Segredos do quarto escuro

Casa de fazenda no Nordeste

Casa de fazenda no Nordeste

Dadinho estava estupefato, calado, escutando a narração do coronel sobre o encontro com o visitante, o licenciado Efraim Castanheiras, que vinha em busca de sinais remanescestes dos judeus no Nordeste do Brasil. A revelação do conteúdo da caixa, por mais de século encerrada  no “quarto escuro” da Casa Grande, o deixava atônito. Quase tudo estava embrulhado em papel ordinário, já  se esfarelando pelo tempo e o clima semiúmidos da região.

O licenciado Efraim limpou os olhos e as lentes dos óculos embaçados, pediu desculpas pela sua emoção inesperada, pôs-se de pé junto ao coronel para sentir mais de perto cada nova surpresa que iam descobrindo a cada minuto, ao retirar o conteúdo secular (ou milenar, quem sabe a idade exata), dessa caixa muito bem guardada no “quarto escuro” da fazenda.

Primeiro, tiraram quatro candelabros de prata pura, (identificados como tal pela cor escura que recebeu com o passar do tempo), uns cálices, sendo um deles  maior e mais luxuoso, uma bandeja, tudo do mesmo metal. Iria dar um trabalho danado limpar e esfregar todas essas peças com o conhecido Kaol.

Depois, uma varinha de madeira preta (talvez ébano): em sua extremidade, uma miniatura de palma da mão com o dedo indicador esticado.  Em seguida, meia dúzia de xales de seda (alguns perfurados por traças), caixinhas pretas e tiras de couro da mesma cor  pegadas a elas, uma série de camisolas com quatro tranças em cada extremo inferior, dez a 12 livros de reza bem embrulhados e conservados, partes de ramos de plantas secas – uma delas a folha ainda fechada de alguma espécie de palmeira – ,  pequeninos frascos vazios de alguma essência e uma boa quantidade de toucas pretas, algumas bordadas com fio de cor dourada ou prateada, com simples enfeites de frutas ou flores, mas não imagens  de humanos ou animais. Dezenas de velas de sebo e algumas lamparinas de azeite.

De um saquinho de seda fina bege caiu sobre a mesa uma dezena de objetos de cor marrom, pareciam pequenos tubos com uma letra indecifrável no meio da parte superior e nos dois extremos, furos como que para pendurar na parede, o tamanho de cada artefato com uns dez centímetros por dois de largo.

Quando pensavam que tudo já estava fora da caixa, o coronel retirou os restos de papel e palha e teve a surpresa da sua vida. Embrulhado em três invólucros de veludo azul,  bordado com letras hebraicas douradas, um rolo de pergaminho amarrado com uma fita azul e branca.

Cálice de prata

Os achados

O coronel olhou para o licenciado Efraim como se pedisse alguma explicação para o significado daquele rolo de pergaminho, objeto desconhecido que só agora descobrira no fundo da caixa empoeirada, à luz do restinho de sol no fim da tarde.

O licenciado, à medida que as coisas iam sendo descobertas, sussurrava para si mesmo os nomes dos objetos que eram do seu conhecimento. Tanta era a sua tensão por presenciar este evento (o qual só Deus poderia lhe proporcionar)  que não tinha mais forças para se manter de pé.  Sentou-se  e disse:

– Senhor coronel, busque lápis e papel para anotar os nomes destes objetos que agora, depois de quem sabe quanto tempo, voltaram a reviver, saíram do seu anonimato e do esconderijo propositado por seus donos, seus ancestrais. Comecemos já a catalogar os “achados”.

Logo, o coronel voltou com um caderno e dois lápis, uma borracha e uma gilete, caso necessário. Efraim foi pegando com o maior respeito cada objeto, como se fosse feito do mais frágil cristal do mundo. Sussurrava, e o coronel ia tomando nota.

– Estas caixinhas pretas se chamam Tefilin, as correias pegadas a elas são de um couro especial unicamente de tenras ovelhas (Or shel SeBehemá Daká), olhe estes xales de seda, são Talitot ,com ele o que reza se envolve. Estas toucas, sem elas ou qualquer outro chapéu, por tradição, não se deve rezar ou ler na Bíblia.  Denominam-se kipót ou yármulkas. O candelabro de nove braços é a Menorá, usada nos dias da festa de Hanucá. Cada noite, durante oito noites, se acende uma vela ou lamparina, acompanhada da reza Banu Hóshech Legaresh, a qual significa “Viemos para expulsar a maldita escuridão”.   O nono braço, este no meio do candelabro, é o Shamásh, usado para acender as outras velas ao anoitecer nesses oito dias de Hanucá ou Festa das Luzes.

Devagar –  reclama o coronel – , vosmecê está ditando muito depressa. Eu assimilo rápido quando me explicam devagar.  E deu uma gargalhada pelo ditado de sua autoria.

– Tá bem, tá bem, vou diminuir o ritmo pro senhor coronel não reclamar mais. Vamos adiante?

– Os cálices de prata (kossiot) são para tomar vinho em ocasiões especiais, festas religiosas, batizados (brit milá), noivados (tnoim, em hebraico), etc. O cálice maior e com belos altos relevos é  do profeta Elias (Eliáhu).  Existe uma  tradição milenar de deixar um cálice na mesa e uma cadeira vazia na ceia da Páscoa (Pessach) para um ente querido ausente. Para que as pessoas não fiquem tristes com esta ausência nessa festa familiar, é praxe crer que o profeta Elias viria em seu lugar e tomaria este assento vazio, brindando com a família com o tal cálice ali deixado para ele. Por isso mesmo é costume também deixar a porta da casa aberta, para recebê-lo.

Dona Genoveva trouxe limonada para os “novos arqueólogos” e  mais três candeeiros já acesos.  Avisou  que em meia hora a ceia estaria servida e o quarto, pronto para o pernoite do  licenciado Efraim, e se foi.  Sem qualquer interesse no que os dois homens estavam de momento “pesquisando”, voltou a seus afazeres.

– Continuamos, coronel?  Pois bem, as velas que o senhor tirou da caixa se chamam Neirot Hanucá, usadas para essa festa. As lamparinas de azeite, Neirot Neshamá, são acesas nos dias de memórias aos finados. As camisolas brancas de tecido vulgar, o judeu ortodoxo as veste para lembrar que nem sempre tinha boa roupa, isto se chama Tsitsit e estas quatro trancinhas na parte inferior das camisolas se chamam ptililim. Está anotando, senhor coronel?

– Tô, tô, sim senhor, pode continuar

Rola da Torá, Espanha, séc. 15

Rolo misterioso

O livro de capa preta se chama Sidur, a escrita, como ainda não  folheamos, não posso identificar. Pode ser hebraico, aramaico, ladino, grego, árabe ou qualquer outra língua de lugares onde os judeus permaneceram por mais de mil  anos e, por conveniência, escreveram as rezas no idioma local. Não é comum, porém pode acontecer! Adiante, a bandeja de prata  é para uso festivo, na Páscoa, mas não só. Nela se colocam de uma maneira simbólica o que comeram no deserto ou os sinais divinos  lembrados na Hagadá (a lenda que é contada de geração a geração sobre a saída do cativeiro no Egito, comandados pelo patriarca Moisés). Conhecia a lenda, senhor coronel?

– Não, conte, conte, senhor licenciado….

– Falo dos castigos que o patriarca Moisés impôs ao Faraó que não permitia a libertação dos hebreus dos longos 400 anos de cativeiro. Afinal conseguiu e levou o povo judeu embora de lá, atravessou o Mar Vermelho em seco, uma caminhada de quarenta anos pelo deserto,  aí  receberam as Tábuas com os Dez Mandamentos e finalmente se assentaram na terra de Israel, como ordenado por Deus. Conhecia tudo isso, senhor coronel?

– Não senhor, nunca ouvi falar disso, não!

– Bom, vamos pra adiante, este pauzinho de ébano é  um “mentor”, que vai acompanhando as linhas das escrituras, para ajudar na leitura das rezas pelo Hazan,  que as lê em voz alta para os demais na sinagoga. Os tubinhos com a letra em alto relevo e os furos nas extremidades são Mezuzot, isto se prega na armação da porta e serve de mascote para a bênção dos que entram e saem da casa. Os raminhos de plantas que secaram na caixa são remanescentes dos quatro vegetais que representam qualidades diferentes.  Cada um por si só  não é perfeito. Os quatro juntos, porém, são imbatíveis – tal é o povo judeu, o qual separado em tribos seria facilmente derrotado, mas, como é praxe dizer que “a união faz a força”, quando estão os quatro “matinhos” juntos, não se consegue romper o feixe formado. Coisas da tradição milenar! Estes ramos secos de vegetais, é praxe colocá-los na mesa em Sucot (a festa do Tabernáculo), quando o povo tem por obrigação viver uma semana numa cabana com o teto de palha, para fazer sentir a aqueles que já possuem tudo  como se sentem os pobres que não têm sequer um teto humilde para se abrigar.

O coronel Barbosa parecia que aprendia coisas que seus antepassados esconderam e nunca transmitiram às gerações subsequentes. Coisa totalmente estranha ao judaísmo, que preza e conserva o princípio de transmitir por milênios para nunca esquecer.

Muita coisa na Bíblia, explica o licenciado, não consta abertamente ou não está suficientemente explicado.

Estas emendas ou interpretações feitas por patriarcas, profetas, juízes, grandes rabinos e estudiosos no passado longínquo (Hahamim, Gaonim, Iluim, Poskim) foram transmitidas em documentos escritos ou oralmente, de geração a geração, durante milênios. No decorrer destes milênios,  não se mudou ou acrescentou  sequer uma vírgula, palavra ou letra.

Por isso, ainda  que dispersos durante 2000 anos, a Bíblia (Ha-Torá), é a mesma, aqui, na China, na Rússia,  ou em qualquer outra parte do mundo onde ora e reza o povo judeu.

O licenciado Efraim respirou fundo e como se estivesse implorando, exclamou:

– Agora, senhor coronel, deixe-me tratar de abrir com o máximo cuidado este rolo de pergaminho,  para não inutilizá-lo em usos sacros no futuro.

O coronel cedeu passo e afastou-se do “pacote misterioso”.

O licenciado fez o máximo possível para tratar desse “achado” como se fosse um paciente na sala para uma cirurgia das mais delicadas.

  • Postado originalmente no blog Geleia General
  • Condensado e revisto por Renato Mayer

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

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