Após o atentado na Bélgica

Alemanha: cartaz antimesquitas

Na minha geração era impensável partido de extrema direita obter, via votação democrática, lugar relevante no espectro político de nações desenvolvidas, principalmente na Europa. A memória ainda fresca do nazismo respaldava a ideia de “nunca mais”. Mas, como sói acontecer com esse tipo de certeza, ela se desmanchou no ar junto com outros pressupostos.

O primeiro deles era a falsa percepção de que as crises econômicas contribuiriam certamente para o fortalecimento das esquerdas. Acreditava-se, em maior ou menor grau, que “quanto pior, melhor”. Outro dos pressupostos era que “a voz do povo” seria certamente justiceira, tolerante e progressista, pois “a voz do povo é a voz de Deus”.

Constatamos hoje, através das eleições para o Parlamento Europeu e após o atentado na Bélgica, que aquilo que considerávamos basilar não passa de uma variável, sujeita a chuvas e trovoadas. A voz do povo, embora fonte de legitimidade, não caminha sempre de acordo com nossa fé humanista, e existe uma enorme probabilidade de as circunstâncias redundarem em “quanto pior, pior”. Portanto, devemos nos preparar para um período de trevas que pode estar adiante, se não batendo já à nossa porta.

A marcha da insensatez prioriza obtusidades e negativas; o não ao diferente ou ao novo, o não aos imigrantes (árabes, turcos, negros africanos e aqueles procedentes da Europa Oriental); o não à comunidade europeia; o não aos judeus como se os reais inimigos fossem estes.

Paralisados por um medo ao que se apresenta, parte dos votantes europeus anseia reconstruir um idealizado mundo perdido como se fosse possível desconhecer os imigrantes que forçam em massa as portas do continente, fora os já fortemente enraizados, legais e ilegais, e, principalmente, necessários em seus países. Essa postura de negação serve à manipulação da opinião pública, sempre sensível e refém dos enunciados a respeito dos “perigos existenciais”, dando a estes a conotação apocalíptica do tudo ou nada.

Não se perguntam se muros ou contingentes policiais/militares impediram, na História, fluxos humanos. Não se perguntam sobre quem vai tirar o lixo das ruas, construir novas moradias, executar todo tipo de trabalho indesejado pelos nativos; sobre quem evitará os índices de natalidade decrescente em uma população que envelhece rapidamente.

“Ninguém me ama”

O antissemitismo é uma faceta da mesma coisa – xenofobia e racismo – , desperto por uma crise econômica profunda e pela aversão aos imigrantes. É a transposição demagógica de causas internas e dos desconfortos da crise econômica atual para causas externas, a criação de um “eles”, um inimigo pretensamente “não nacional”, como responsável pelos problemas existentes.

No que se refere a judeus talvez seja a parte mais insensata. Contingentes tão reduzidos não ameaçam ninguém, e qualquer “culpa coletiva” é uma balela irracional e louca. Nenhum segmento humano pode ser classificado por meio de categorias psicológicas, criadas para qualificar indivíduos. Afirmar que todos os médicos não prestam, por exemplo, é reduzir um comportamento coletivo a um estereótipo individual. Muitos não se dão conta dessa diferença e nela embarcam (inclusive judeus) no que se refere aos outros. A opressão sobre meu grupo é ilegítima, mas do meu grupo nem tanto, não relacionando o que sofre na carne com os eventos paralelos similares.

O que vai na cabeça de jihadistas (aparentemente responsáveis pelos assassinatos na Bélgica) é um emaranhado cheio de contradições. Não fazem a equivalência entre ser um imigrante árabe repelido na Europa e o ódio mortal dedicado por eles aos judeus. Paradoxalmente, quando os matam no exterior confessam que os consideram uma unidade, sejam israelenses, sejam nascidos em qualquer outro país, ou assimilados completos.

A prática de um humanismo seletivo (só para os meus) é um contrassenso e um isolacionismo. Incluir a ideia de que  “todos (os seres humanos) são iguais perante a lei” é algo mais profundo, extensivo e igualitário.

E neste ponto tocamos no problema da colaboração entre os segmentos vários que compõem nosso meio judaico. Não há no mundo uma única comunidade judaica que seja uniforme e, desde a Emancipação, nossa história se faz permanentemente com a presença e confronto de contrários. Infelizmente, mesmo em certos momentos de crise, os dissensos predominaram quando o inimigo era o mesmo, inclusive no Brasil.

Frente à intolerância alheia, cega e virulenta, cabe estabelecer a exata dimensão deste aspecto colaborativo sem sufocar divergências e sem exclusões, pois os extremismos ameaçadores obrigam aos portadores de uma identidade afetada tomar uma atitude pró-ativa de defesa coletiva, e nós (judeus) sabemos disso muito bem.

Outro aspecto é o contexto ser assimilado no meio judaico somente como um “sofrimento judaico”, sem percepção do entorno e dos parceiros da mesma desdita, o que é cognitivamente ilógico. Não existem barreiras ou contradições entre ser judeu e ser humano. Cada uma destas categorias está atrelada à outra.

Certamente o que acontece nos rincões europeus se refletirá no ambiente político judaico e israelense. O antissemitismo, paradoxalmente, reforça, do lado de cá, um ultranacionalismo igualmente xenofóbico, que se aproveita do quadro para impingir sua versão claustrofóbica do mundo: o famoso “ninguém me ama”. Essa vertente utiliza a circunstância para reduzir qualquer análise crítica consistente a uma manifestação antissemita, tipo de contrapropaganda largamente utilizada. Agora, só falta chamar por este nome o único aliado efetivo deste governo israelense, os EUA, se é que já não o chama.

Em Israel, no ano de 1999, travei debate no Yad Vashem com uma professora universitária, palestrante ilustre, que negava, até com certa rispidez, a equivalência semântica entre holocausto e genocídio, como se quisesse afirmar que nossa desgraça era “superior”, singular e única. Fazia mentalmente uma operação que o descontextualizava, tornando-o incomparável. Ora, como poderemos pedir apoio ao mundo se o negamos, pondo-nos numa esfera à parte?

Estas considerações têm implicações várias. É um equívoco supormos que nossos sofrimentos obrigatoriamente nos torna melhores e mais sensíveis aos sofrimentos alheios. Pode acontecer justamente o contrário. Em Israel, por exemplo, a palavra humanista se transformou atualmente em meio de depreciar pessoas e ideias alheias.

Terrorismo

Um chamado à razão parece inútil para este tipo de percepção do mundo. O jihadismo se bitola em um reerguer muçulmano glorioso sobre os infiéis, e o resto que se dane. Esta forma de pensar perniciosa é compartilhada (a forma, não o conteúdo),  em maior ou menor grau, por uma gama de pessoas e partidos em muitos lugares. Inverter esta propensão funesta é um desafio dos nossos tempos.

Justamente agora o governo palestino da OLP aciona um acordo com o Hamas (mais um) para programar um governo de união nacional que obteve apoio americano. O Hamas emprega o terrorismo como meio político válido, mas, em tese, é possível se afirmar que nem tudo o que se fez se fará eternamente, e há que se considerar sempre as possibilidades de mudança.  Menahem Beguin, até sua ascensão ao governo (e mesmo depois), não podia entrar na Inglaterra e depois fez (obrigado) as pazes com o Egito. O Mandela, embora muitos esqueçam seu passado beligerante, também apoiou ações que poderiam ser classificadas de terroristas.

Os fundamentalismos, tanto o religioso como o ultranacionalista, sempre levam a becos sem saída e tragédias. Além de suscitar uma condenação à violência de seus métodos, os acontecimentos devem servir de reflexão sobre as formas incoerentes de reação frente a realidades adversas.

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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