A obsessão com o Estado judeu

ouvrir-porte-radioEla era nossa vizinha de porta na minha infância. Eu a observava, através do olho mágico, enquanto ela ficava um tempão conferindo se tinha trancado a porta. Batia a porta fazendo tremer as escadas, depois descia, e imediatamente voltava para verificar de novo.

Esse estranho ritual acontecia todos os dias. A senhora Plenner vivia sozinha. Sabíamos que era uma “sobrevivente do Holocausto”, e os adultos  explicavam a nós, crianças, que o comportamento dela era “obsessivo” – palavra que, na época, não entendíamos.

Lembro-me da senhora Plenner quando penso em outra obsessão: a de Israel ser um “Estado judeu”. O padrão de comportamento é o mesmo, de acordo com explicações oriundas da área da saúde mental. A doença é definida como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), uma ansiedade que se caracteriza por pensamentos indesejados e repetitivos e por comportamentos ritualísticos.

A  origem do termo “obsessão” é a palavra latina obsessio, usada para ataque contínuo e situação de cativeiro. Obsessão é uma  ideia irracional que leva a pessoa a  agir por impulso . As que buscam tratamento relatam que se sentem exaustas e ficam intranquilas. Geralmente, a obsessão é acompanhada de sentimentos de ansiedade e culpa. A angústia prejudica as atividades e começa com um caso de fixação. Entre os tipos de obsessão inclui-se, é claro, o amor obsessivo – destrutivo, como todas as obsessões.

É difícil saber quanto amor há no anseio por um Estado que seja judaico a qualquer preço. Certamente, há obsessão em doses doentias. Um país forte e próspero, cujos cidadãos são na maioria judeus, confere constantemente se a sua porta está trancada, igual à senhora Plenner da minha infância. Ninguém sabe definir exatamente o que é um “Estado judeu”, o que é o seu “caráter judaico”, como será e como deve atuar. Mas tudo aponta para o objetivo que foi atingido há muito tempo. A porta está trancada, senhora Plenner.

Aspiração legítima

O primeiro-ministro inventa a exigência de que os palestinos reconheçam uma porta trancada (o Estado judeu). O ministro das Relações Exteriores propõe trocas de populações, com o mesmo propósito. O ministro da Justiça e as negociações de paz são um testemunho de que o que os motiva é a preservação do “caráter judaico”. A “judaização” tanto do Neguev quanto da Galileia  permanece um valor legítimo, por mais racista que seja. E a guerra contra dezenas de milhares de africanos em busca de asilo também se alimenta da mesma obsessão.

Não existe outro país tão motivado por uma obsessão. A Noruega não diz que quer ser o “Estado norueguês”; nem os Estados Unidos. Ambos têm políticas de imigração claras, e o seu caráter é definido pelos seus cidadãos e governos. A aspiração por uma maioria judaica é legítima, mas não quando se torna uma obsessão.

Certa vez, também durante a minha infância, perguntamos no movimento juvenil: de quem você se sente mais perto – de um soldado druso de Isfiya ou de um estudante de ieshivá de Brooklyn? A maioria respondeu que do soldado druso. Hoje, é possível supor, após todas as ondas de lavagem de cérebro, que a resposta seria diferente.

Um país que não sabe exatamente se o judaísmo é uma nacionalidade religiosa, e qual é exatamente o perfil de um “Estado judeu”, não consegue responder a esta pergunta. Um país que verifica a origem do sangue de seus potenciais habitantes – não faz muito tempo fizeram um teste de DNA numa garota que desejava participar do programa de propaganda denominado Taglit-Birthday – é um país obsessivo.

No começo, Israel desejava ser um “Estado judeu na Terra de Israel”, conforme consta na sua Declaração de Independência. Essa aspiração foi alcançada somente 44 anos após a fundação do Estado, com a Lei Básica: Dignidade Humana e Liberdade (1992). Desde então, obsessão.

Não importa se é correto; menos ainda se é democrático – o principal é que seja judaico. Numa realidade em que não existem outros países de origem pura, Israel quer ser esse país. Ele está destruindo a sua maioria judaica por meio da ocupação, e, na verdade, aqueles que esbravejam em prol de um Estado judaico são também os que esbravejam pelo prolongamento da ocupação.

Tem outro jeito de explicar essa atitude que não seja o mesmo utilizado para o estranho comportamento da infeliz senhora Plenner?

Boletim nº 149 – julho/agosto de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

 

 

 

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