Américo da Praia do Pinto

Favela do Pinto

Américo era o nome que a mãe havia escolhido para o seu primeiro e único filho, o nome do descobridor do Novo Mundo, como ela havia aprendido naquele ano antigo de 1934, quando ele nasceu. Não se aprendia quase nada além das coisas do dia a dia naquele lugar distante que era Ponte Nova, em Minas Gerais. Só pelo rádio, a grande novidade, se podia ganhar algum conhecimento, e dona Ana soube por Sebastiana, que tinha escutado no rádio de dona Sônia, que aquele era o dia do descobrimento da América, e que o homem que havia feito esse descobrimento tão importante se chamava Américo, daí o nome da terra. Equívoco que bem mais tarde se veio a esclarecer, mas ficou o nome do menino nascido em 12 de outubro: Américo.

Foi único filho porque o pai, encantado com histórias de um alfaiate e de um sapateiro da cidade, andava frequentando reuniões sobre uma revolução que ia ter no Brasil para acabar com toda a injustiça dos endinheirados que mandavam na política; e de repente a revolução tinha fracassado e começaram a prender gente, e o alfaiate fugiu, e o pai, o Wenceslau, também largou mulher e filho e se mandou de medo, e não se sabe o que aconteceu, se foi preso, se ficou louco, se morreu. E dona Ana, que antes não sabia de nada, aos poucos foi sabendo pelo sapateiro amigo tudo sobre as reuniões, especialmente a última, em que o alfaiate apavorado disse que ia fugir, e o Wenceslau, que era escuro, ficara branco e mudo.

Dona Ana esperou meses por uma carta, um recado, um aviso, e nada. Teve que voltar a morar com os pais, na fazenda do seu Nilton. Na escolinha da fazenda, o menino Américo aprendeu a ler e a fazer contas. Esperto como era, aos dez anos começou a atender no armazém da fazenda. Um dia, seu Renato comentou com o Clemente da Sebastiana que o Rodolfo, que estava trabalhando em Volta Redonda, tinha visto o Wenceslau naquela cidade, que era cheia de mineiros de Ponte Nova.

Dino

Uma inquietação não a deixava pensar em outra coisa. Não era possível que Wenceslau, estando vivo, não fizesse chegar a ela qualquer mensagem durante todo aquele tempo, mais de dez anos, não era possível, tinha morrido, tinha sido preso e acabado na prisão, como diziam ter acontecido com muitos. Mas dona Ana queria ver, tirar a prova. Bem, diziam, Volta Redonda era uma cidade pequena, lá todo mundo acabava se encontrando. E ela queria muito ver novamente o Wenceslau, seu marido, seu homem.

Para ir a Volta Redonda, o melhor era pegar o trem da Leopoldina e ir direto para o Rio, e lá pegar o da Central que ia até Volta Redonda. E no Rio tinha o Dino, que era primo, que mantinha contato, mandava recados e até escrevia de vez em quando, e era gente muito boa e podia ajudar na ida a Volta Redonda.

No Rio, ela e o menino, tomaram um ônibus para o Leblon e chegaram na Praia do Pinto. Era quase noite, foram perguntando entre os barracos. O Dino era conhecido porque era muito diferente, alto, muito magro, o cabelo arrepiado, muito feio, um nariz esquisito, olhos arregalados, e fanho ainda por cima, uma figura bem diferente, e uma pessoa muito boa, todos diziam.

Morava sozinho, recebeu-os muito bem, ajeitou para eles ficarem ali no barraco aquela noite, no dia seguinte arrumava outro lugar, a favela estava cheia, mas sempre se dava um jeito. Dino, mesmo com aquela voz rachada, foi logo dizendo que a ideia de Volta Redonda era uma jogada furada, totalmente, não iam encontrar o Wenceslau de jeito nenhum, era conversa fiada aquela história de que fulano contou que beltrano ouviu de sicrano que viu um sujeito que parecia ser o Wenceslau, ora, Ana, o Wenceslau era um homem muito correto, se estivesse vivo, com certeza, mas com certeza teria voltado ou teria mandado dizer onde estava, ela devia encarar a realidade, o Wenceslau tinha sido preso e assassinado por aquela polícia criminosa.

Dona Ana ouviu e se aquietou. Uma semana depois, o Dino havia feito um quartinho junto ao barraco dele. Ela passava o dia lavando e arrumando coisas no barraco do Dino, fazendo a comida, e de noite dormia com o menino no seu quarto.

E o menino Américo florescia. O Dino fazia biscates com os construtores, no Leblon e nos bairros vizinhos; ladrilheiro, era rápido e caprichoso no serviço, e levava Américo de ajudante. Foi ficando encantado com a perícia do menino, que também desenvolvia sua meninice com os outros na Praia do Pinto: futebol, correrias no lodo da lagoa, papagaios, brigas de vez em quando e, no meio do ano, o fascínio do fazer, soltar, caçar e tascar balões.

Tinha liderança. Eram quase sempre certas as direções que dava, mas um dia um cadilac estacionado na Afrânio de Melo Franco o deslumbrou. Viu que o carro estava aberto e não resistiu, entrou e começou a mexer no volante, nos pedais, na alavanca da marcha, simulando os gestos do motorista. Outros quatro meninos entraram também, e ninguém percebeu a chegada do dono. Américo foi parar na delegacia, seguro pelo homem, os outros fugiram. Dona Ana, avisada, ficou lá com ele mais de duas horas, esperando chegar o Dino. Só então foram liberados, depois de um bom sermão. Dino atuou como pai e dali pra frente assumiu a condição, e botou Américo na escola.

Dino há muito já era o pai. Dona Ana já tinha bem passado dos trinta, mas era mulher, tinha formas e carnes de mulher, gestos e fala de mulher, tinha cheiro de mulher. Dona Ana passou a dormir com ele e Américo ficou sozinho no seu quarto. Aceitou bem,  já tinha um sentimento pelo Dino.

Embaixo, porém, daquele sentimento vivia uma vibração, tênue, mas permanente, de desassossego com o mistério que envolvia o pai verdadeiro, uma figura que conhecia do que tinha escutado, demandando uma busca que não sabia por onde começar. Mais tarde conheceu gente que tinha participado daquele ideal e tinha sido presa em 1935, gente até que tinha passado pela Ilha Grande e contava horrores, seria o caso? Interessado, sem contar para o Dino e para a mãe, começou a frequentar, no alto do Jardim Botânico, reuniões de jovens que discutiam política. Era o mistério do pai vibrando levezinho dentro dele, enquanto se fazia homem, agora sócio do Dino no negócio de instalação de banheiros e cozinhas.

Incêndio na Favela do Pinto

O fogo

Fez-se respeitado e belo, apaixonou-se e casou-se com Josefina, uma secretária da Cruzada São Sebastião que visitava sempre a Praia do Pinto em companhia do cônego Volnei, na missão difícil de selecionar famílias que teriam prioridade para ocupar os apartamentos no conjunto. Foram morar no barraco vazio da família Dourado, que tinha ido para a Cruzada. Era religiosa e muito escrupulosa, Josefina, o bastante para não se valer da posição que tinha e arranjar apartamento para eles.

Foram assim dos últimos moradores da Praia do Pinto. Viveu todo o clima da remoção, ameaças, engodos, contava nas reuniões do grupo. Josefina chegou a admitir a mudança. Foi conhecer a Cidade de Deus, voltou tentando convencer Américo. Nunca, nunca, seu trabalho era todo no Leblon, em Ipanema, mas não era só por causa do trabalho, era também por uma questão de justiça, uma questão política, sim, política e decisiva, aquele era o governo do ódio, da elite opressora, daquele corvo odiento, oh, era uma questão de respeito ao pai, homenagem ao pai assassinado por aquela mesma gente. Não sairia dali.

E Américo estava lá, dormindo com Josefina, na noite do incêndio. Viveu o horror, abraçado à mulher diante do fogaréu, com uma raiva que moveria uma montanha, jurando vingança, abraçado a Josefina, junto com os outros moradores derradeiros, dona Ana e Dino também, um pequeno grupo que olhava para ele, porque ele tinha previsto uma coisa como aquela, ele sabia dizer e explicar aquilo que eles sentiam, e ele tinha coragem mais que todos, todos em estado de choque, e de cólera. Os bombeiros custaram a chegar, de propósito. A raiva crescia, cegava, Américo desenlaçou-se de Josefina e lançou-se aos bombeiros, derrubou o primeiro com uma cabeçada, e logo foi contido pelos outros, mas Aderbal também foi para a briga, Josefina gritava, todos gritavam, o fogo clareava a cena, outros três moradores se jogaram, a briga aumentou e virou violência incontida, um bombeiro deu uma machadada na clavícula de Américo, imobilizou-o de dor, e logo outra na cabeça que o prostrou no chão. Josefina correu sobre ele, as mãos em desespero no sangue que escorria.

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar