Cem anos após a absolvição

Beilis preso

Beilis preso

Um século decorreu desde o processo contra Mendel Beilis por libelo de sangue, em Kiev, e se há quem se lembre disso,  é provavelmente devido ao romance histórico de Bernard Malamud The Fixer,1966 (O Faz-Tudo), ou ao filme de 1968 estrelado por Alan Bates.  O livro de Malamud ganhou nos Estados Unidos o  Pulitzer  Prize e o National Book Award, mas foi uma ficção que passou longe da História.

De acordo com um antigo mito cristão, os judeus matam crianças cristãs para usar o sangue delas no fabrico da matsá  de Pessach. Os antissemitas chamam a isso “assassinato ritual”.  O primeiro exemplo de que se tem conhecimento ocorreu na Inglaterra, em 1144; o segundo, em 1171, na França.  As confissões de culpa eram arrancadas à custa de tortura, e o clamor público levava frequentemente à execução dos acusados, assim como a pogroms e outras medidas punitivas.  Em 1817, o tsar Alexandre 1° qualificou o assassinato ritual de “crença supersticiosa”, porém, quase um século depois, um dos ministros do tsar Nicolau 2° usou-o para incitar  ao antissemitismo com o objetivo de desacreditar uma campanha da Duma russa pela suspensão das restrições aos direitos civis dos judeus.

Mendel Beilis nasceu em 1874. Era um judeu moderadamente praticante, casado, pai de cinco crianças, supervisor em uma olaria em Kiev, quando foi preso, em 1911, acusado de praticar assassinato ritual depois que o corpo de um menino cristão de 12 anos foi encontrado sem uma gota de sangue.  O garoto, na verdade, havia se envolvido com uma quadrilha de ladrões e fora assassinado após ameaçar delatá-los.  Mas a quadrilha  montou a cena do crime de modo a parecer um assassinato ritual, na esperança de provocar um pogrom e a consequente oportunidade de pilhar propriedades de judeus.

A despeito da incitação por parte da organização antissemita Centúrias Negras, no entanto, não houve pogrom. Enquanto Beilis sofreu na prisão durante mais de dois anos antes do início do seu julgamento, a comunidade judaica russa e a inteligência russa liberal manifestavam-se em sua defesa, e logo uma campanha internacional foi deslanchada para defendê-lo.  Dois não judeus – um detetive da polícia de Kiev e um jornalista – fizeram um trabalho investigativo que os levou a denunciar uma armação da promotoria. Os companheiros de prisão de Beilis e até os guardas penitenciários se solidarizaram com ele.

As associações de advogados de São Petersburgo e de Kiev condenaram as acusações, e um time craque de advogados fez pedacinhos da acusação. Testemunhas de acusação retiraram os depoimentos que haviam incriminado Beilis, tendo uma delas declarado: “Sou cristão e temente a Deus. Por que eu deveria arruinar um inocente?” Um padre católico convocado pela promotoria como sendo uma testemunha conhecedora da Lei judaica foi desmascarado como ignorante. Um filósofo cristão ortodoxo do Seminário Teológico de Kiev testemunhou, em favor da defesa, que as leis que regem a dieta judaica proíbem a presença de sangue nos alimentos.  Apesar de o juiz, tendencioso,  ter explicitamente instruído o júri a condenar o réu, Beilis foi declarado inocente. Os jurados, camponeses ucranianos, continuavam acreditando na alegação de assassinato ritual, mas consideraram que Beilis era a pessoa errada.

Túmulo de Mendel Beilis

Um dia, um padre

O próprio caráter de Beilis funcionou a seu favor. Ele era estimado pelos operários cristãos que supervisionava e pelos vizinhos cristãos. Os operários prestaram depoimentos verdadeiros de que ele se encontrava na fábrica no momento do assassinato. Beilis também era um bom chefe de família com raízes na comunidade judaica.  No período em que esteve preso recusou corajosamente uma oferta de anistia porque isso significaria admissão de culpa.  Ele insistiu no julgamento e nunca titubeou em proclamar sua inocência.

A imprensa russa e a ocidental cobriram o julgamento de perto.  Enquanto penava numa cela de prisão, Beilis se tornou uma figura popular, e a sua absolvição foi recebida com júbilo pelas comunidades judaicas em todo o mundo. Em poucos meses, três peças sobre ele em ídish estavam sendo levadas simultaneamente em palcos da cidade de Nova York.

Beilis alcançou status de celebridade e atraiu uma multidão de admiradores em Kiev. Na edição em inglês de suas memórias, a história dos meus sofrimentos (em tradução livre), 1925, ele faz o seguinte relato a respeito de um visitante inesperado:

“Um dia, um padre russo veio me ver. Caiu de joelhos e fez o sinal da cruz. Soluçando como uma criança, chorou: ‘Senhor Beilis, o senhor sabe que estou me arriscando. Eu não deveria ter vindo. Poderia ter enviado uma carta, mas decidi vir em pessoa. Minha consciência não me permitiria agir de outra maneira. Vim para pedir o seu perdão em nome do meu povo.’  Ele beijou a minha mão, e antes mesmo que eu conseguisse me recuperar do choque e responder, saiu às pressas. Esse incidente me afetou profundamente. Eu jamais imaginaria um alto clérigo russo ajoelhando-se ante um judeu e beijando a sua mão.  Que criaturas estranhas são esses russos! De um lado, os Zamislovskys, os Schmakovs e os bandos desprezíveis das  Centúrias Negras; de outro, pode-se encontrar um padre russo implorando o perdão de um judeu pelas perseguições a que vem sendo submetido.”

A  despeito de todas as atenções, no entanto, Beilis também recebia ameaças e decidiu imigrar e fixar residência na nova cidade de Tel Aviv. Ao visitar o Monte do Templo, em Jerusalém, descobriu que sua fama se espalhara também entre os árabes.

Oito anos mais tarde, em 1921, mudou-se para os Estados Unidos por não conseguir se sustentar na Palestina. Ele alegou que a ajuda financeira prometida pela família Rotschild nunca se materializara.  Viveu o resto da vida em Nova York e escreveu em ídish as suas comoventes memórias, nas quais manifesta apreço aos gentios russos e ucranianos que vieram em sua defesa e por isso foram perseguidos.

Beilis morreu subitamente em 1934, aos 70 anos, quando estava hospedado em um hotel em Nova York. Quatro mil pessoas assistiram aos serviços religiosos em sua memória na Sinagoga de Eldridge Street, no Lower East Side de Manhattan.

Livro recém-lançado doneto Jay Beilis

Hungria hoje

Embora o processo Beilis tenha sido o último do gênero, no século 19 houve diversos casos de libelo de sangue, a maioria na Rússia tsarista. O mais notório, porém, teve lugar em Damasco, Síria, em 1840, quando oito líderes comunitários judeus foram presos pelas autoridades muçulmanas por terem supostamente matado um padre católico e seu criado para usar o sangue deles no fabrico de matsá. Os instigadores foram a Igreja Católica e o cônsul francês em Damasco. Corpos jamais foram  achados, mas as confissões foram obtidas sob tortura; um dos prisioneiros morreu e outros sofreram sequelas permanentes.

Os judeus do Ocidente lançaram uma campanha maciça em favor deles, liderados pelo estadista  francês Adolph Cremieux e pelo filantropo Moses Montefiore. O governo dos Estados Unidos também fez um protesto e os sobreviventes acabaram sendo libertados.  O sultão turco emitiu um decreto denunciando a acusação de assassinato ritual como fraude e proibindo o seu uso em procedimentos legais contra judeus.

O século 20 também testemunhou acusações de assassinato ritual depois do caso Beilis: na Polônia (1928), na Lituânia (1929), na Bulgária (1934) e em Massena, Nova York (1928). Todos os casos foram arquivados antes de iniciados os julgamentos.  A propaganda nazista, obviamente, repetiu o mito do libelo de sangue junto com uma porção de outras calúnias antissemitas, uma mais monstruosa do que a outra.

Ano passado, um membro fascista do Parlamento húngaro pronunciou um discurso na véspera de Pessach ressuscitando a alegação de assassinato ritual pelos judeus.  A difusão de propaganda antissemita na Hungria levou o governo do país a adotar uma emenda constitucional visando a cercear os discursos de ódio. Resta esperar para ver se será bem sucedida.

Uma nova edição das memórias de Beilis, intitulada Libelo de sangue: a vida e as memórias de Mendel Beilis em tradução livre, acaba de ser publicada pelo seu neto Jay Beilis e por dois advogados. Ela inclui uma acusação de plágio de partes significativas das memórias de Beilis por Bernard Malamud em seu livro The Fixer, bem como de desvirtuar a personalidade de Beilis.

O caso, ao que parece, continua tendo desdobramentos mesmo depois de cem anos.

Traduzido e condensado por S.M.G.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Jewish Currents

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