Espanha medieval: hebraico na poesia laica

Presença Judaica na Idade Média Ibérica:

A poesia laica e o idioma hebraico

Saul Kirschbaum

São Paulo, Editora Targumim, 2008

96 páginas

 

 

A resenha deste livro constitui uma exceção na série de resenhas aqui propostas regularmente. Mas o prazer em ter examinado este estudo – sobre a poesia judaica e o uso do hebraico durante a Idade Média na Península Ibérica – tem de ser compartilhado. Uma das razões da minha escolha é que, apesar de escrito por um professor universitário, o texto se afasta do jargão profissional que tende a manter a crítica inalcançável para leitores em geral. Além disto, esta análise do período e da produção poética judaica medieval é repleta de informações. Muitas delas foram recolhidas de intelectuais especializados em estudos medievais e explicadas num português cultivado e acessível. E é para todos nós, leitores em geral, e também aos dedicados à literatura e à história dos judeus, que este livro se faz muito útil e indipensável para compreender um período da história literária judaica europeia.

A obra está dividida em cinco partes, seguidas pela Conclusão e uma seção bibliográfica: Prefácio, assinado pela professora Nancy Rozenchan;  Introdução, em que o autor expõe como a poesia judaica medieval, entronizada como litúrgica, fez-se paralela à poesia secular, com temas concentrados no ser humano, suas ansiedades e esperanças. Ambos os tipos de escrita poética, tanto a litúrgica quanto a secular, se fixaram no hebraico da época, e esta informação é muito importante, pois o que se pensa, geralmente, é que o hebraico medieval fosse exclusivamente de uso entre religiosos.

Citando pesquisadores, o autor indica que, no século 10° da Era Comum, começavam  a surgir, na Espanha,  poetas judeus estimulados a escrever sobre vários temas, diferentes dos exclusivamente religiosos. Eles colocavam em versos seus desejos e desenganos pessoais, chegando a descrever tanto seus espaços íntimo, social e universal quanto a natureza circundante. A poesia judaica medieval não se limitou a versos litúrgicos, de parte unicamente dos devotos, mas abarcou também a escrita de poemas que auscultavam o coração, o espírito e a mente dos seres humanos, por poetas não religiosos e de acordo com uma perspectiva subjetiva. Era a poesia laica, isenta de louvores ao Divino, trabalhada por judeus medievais seculares.

Elite

No capítulo que se segue, “Contexto histórico”, o autor informa como o meio ambiente, depois que gerações judaicas já tinham passado pelos rigores dos pulsos romanos, cristãos e muçulmanos, tornou-se propício ao surgimento de tal poesia. Os judeus da elite intelectual passaram a ser, até um certo ponto, vinculados aos poderosos e influentes, tanto no reino dos cristãos quanto no reino dos muçulmanos. Mas nem sempre esta convivência lhes era facilitada, pois tinham que escapar de perseguições, conforme os procedimentos dos califados ou das paróquias. Daí que iam do sul para o norte da Espanha e vice-versa, levando consigo o emprego do hebraico e também do árabe. Seu último refúgio seria Portugal, para onde carregaram seu modo de fazer poesia, a mescla de português e espanhol, o árabe e o hebraico.

O veio artístico ibérico judaico foi explorado tanto dentro de circunstâncias nefastas quanto em situações mais favoráveis ao seu desenvolvimento. Por um longo período de tempo, devido a influências e também imposições políticas, o hebraico e o aramaico competiam com o idioma árabe, tanto na escrita como em comunicação oral entre os judeus.  Isto está bem explicado no capítulo “Estruturas internas de poder e movimento de ideias”.

As formas adotadas pelos poetas, segundo o autor, respaldado por eminentes medievalistas, eram em grande parte estruturadas pela poesia árabe. Antes, foram condicionados pela cadência dos textos bíblicos; depois, pelo pensamento paralelo, também encontrado na Bíblia; finalmente, as rimas dos poemas em árabe acabaram por influenciar a poesia em hebraico, como se constata no capítulo “Forma da poesia hebraica na Espanha Medieval”. Na evolução da estrutura dos poemas em hebraico, teve influência a vida palaciana, frequentada tanto por judeus quanto por muçulmanos, nos tempos gloriosos (mas breves) de uma convivência homogênea e inter-relacionada.

Um estudo mais pormenorizado da poética não religiosa se encontra no capítulo “A poesia hebraica secular e a língua hebraica”. Neste, o autor discorre sobre o fenômeno da influência árabe na formação poética hebraica, com a preservação do idioma hebraico como seu meio de comunicação. O árabe e o hebraico, sendo idiomas parecidos, tiveram suas trocas e mímicas, mas cada um conservou a língua materna como base de suas extrações poéticas.

Em resumo, no desenrolar do tema escolhido, Saul Kirschbaum informa sobre a situação histórica em que poetas e pensadores judeus ibéricos – com ênfase nos espanhóis – se evidenciaram na Idade Média, em dois reinos e dois regimes: o cristão e o muçulmano. Sem ignorar este dado, de importância na exploração do veio artístico ibérico judaico, o autor expõe a criatividade deles e também o uso que se fazia do idioma hebraico – que erroneamente muitos pensavam que era usado apenas em textos litúrgicos.

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

 

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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