Memória – Verdade – Justiça

A Embaixada de Israel destruída

No dia 17 de março de 1992, por volta das 15 horas, um atentado com carro-bomba no centro de Buenos Aires demoliu a Embaixada de Israel na Argentina. O trágico saldo foi terrível: 29 mortos e 241 feridos, além do virtual desaparecimento físico da legação diplomática e da destruição ou danos graves  em numerosos imóveis num raio de várias centenas de metros.

Entre as vítimas havia pessoas de origem argentina, israelense, italiana, paraguaia, uruguaia, boliviana, que professavam diferentes credos, tinham profissões diversas e idades muito variadas. Alguns eram transeuntes casuais, outros, empregados e funcionários da Embaixada; havia trabalhadores ocasionais e moradores da região. Entre as vítimas encontravam-se inclusive internas do Lar para Anciãs San Francisco de Asís,  localizado próximo à sede diplomática, e um sacerdote da Igreja Mater Admirabilis, que ocupava o prédio contíguo à Embaixada. O Lar ficou totalmente inutilizado e só uma parte de sua estrutura pôde ser recuperada após vários anos de trabalhos.

Nos noticiários televisivos e nas fotos da época ficou gravada a densa coluna de fumaça que se elevou sobre a cidade,  imagem que, de tão impressionante, ainda é lembrada.

Como todos os anos há 22 anos, na mesma hora do atentado, realizou-se o ato comemorativo onde hoje existe uma praça vazia para preservar a memória do lugar. Ali se conserva uma parte do muro original da Embaixada; os nomes dos mortos estão gravados numa placa; e as tílias plantadas em duas longas fileiras simbolizam cada uma das vítimas fatais. Existe, também, um mural recordando o atentado no hall de entrada da paróquia vizinha, reconstruída.

Os motivos do atentado nunca foram explicados nem assumidos por qualquer organização política ou militar ou por algum Estado. As especulações apontam a República Islâmica do Irã  como promotora do ato, ainda que não existam provas precisas e irrefutáveis para essa afirmação.

A investigação foi levada a cabo pela Suprema Corte de Justiça da ocasião, mas sem produzir detenções nem julgamentos, apenas uma condenação genérica da organização terrorista pró-iraniana Jihad Islâmica. Desde o início a investigação esteve a cargo da Suprema Corte porque se tratava de uma representação diplomática acreditada na Argentina.  Quem assumiu o processo então foi o seu presidente, Ricardo Levene (filho), que renunciou em 1995.

As perícias ordenadas pela Corte sustentaram que o ataque foi perpetrado com um carro-bomba, porém houve quem defendesse a teoria da explosão, que foi finalmente descartada.

Cinco anos depois, a Suprema Corte encarregou da investigação o secretário do tribunal Esteban Canevari.  A partir dos poucos dados disponíveis, a Corte determinou que o atentado  fôra produzido por um carro-bomba e que o Irã era o seu responsável político, tendo como coordenador  um integrante da organização político-militar libanesa xiita Hezbolá. Isso coincidia com alguns comunicados distribuídos pela organização em Beirute, três dias depois do atentado, e com a descoberta de que o veículo utilizado tinha sido comprado com dólares americanos que tinham uma marca das casas de câmbio da cidade de Biblos, no Líbano.

A melhor homenagem

Contudo, as provas não foram contundentes o bastante para dar prosseguimento ao processo de investigação, e hoje o expediente da causa está formalmente prescrito.

Preocupante verdadeiramente é a impunidade. Recordar a data tem o objetivo de enfatizar a necessidade de investigar a fundo, porque não é possível que para fatos de natureza tão brutal não se estabeleçam as responsabilidades dos executores e dos inspiradores nem a logística empregada, a origem do seu financiamento e assim por diante.

Medo, consternação, comoção, sofrimento, desassossego são sentimentos arraigados nos sobreviventes. O terrorismo não discrimina ninguém. Agride a todos igualmente, não importando quem são os mortos ou mutilados, não considerando idade, profissão, religião, origem étnica ou nacionalidade. O terrorismo “democratiza” a dor e o choque.

Em anos anteriores, participaram do ato de recordação as mais altas autoridades do Estado argentino e representantes do Estado de Israel, além de sobreviventes do atentado, familiares e amigos das vítimas. Em 2012, o vice-presidente Amado Boudou sustentou que “a violência não pode nem deve ser a forma de resolver qualquer diferença, qualquer conflito, em nenhum sentido”, acrescentando que “… para nós é um atentado contra os 40 milhões de argentinos, mas não podemos perder de vista que tem origem na perseguição ao povo judeu e no antissemitismo”.

Geralmente o ato consiste no toque de sirenes, após o que são badalados os sinos da Igreja Madre Admirable, mencionam-se os nomes das vítimas fatais e se depositam flores.

Em diversas oportunidades, Carlos Susevich, na qualidade de representante dos familiares, agradeceu aos presidentes Nestor e Cristina Kirchner “por serem os únicos governantes” que os receberam e agiram, nas duas décadas transcorridas desde o atentado. Susevich não só elogia o projeto de indenização econômica a feridos e familiares das vítimas, regulamentado em 2012 pelo Poder Executivo, como critica acerbamente os governos israelenses dos anos 1990 “porque deveriam apresentar-se à Justiça como autores da ação e não o fizeram”. Ele insiste na necessidade de continuar investigando por ser imprescindível saber quem foram os contatos locais, os encobridores, os sócios do terror, para poder elaborar  o luto não só individual como coletivo da sociedade argentina.

Este ano, no 22° aniversário do atentado, o ministro da Justiça e Direitos Humanos da Argentina, Julio Alak, declarou que “os avanços  na verdade e na justiça foram escassos” e que “os atentados à Embaixada e à AMIA [em 1994] são duas cicatrizes profundas na nossa República – atos terroristas duríssimos contra a comunidade internacional, que temos o dever de esclarecer para que os argentinos saibam que neste país existe justiça e para que possamos recordar os mártires em paz”. Destacou ainda que a causa está nas mãos da Suprema Corte de Justiça e salientou: “Para além de terem sido escassos os avanços na verdade e na justiça, todos os argentinos temos a obrigação de lembrar esses fatos em um exercício permanente da memória para que as causas possam ser esclarecidas… Há que ter fé de que cedo ou tarde a Justiça esclareça os fatos e os responsáveis sejam condenados.”

Hoje, 22 anos depois, desconhecendo os mentores ideológicos, os autores materiais, os instigadores e a logística daquela barbárie, só podemos falar sobre memória. Não sobre a verdade, porque não a encontraram, nem tampouco sobre justiça, porque os responsáveis por aquela aberração ainda não foram achados.

O que se exige são ações concretas para o esclarecimento total e absoluto. Essa é a melhor homenagem que se pode fazer às vítimas.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

 

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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