O inferno de Marino

Slide1Quando seus companheiros de time entraram no vestiário, Marino chorava, inconsolável. Não era pela derrota de seu time, o São Bernardo, num jogo recente pela Copa do Brasil. Ele acabara de ser xingado de “macaco” e “gorila” por torcedores do time rival, o Paraná Clube. “É triste. Isso aqui no Brasil está ficando comum. A cada dia está pior”, desabafou.

O que aconteceu com Marino está longe de ser um fato isolado. Seguindo o péssimo exemplo de outros países, são cada vez mais frequentes os casos de racismo em estádios brasileiros. Não envolvem apenas torcedores. Um profissional do SBT acaba de ser flagrado ofendendo um jogador negro, logo após este ter marcado um gol. O que mais estarrece em quase todos estes incidentes é a mais completa impunidade. Na melhor das hipóteses, os racistas recebem punições brandas.

O futebol é reflexo da sociedade. Vivemos num país que afirma, hipocritamente, que não tem preconceito contra os negros. Todas as evidências apontam em sentido contrário. É no cotidiano que se observam comportamentos racistas e um ânimo segregacionista nada sutis. Olhando por esse lado, não é surpreendente o que está acontecendo nos estádios.

A Copa do Mundo está próxima. Cada vez mais distante de uma competição esportiva, transformou-se num negócio lucrativo para grandes empresas, em fonte de histeria patrioteira (em aberta contradição com a formação das seleções nacionais, escaladas com jogadores que atuam em outros países), em investimentos vultosos que deixam “legados” duvidosos para os habitantes locais. O esquema de segurança para a Copa no Brasil bateu todos os recordes, porretes de alta tecnologia em estado de alerta para reprimir os protestos populares que se anunciam para junho e julho. Neste cenário fortemente vigiado, esperemos, ao menos, que os responsáveis pelo evento tratem de coibir eventuais manifestações de racismo, dentro e fora dos estádios. O preconceito, venha de onde vier, não pode ser tolerado numa sociedade democrática.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

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