorando”.  Ressaltou que, na abertura das sessões ordinárias do Congresso, a presidente convidou a oposição a propor alguma alternativa melhor para o acordo com o Irã.

A construção do monumento tem enorme significado, considerando-se que a Argentina é o único Estado latino-americano  a integrar a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto – AIMH (antiga ITF). É importante destacar que será monitorada pela Curadoria Geral da Nação (SIGEN na sigla em espanhol), o que reduz as possibilidades de negociatas ou malversação de fundos.

Definitivamente, mais uma contribuição, desta vez do Estado, para a luta e o trabalho contra o racismo e a discriminação, pela convivência e o entendimento.

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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