Um bairro inesquecível

Bondinho de Santa Teresa

Em 1976 eu estava me preparando para fazer a aliá, isto é, emigrar para Israel. Alguém me perguntou se não seria uma tarefa quase impossível, essa de deixar o Brasil e o Rio de Janeiro em troca da aventura israelense. Lembro que respondi “difícil será deixar Santa Teresa, o resto é fácil”.

A aliá acabou não saindo, por razões que a própria razão conhece muito bem. Mas isso não vem ao caso, o importante é dizer que continuo, até hoje, trazendo Santa Teresa no meu coração.

Blem, blem, blem

Pelas ruas estreitas e sinuosas passavam os bondinhos. O bonde saía do Centro, passava sobre os Arcos da Lapa e seguia a rota do tempo no sobe e desce das ladeiras de Santa Teresa.

Meu filho descia de bondinho até a Lapa, onde o ônibus do Liessin iria apanhá-lo para a jornada escolar. Às vezes o menino se atrasava, mas o motorneiro parava diante do nosso prédio e fazia soar o blem-blem-blem característico. Ninguém reclamava a bordo, era natural que o bonde aguardasse o seu fiel passageiro.

Naqueles tempos eu escrevia vários programas e novelas de rádio e TV, e sempre estava atrasado. Batucava na minha Olivetti Lexicon 80 os episódios diretamente no ditto, um cuchê acoplado a um carbono, matriz de mimeógrafo a álcool, para ganhar tempo. E, às vezes, meu estoque desse material chegava ao fim antes da hora. Eu não me apertava: ligava para a loja do Oscar Rudge, no Tabuleiro da Baiana, encomendava algumas caixas que, em seguida, eram entregues ao bondinho que ia subir. Quando ele chegava em frente ao meu prédio, de novo o blem-blem-blem…e eu recebia a encomenda.

De volta ao meu ofício: eu escrevia as histórias da Escolinha do Caçula, as adaptações de Os três mosqueteiros e os originais para as TVs Rio e Continental, tendo lá no alto, me espiando e inspirando, o Cristo do Corcovado.

A missa

A Igreja e o Convento de Santa Teresa pertencem à Ordem das Carmelitas Descalças. Suas religiosas vivem isoladas, têm pouquíssimo contato com o mundo exterior. Aos domingos, alguns comunistas como eu e o Octávio Brandão – ele foi um dos fundadores do PCB e vivia escondido no bairro, fantasiado de padre – , o crítico de música Maurício Quadrio, os jornalistas Murilinho Vaz e Reinaldo Rocha, mais um bom grupo de artistas plásticos e boêmios, éramos público fiel das missas dominicais. Parece até, não garanto pela minha memória, que o Ronald Biggs também aparecia por lá.

Claro, a gente não via as religiosas, mas acompanhávamos, emocionados, a missa cantada diretamente do claustro. Uma emoção dificilmente explicável.

As freiras vivem  ali uma vida simples, isolada da sociedade. Dentro da portaria do convento, há um painel de azulejos portugueses do século 18 e, ao lado, funciona um cilindro rotativo de onde as religiosas pegam objetos sem ter contato com o público. Isso continua até os dias de hoje. Várias vezes surpreendi o menino do Bob’s do Largo da Carioca fazendo passar os hambúrgueres e hot-dogs encomendados pelas freiras… Isolamento, pero no mucho.

Piscina do Ed. Raposo Lopes

Clube da piscina

Próximo ao prédio em que eu morava, na Rua Almirante Alexandrino, no Dois Irmãos (o morro está ali do lado, lançando sombra e frescor na região), situam-se o Morro dos Prazeres e o Edifício Raposo Lopes. E neste edifício, uma piscina quase olímpica, apoiada sobre uma estrutura de concreto, visível pra quem sobe pela Rua Barão de Petrópolis.

Mas, ali também, fica a favela dos Prazeres. Nos idos de 1950, Paulo Pereira da Silva, José Guilherme Merquior e eu, incomodados pelo fato de a garotada da favela ficar espiando a piscina com muita gula, decidimos criar o Santa Teresa Piscina Clube – e trouxemos essas crianças e adolescentes para esses prazeres burgueses…

Claro, tudo como manda o figurino: exames médicos, carteirinha, e tudo o mais que se pede de frequentadores de piscinas. Hoje, isso seria impossível.

Meus amigos de Santa Teresa

Paulo Pereira é um intelectual, torcedor do Fluminense que, em 1962, ganhou um fusca zero num sorteio do América, vejam que injustiça ! Foi o revisor dos meus primeiros livros, Mineirinho, O Esquadrão da Morte, O Assalto ao Trem-Pagador.

Merquior, falecido prematuramente, era conhecido diplomata, filósofo, sociólogo e escritor. Talvez maior pensador do liberalismo no Brasil.

Murilinho Vaz frequentava a piscina. Um publicitário de mão-cheia. Certo dia, ele me contou que havia comprado um VW. Mas já estava aprendendo a dirigir … seguindo as instruções contidas em um livrinho das Edições de Ouro.

O italiano Maurício Quadrio morava na Vista Alegre, pertinho do castelinho que ainda sobrevive em Santa Teresa. Radialista, crítico musical, produtor de discos e documentarista, Maurício foi um dos idealizadores e primeiro diretor do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, começou a colecionar gravações em fitas de áudio quando chegou ao Brasil, em 1950. Muitos domingos, meu irmão e eu batíamos ponto na discoteca do Maurício, saboreando, sobretudo, gravações únicas e raras – como as de Alberto Nepomuceno. Um luxo. Maurício faleceu em janeiro de 2003.

Octávio Brandão era um comunista histórico, muito respeitado nos meios científicos pelo seu  Canais e lagoas, lançado em 1919.

Em 1923 ele traduziu do alemão o Manifesto Comunista, de Marx e Engels; três anos depois, escreveu Agrarismo e industrialismo, assinado com o pseudônimo de Fritz Meyer. Um estudo profundo sobre os nossos problemas, numa interpretação marxista e sociológica do nosso país.

Vivendo clandestinamente depois que o Partidão foi colocado na ilegalidade, ele morava como falso padre no conjunto  Equitativa, no apartamento da sua filha Dyonisa. E, como padre, passeando por Santa Teresa, dava penitências para as senhoras mais religiosas do bairro e conselhos para a garotada. Era um prazer papear com Octávio, sobretudo nas manhãs da piscina do Raposo Lopes.

O curioso é que eu acabei trocando Santa Teresa não por Israel, mas por São Paulo. Do Rio de hoje não tenho muita saudade, não reconheço a Miami carioca – a Barra. O que me liga à Cidade Maravilhosa, hoje, são as minhas amizades, meu sentimento carioca, e claro, não menos importante, o Ameriquinha.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

Seja o primeiro a comentar