Em campo: boicotes e política

Copa do Mundo na Argentina

Copa do Mundo na Argentina

“Não misturo esporte com política.” A frase, muito repetida por diversos líderes esportivos, é falsa por si só. No caso do futebol, esporte tão popular no mundo e no Brasil, diversos exemplos mostram como esporte e política sempre caminharam juntos, principalmente quando se trata de grandes eventos esportivos.

A própria ideia de organizar grandes disputas esportivas entre as nações é uma forma política de estimular enfrentamentos pacíficos. Encontros diplomáticos impensáveis em uma mesa de negociação internacional ocorrem em campo, como foi o caso do jogo entre Estados Unidos e Irã na Copa de 1998, na França. De fato, a FIFA, máximo poder do futebol mundial, posicionou-se politicamente de forma aberta em poucas ocasiões, como na exclusão da África do Sul por anos em função do regime do apartheid. Porém, ditaduras e regimes autoritários de um modo geral nunca foram um impedimento para um país ser filiado ou sede de um dos eventos que ela organiza.

Em 1978, por exemplo, a sede do Mundial foi a Argentina, que vivia uma sangrenta ditadura, com milhares de desaparecidos e perseguidos. Tradicionalmente, essa Copa ficou conhecida no imaginário futebolístico como um exemplo de manipulação do evento por um regime autoritário, a seu favor. De fato, a ditadura soube usar a Copa e a vitória como algo positivo para si, como foi feito em 1934 por Benito Mussolini com a vitória italiana na Copa em casa e até por Médici no Brasil, em 1970, com a vitória e o tricampeonato no México. Porém, no caso da Argentina, é importante também pensarmos no outro lado desta atenção que o país recebeu.

A realização da Copa fez com que o país se destacasse mundialmente, e muitas denúncias foram feitas. Foram inclusive criados comitês de boicote na França, o COBA, que se espalharam por outros países europeus. A dúvida entre o torcer e o não torcer que invadia os argentinos também foi um importante ponto de discussão entre os que estavam no exílio, inclusive entre os membros das organizações armadas.

A seleção holandesa, vice-campeã ao perder para os donos da casa, aproveitou a visita ao país para conferir algumas das denúncias que eram feitas na Europa. Eles foram, inclusive, ver a marcha das Mães da Praça de Maio, que se reuniam todas as quintas-feiras, em frente ao palácio do governo, exigindo a volta de seus filhos sequestrados pela ditadura (parte delas o faz até hoje). A participação da seleção holandesa no ato significou pela primeira vez a repercussão internacional da marcha, que foi acompanhada por jornalistas de diversas partes do mundo. Ou seja, foi uma importante oportunidade de denúncia para a organização das Mães que surgia naquela época. E a seleção holandesa não parou por aí. Os atletas se recusaram a receber a medalha do segundo lugar das mãos dos membros da Junta Militar e não compareceram ao jantar entre as duas seleções finalistas, os representantes da FIFA e o presidente local.

Caixões dos israelenses mortos nas Olimpíadas de Munique

Israel não escapou

Outro evento da FIFA que entrou para a história foi o Mundialito, do Uruguai. Em dezembro de 1980 e janeiro de 1981, o Uruguai recebeu as seleções campeãs do mundo até então (com excessão da Inglaterra, substituída pela Holanda, vice-campeã em 1978) para um torneio simples, em comemoração aos 50 anos da primeira Copa do Mundo, que aconteceu naquele país. Para a ditadura uruguaia, a ideia era aproveitar a organização para promover sua imagem, como tinha feito a ditadura argentina dois anos antes. Porém, o efeito foi o inverso. Em novembro de 1980, através de um plebiscito, a população uruguaia havia decidido pela não continuidade dos militares no poder. Com a final do Mundialito entre Uruguai e Brasil, a vitória dos donos da casa levou os torcedores à loucura no estádio Centenário, entre gritos de “vai acabar, vai acabar, a ditadura militar”, que continuaram pelas ruas de Montevidéu, na primeira manifestação social contra o regime.

Os boicotes também não são poucos no mundo esportivo. No caso das Copas do Mundo de Futebol, a Argentina, por exemplo, boicotou as competições de 1934 (Itália) e 1938 (França), alegando que os italianos nacionalizaram seus principais jogadores e com isso deixaram a equipe defasada, e de 1950, no Brasil, por desentendimentos entre as duas federações nacionais. Já o Uruguai também boicotou 1934, alegando que tinham sido boicotados pelos europeus quatro anos antes, e devolveriam a atitude. A Inglaterra, considerada a inventora do futebol moderno, participou de uma Copa do Mundo apenas em 1950, por questões de desentendimento entre sua federação e a FIFA.

A política é tão presente na FIFA que nem mesmo a geografia mundial a limita de manter suas federações satisfeitas. A seleção israelense, por exemplo, já participou de eliminatórias na Oceania, na Ásia, e agora disputa pela Europa, desde que entrou para a UEFA, em 1991. Em sua única participação em Copas, em 1970, a preocupação da FIFA com a seleção de Israel era principalmente relacionada a atentados – o que era compreendido e foi confirmado com o episódio do sequestro, dois anos depois, nas Olimpíadas de Munique. Alguns países árabes, como o Marrocos, disseram que se recusavam a jogar a Copa caso fossem enfrentar a seleção israelense, e foi preciso que a FIFA garantisse que esse confronto não ocorreria.

 

Protesto contra a FIFA

Protesto contra a FIFA

Denúncias

Hoje, a Copa do Brasil em 2014 vem sendo debatida em relação às diversas manifestações contra sua realização. Primeiro, é importante diferenciar que, no nosso caso, não estamos em um regime autoritário, mas em uma democracia. Em segundo lugar, as manifestações de 2013 não começaram pela insatisfação com a forma como os megaeventos esportivos estão sendo organizados.  Porém, certamente eles se tornaram um dos principais pontos de protestos, que ganharam as ruas e criaram um clima pouco receptivo em algumas pessoas.

Os altos gastos, atraso e pouco investimento de fato em infraestrutura, as remoções forçadas e a exclusão da maioria da população do evento pelos altos preços e dificuldades de adquirir ingressos tornaram-se os principais pontos das manifestações. Mas cabe aqui também um outro olhar além do tradicional de crítica aos megaeventos. Países como Alemanha e Inglaterra – que nos últimos anos sediaram megaeventos esportivos – já afirmaram a impressão positiva das denúncias brasileiras em relação à FIFA e ao Comitê Olímpico Internacional. De fato, os megaeventos representam uma ordem econômica e política de instituições internacionais as quais são pouco contestadas por se colocarem como sem fins de lucro. A Copa de 2014 já foi um marco importante neste sentido: mostrou a insatisfação relacionada e este tipo de evento, denunciando os prejuízos de grande parte da população. Foi a primeira vez que a FIFA e o COI foram enfrentados de maneira tão intensa pelas pessoas que os recebem. E o mais surpreendente: logo no país do futebol.

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

É doutora em História pela UFF e pós-doutoranda em História pela UNIMONTES.

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