Sobre o direito de ir e vir

Checkpoint em Calandia, 28.8.2009

Checkpoint em Calandia, 28.8.2009

Em 2004 entrei na ONG Machsom Watch. Tomei a decisão após anos de conversas sobre a ocupação da Palestina por Israel. Cheguei à conclusão de que deveria ser mais ativa, que falar era interessante, mas não levava a nada ou quase nada.

Machsom é a palavra hebraica para barreira, obstáculo; no nosso caso, machsom significa “ponto de checagem”.

Logo observei que os pontos de checagem se encontram dentro da Palestina, entre uma cidade e outra, uma aldeia e outra, nas proximidades das colônias israelenses, e se você olhar bem, verá que não têm nada a ver com a segurança de Israel. Estão ali para defender a segurança das colônias que se estabeleceram dentro da Palestina. Além desses pontos fixos, há barreiras com carros do Exército que se colocam no meio de estradas para parar carros de palestinos. Soldados israelenses ocupam esses lugares e fazem o papel de policiais; em plantões de oito horas, devem verificar as carteiras de identidade, revistar as pessoas, os carros, muitas vezes deter quem não está com os documentos em ordem. Eles têm oito horas para descansar e voltam por mais oito e assim por diante. Uma das tarefas da Machsom Watch é alertar para o desgaste sofrido por jovens de 18 a 20 anos em uma tarefa sisífica de oprimir um povo já por si só oprimido e empobrecido.

Em meus plantões vivi uma série de experiências. Uma delas era ouvir impropérios por parte dos colonos (os quais, claro, andam livremente por ali), já que o Exército os protege. Muitos dos jovens que encontrei foram educados dentro do princípio de que toda essa terra é Érets Israel e que a Palestina não existe. Há soldados que concordam com nossa atividade, mas se refreiam porque  dizê-lo em voz alta pode constituir indisciplina.

A Machsom Watch é formada exclusivamente por mulheres, e a maior parte já tem idade bastante avançada. Há entre nós até algumas que lutaram no Palmach e que hoje em dia são contra a ocupação. No logo da Machsom Watch está escrito “contra a ocupação e a favor dos direitos humanos”. Fazemos contato com autoridades militares em caso de problemas. Um dos meus dilemas é que o Exército tem interesse em manter nossas atividades para dar uma impressão de liberalismo. Como se diz, “pra inglês ver”.

Lavagem cerebral

Os pontos de checagem são casamatas e torres para observar atividades em torno. O machsom no qual fiz plantão durante alguns anos a partir de 2004 ficava nas proximidades de Nablus, ao lado de uma aldeia chamada Beit Iba. Nós temos plantões de madrugada, pela manhã e à tarde. O machsom Beit Iba tinha um movimento constante, pois por lá passam ambulâncias para trazer ou levar doentes ao hospital em Nablus, passam estudantes indo ou voltando da Universidade de Nablus, ou passam simplesmente pessoas que vão fazer compras, visitar parentes etc. Três vezes o local onde deviam passar os palestinos foi demolido e reconstruído. De cada vez desperdiçavam-se milhões. Perguntei a vários soldados qual, na opinião deles, seria a importância desse machsom. E a resposta era: “Para que você possa dormir sossegada em Tel Aviv.” E quando eu retrucava que passar de Nablus a outra cidade ou aldeia dentro da Palestina não constitui ameaça para Tel Aviv, eles diziam que eu não entendo de segurança. Pois bem, amigos e companheiros, fecharam o machsom de Beit Iba, e o dinheiro lá gasto acabou de ser jogado fora. Será que a segurança de Tel Aviv não importa mais? E notem que todas essas barreiras são construídas por empreiteiros privados e que quem paga somos nós, os cidadãos, pois usam os impostos que pagamos.

Mas, justiça seja feita, o governo tem uma ótima equipe de lavagem cerebral. Além de assustar a população o tempo todo com perigos prováveis e imaginários, ele usa o Holocausto e a Inquisição (!!!) para mostrar aos judeus que somos um povo perseguido, que ninguém gosta de nós e que, por isso, qualquer  ato que cometamos, seja pirataria, pilhagem, assassinato, deve ser considerado legítimo. E se alguém, principalmente um judeu, protestar contra esse ato, a lavagem cerebral diz que essa pessoa é antissemita e antissionista. Claro que com isso muita gente tem medo de falar. Afirmo agora, por minha conta e risco, que considero esse governo e todos os que se calam causadores do fato de o Estado de Israel ter cada vez mais pobres, mais ignorantes e mais racistas. Manter a ocupação, manter um povo inteiro sob o jugo das armas, fizeram com que o nosso povo se tornasse mais e mais rude, menos e menos solidário. Sei o quanto é difícil para quem tinha orgulho de um Estado liberal, socialista, aceitar que quase tudo era balela, que na verdade a gente vivia de acordo com o que Moshé Dayan disse, quando lhe contaram que o prefeito de Gaza falava mal de Israel: “Enquanto ele fala, não faz nada, então deixem que fale.”

Não há ocupação boa

Nos meus plantões na Margem Ocidental ouvi que sou inimiga de Israel, que sou amante de árabes, ouvi colonos me ameaçarem de morte. E o pior é que entendo muitos dos soldados e jovens colonos que assim se expressam: eles, a meu ver, são vítimas dessa lavagem cerebral e desse medo de que o mundo quer nos destruir. Quando lhes digo que o mundo tem mais o que fazer além de se ocupar de nós, eles dizem que não tenho consciência judaica.

Mas voltando à Machsom Watch. Em 2001 estavam sendo construídas as barreiras, e uma que já estava funcionando era e é a de Kalandia, em Jerusalém. Kalandia se encontra entre o lado palestino e o israelense. Por ali passam diariamente centenas (ou mais) de palestinos para trabalhar em Israel. Essa passagem é uma necessidade, já que com a ocupação a situação econômica na Palestina é cada vez mais catastrófica. Naquele ano, passando pelo machsom, uma mulher viu em que condições se encontravam os trabalhadores, separados por grades, comprimidos, com soldados gritando e empunhando as armas contra eles. Isto todos os dias, de manhã e à tarde. Ela convidou duas amigas a observarem os acontecimentos. Naquela data passou a existir a ONG Machsom Watch, que hoje  conta com 250 voluntárias. Há equipes de filmagem, tradução, comunicação com a imprensa, visitas a aldeias para verificar as necessidades da população (nós levamos em conta que o ocupante tem por dever suprir as necessidades do ocupado), transporte de doentes e suas famílias a hospitais em Israel.

Nossos plantões são realizados em três regiões de acordo com uma divisão geográfica: norte, centro e sul; o sul se divide entre Jerusalém e Belém e, mais ao sul, Beersheva e proximidades.

A Machsom Watch também promove excursões dentro da Palestina, mostrando pontos de checagem, portões chamados agrícolas, que são pontos de passagem a agricultores para que possam trabalhar suas terras. Eles em geral podem passar de manhã cedo e voltar às 5 da tarde. Em épocas de semeadura ou de colheita eles têm dificuldades imensas, pois muitos familiares são impedidos de passar e um velho de 70 ou mais tem de fazer tudo só e rápido.

Bom, por enquanto deixo vocês com este material nada encorajador. Que prova que não há ocupação boa; ou serena; ou liberal. Onde há domínio de um povo sobre outro não há democracia. 

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Sara Fischman (Zwerling, de solteira), psicoterapeuta, lecionou Literatura Brasileira e Portuguesa e Língua Portuguesa na Universidade Hebraica de 1969 a 2044, quando passou a ser voluntária na Machsom Watch. Vive em Israel desde 1968.

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