Cuidado: mulher na direção

O violinista azul, Marc Chagall, 1947

Com o  advento da internet quase desapareceram aquelas mensagens em adesivos pregados nos vidros dos carros. Elas variavam de filosofias simplórias (sobre a inveja, por exemplo) até proselitismo religioso (“Jesus te ama”), passando por simples advertências (“Bebê a bordo”).  Volta e meia atreviam-se a gracinhas racistas e, claro, machistas.

Quem viveu infância e adolescência em vilas de bairros (sempre de baixa – às vezes baixíssima – classe média) nos anos 1940-50  teve uma ótica peculiar sobre o que significava conviver com certos preconceitos, no caso, o machismo. A rigor este se resumia ao futebol com bola de meia: menina não entra (em contrapartida em cirandas cantadas menino não entrava, o que, na verdade, era também machismo).

Curiosamente, todo o resto da recreação – incluídas aí bola de gude e pular carniça – não discriminava ninguém.  No entanto o comportamento masculino era objeto de severa patrulha: choro por alguma injustiça sofrida, pênalti perdido, roupa elegante demais… “mulherzi-nha! mulherzi-nha!”. A massa estava certa: constatadas situações como aquelas, obviamente o cara era.  Uma situação que disparava o coro do estigma contra o suspeito está, ainda, a merecer estudos. Alguém aí há de ter vivenciado a experiência: associar o vergonhoso “mulherzinha” aos instrumentos musicais exóticos (que fugiam do conhecimento popular garantido pelo carnaval – violões, cavaquinhos, tamborins – ou pelas  bandas militares – cornetas, tubas, grandes percussões).   Numa vila estreita em que a população infantil era de filhos de feirantes, lavadeiras, bicheiros, taxistas, jornaleiros e costureiras, ser judeu – e o único da turba – equivalia a uma dessas identidades profissionais (com direito a apelido pretensamente pejorativo – “gringo” – e olhares hostis no sábado de Aleluia).  Neste meio, inopinadamente, o gringo lhes aparece estudando… violino. O “mulherzi-nha” era fatal. Numa comunidade como esta – excluídos os tais instrumentos exóticos e a música clássica em geral – , qualquer prática ligada a música era tolerada sem levantar suspeitas quanto a virilidades. Uma vez absolutamente ignoradas sinfonias e concertos, pianos e violinos,  todos se permitiam repetir, com a voz e alguma percussão, tudo o que a Rádio Nacional transmitia em matéria de música. E o que era?  Música popular, isto é, cantada. Vozes femininas ou masculinas tinham crédito, inocência e popularidades idênticos. Não percebíamos que as mulheres só surgiam como cantoras, jamais como autoras (fosse de música, novelas, humorísticos, qualquer criação que puxasse mais pelo cérebro que só pela garganta).

Deixemos a vila com seu carnaval e sintonizemos (o mais discretamente possível para não levantar suspeitas na criançada) na Rádio Ministério da Educação e Cultura, única emissora de rádio absolutamente pública do país – pertence à Secretaria de Comunicações, que só responde à Presidência da República. Apregoa ser “a rádio de música clássica do Brasil” e, talvez por isso, circulem epítetos pejorativos (“é A Voz do Brasil – ninguém escuta”). Atualmente navega ao léu sob pretextos vários – obras, eleições, Copa –, mas ainda se pode ouvir certas coisas que alimentem certas ideias.  É quando nos deparamos, por exemplo, com música do século 12.  Ou era sacra (aqueles cantos gregorianos cantados pelos monges e escritos quiçá pelo papa) ou poéticas  (escritas por aqueles reis Afonso de Castela ou Frederico da Baviera para serem cantadas pelos próprios). Foi o que nos restou, já que só clero e nobreza sabiam escrever música – bem entendido, os homens. Onde andavam as meninas? Certamente as duquesinhas se arrumando para o baile, e as irmãs das ordens religiosas cantando, no máximo, aqueles mesmos cantos gregorianos (mas nunca escrevendo).  E a patuleia fora dos muros do castelo, o que cantava, tocava e dançava? E as mulheres que não iam ao baile?  Esse pessoal precisou esperar até a Renascença para  ter sua música aproveitada e elaborada por alguns compositores que até admitiram vozes femininas  cantando no coro.  Quanto a inventar, minha senhora, não estamos interessados.

Clara Schumann

Brinquedo proibido

Finalmente, nos albores do século 18, Bach virou o jogo. Surgiram as monumentais cantatas, oratórios e missas que pediam vozes muito agudas, ou seja, femininas. No entanto as senhoras só saíam da cozinha para bordar (e ter filhos – só Bach teve 20, três dos quais tão gênios quanto o pai e, curiosamente, homens).  Quem cantava as vozes agudas eram os chamados contratenores (homens cuja voz imitava um soprano) ou crianças, naturalmente de voz fininha.  Neste ínterim, outro alemão dava força a outra estratégia destinada a manter as mulheres no seu lugar. Georg Friedrich Haendel  –   esse mesmo, do Messias – desandou a compor óperas cuja natureza dramática exige vozes solistas  tanto masculinas quanto femininas.  Aqui também entravam em cena os contratenores fazendo os papéis femininos ou apenas atuando, enquanto o canto mesmo vinha de alguma garganta infantil.  Aqui esbarramos com uma faceta da barbárie  europeia (Haendel viveu na Inglaterra): o apelo dos compositores aos castrati. O próprio Haendel deve ter selecionado muitos meninos (porque não meninas?) com talento e timbre de voz de seu interesse com intenção de que suas vozes não sofressem com as transformações hormonais da adolescência.  Como burlar a fisiologia? Castrando a criança (o que, no século 17, resultava em alta mortalidade por hemorragia ou infecção).   A última castração para fins “artísticos” data de 1920. Porém, valeu: alguns ducados em pagamento à família e Haendel enriquecia com o sucesso de suas óperas. Ainda privada de direitos fundamentais, à mulher já se acrescentava – como prenda doméstica – aprender a tocar um alaúde ou um cravo, talvez uma declamação, contanto que não nos teatros e nem criando suas próprias obras. Pergunta-se: de onde o povo tirou essa associação pejorativa justamente entre “mulherzinha” e música clássica?

Mais condizente com o romantismo de meados do século 19 foi o caso de Clara Vieck. Aluna do próprio pai, um furioso professor de piano e crítico musical de Leipzig, conheceu Robert Schumann, outro aluno de seu pai.  Vieck, que reservava a filha para uma brilhante carreira de concertista, armou uma escandalosa campanha pública para evitar o casamento iminente.  Nada feito – casamento, seis filhos e renúncia. A verdadeira tragédia, no entanto, se revelaria na doença mental de Schumann. Em 1854, definitivamente internado, Clara Schumann permitiu-se mostrar suas composições. Chegou a publicar onze volumes de coletâneas de música para piano e conjuntos de câmara.  No correr do século 20, o tabu da exclusividade masculina  na música – compor e interpretar – se desfez junto com os outros. Uma última barreira  –   a mulher regente de grandes orquestras – só se rompeu efetivamente nos últimos anos do século 20.

De volta ao estigma que fazia dos violinos em mãos de meninos o emblema da transexualidade, só restará uma constatação ainda discutível: o tal “mulherzi-nha” não tinha fundamentação semiótica querendo significar “o sexo feminino”, mas apenas “o diferente”, com intenção evidentemente pejorativa.   No caso da música clássica a raiz da perseguição e preconceito só tem alguma explicação na distância abissal que separava  o povo da arte e da cultura em geral. A música clássica instrumental,  com sua absoluta abstração, só podia ser  um brinquedo proibido, destinado à elite e feito por ela.  Pagou seu preço.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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