A propósito da Hebraica-Niterói

Coral da Hebraica de Niterói, Encontro Coral da ASA, 2013

O caso da Hebraica de Niterói ilustra de forma clara alguns aspectos comunitários pouco citados e debatidos. 

Nossas instituições educacionais, beneficentes e de lazer foram sempre constituídas de baixo para cima, isto é, resultaram de esforços desenvolvidos por contingentes humanos restritos que, por círculos de afinidades (a princípio por origem, desde as familiares passando pela vila ou cidade até o país, partindo daí para outras imbricações), lançaram-se a estas empreitadas. Este processo teve sua raiz na diversidade de procedências, tradições e visão de mundo que formaram o que chamamos comunidade judaica. Esta singularidade ensejou particularidades nas formas de socialização.

Posteriormente, por sobre estes grupos de afinidade tentou-se constituir entidades-teto mais gerais para representar o todo. Apesar dos esforços em fazê-las representativas, em muitos casos fracassaram e foram combatidas porque suas intervenções eram consideradas tentativas de ingerência em assuntos que estes grupos viam como somente seus, dificultando articulá-las em procedimentos comuns com maior sustentação.

Desde o século 19 os judeus do Rio de Janeiro e arredores construíram entidades voltadas para seus segmentos de procedência. Nada mais distante, à época, de um judeu francês procedente da Alsácia-Lorena do que um judeu marroquino e deste, os judeus russos. O que os unia, se é que os unia, apesar das distâncias e estranhamentos, era uma condição comum internalizada total ou parcialmente, mas com formas diferenciadas. Outro fator real que igualmente os reunia era o olhar alheio.

Em que medida os judeus estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro se sentiam parte de um todo a ponto de considerar ou absorver vivências diferentes das suas como parte de sua identidade?

O senso de pertencimento a um espectro mais amplo é uma variável histórica “plástica” que não é imutável, nem constante. Existiu sempre uma dinâmica entre diversidade e unidade nas condições de ser judeu e de se considerar outros como tais.

João do Rio, em 1906, observava:

“(…) Há os judeus ricos, a colônia densa dos judeus armênios e a parte exótica; a gente ambígua, os centros onde o lenocínio, mulheres da vida airada e caftens, cresce e aumenta; há israelitas franceses, quase todos da Alsácia-Lorena; marroquinos, russos, ingleses, turcos, árabes, que se dividem em seitas diversas, e há os Askenazi comuns na Rússia, na Alemanha, na Áustria, os falachas da África, os rabbanitas, os Karaítas, que só admitem o Antigo Testamento, os argônicos e muitos outros.

Os semitas ricos não têm no Rio ligação com os humildes nem os protegem como em Paris e Londres os grandes banqueiros da força de Hirsch e dos Rotschilds. São todos negociantes, jogam na Bolsa, veraneiam em Petrópolis, vestem-se bem.

Muitos são joalheiros, com a arte de fazer brilhar mais as joias e de serem amáveis. Franceses, ingleses, alemães, o culto desses cavalheiros apresentáveis e mundanos reveste-se de uma discrição absoluta. Uns praticam o culto íntimo, outros não precisam do hasan e fazem juntos apenas as duas grandes cerimônias: a Iom-Kipur ou dia das lamentações e do perdão, e o ano novo ou Rosch-Haschana.”

Gangrena

O caso da Hebraica de Niterói é um sintoma da mesma dificuldade, e isto não significa pregar uma centralização comunitária, aliás, impossível. Cabe-nos indagar em que medida nossos órgãos centrais procuraram chegar a estas extremidades comunitárias e mesmo individuais. Os vínculos frouxos expressam um processo de gangrena que não é novidade no nosso meio. Se formos examinar o público que estes órgãos centrais atingem, ele não passa perto do número total de judeus aqui residentes. Paradoxalmente sua representatividade é mais ampla frente ao público externo à comunidade do que frente ao interno.

Podemos chamar os sócios restantes da Hebraica de Niterói de interesseiros ou alienados, mas cabe também refletir sobre as causas mais amplas de tal comportamento. A distância deles frente à fala dos órgãos centrais é enorme. Acredito que por detrás desta distância não se encontra somente o interesse pecuniário. É mais que isto.

Estamos diante de um processo em que à dispersão comunitária não se antepõe nenhum projeto consistente, inovador, para chegar a todos que indistintamente carregam algum tipo de identidade judaica. Parece-me que nossas entidades centrais se limitam a convencer quem já está convencido, falam para poucos e se fecham à diversidade que nos caracteriza. Daí para os incêndios são poucos os passos.

Representar a diversidade requer algo mais que sentar com nossas entidades. Requer quebrar grilhões e atitudes que distanciam cada vez mais nosso oficialismo da verdadeira tarefa de representar o todo. A Hebraica de Niterói não se considera tutelada pela FIERJ nem devedora de qualquer satisfação. Este é o sintoma.

Sugerir como causa para todos os problemas a presença da assimilação é uma resposta pobre. As antigas kehilot eram homogêneas, mas as atuais comunidades não o são. Atente-se para a quantidade infinita de atividades semanais que diferentes organizações judaicas oferecem possivelmente para públicos restritos. Nelas talvez haja muita energia criativa que, infelizmente, se dispersa no ar.

Enfim, além de nos escandalizarmos com o ocorrido, vale perguntar o que queremos.

Boletim nº 148 – maio/junho de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

Seja o primeiro a comentar