Uma pioneira no Brasil Colônia

 IMAGENS ImpressõesMemórias de Branca Dias

 

Miguel Real, Matosinhos (Portugal)

 

QuidNovi Editora, 3ª ed., 2009

 

173 páginas

Casa de fazenda, Frans Post (1651)

O escritor português Miguel Real se baseou em documentação sobre Branca Dias, publicada pelo historiador e diplomata brasileiro Evaldo Cabral de Melo, para escrever este “diário”, como o autor indica na sua Apresentação (pessoal) à 3ª edição. Fica então esclarecido que a Branca Dias que “escreveu” este diário não é a mesma que inspirou a personagem central da peça O Santo Inquérito (Dias Gomes). Esta era paraibana, também objeto do sadismo da mesma Inquisição, mas os ecos da sua vida contam com muito menos alicerces históricos do que a história da primeira, nascida em Portugal e vítima da perseguição portuguesa, a protagonista das “Memórias”.

Miguel Real se torna “autora” deste diário, ficcionalmente escrito pela portuguesa que, por volta de 1550, foi delatada, pela mãe e pela irmã, já presas e torturadas, como infratora das leis do Santo Ofício. Em outras palavras, foi denunciada como “judaizante”. Presa no Estaus, em Lisboa, que continha tribunal, prisão e calabouço no mesmo edifício, ficou à mercê dos padres. Condenada a penitências e a vestir roupa de escorraçada, entre outras ignomínias, finalmente conseguiu redução da  pena para pouco mais de um ano, tendo sua defesa se apoiado na criação dos seus filhos, que ficaram abandonados. Seu marido, Diogo Fernandes, vendedor ambulante, com quem se casara aos 14 anos de idade, escapara para o Brasil fazendo-se passar por cristão-velho, com a ajuda de uma criada. Ao ter sua sentença comutada, Branca Dias conseguiu fugir com os sete filhos deles e foi ao seu encontro em Camaragibe, uma região açucareiraem Pernambuco. Odonatário Duarte Coelho fingiu que não sabia que ambos eram cristãos-novos, pois seu objetivo era a produção de açúcar e, por isto, os ajudou com  empréstimos, dos quais tirou altos juros. No pequeno engenho que Diogo e Branca tiveram, que nunca se completava e que foi destruído por índios enraivecidos e vingativos contra os brancos, o casal teve mais quatro filhos. Juntos, tentaram normalizar a vida da família, que teve o acréscimo de uma menina, filha de Diogo com a criada que o tinha ajudado a fugir para o Brasil enquanto sua mulher legítima ainda estavaem Portugal. Ofato de Branca ter incluído a menina como filha já mostra a largueza do seu coração, mais tarde evidenciada por outros feitos, igualmente insólitos para a sociedade e a época.

Maldades

Cada um dos 17 capítulos deste “diário” focaliza bem de perto a vida no engenho, os problemas com o donatário, a convivência com a maldade dos portugueses (incluindo os cristãos-novos) em relação aos escravos índios e negros e, principalmente, as dificuldades com o fato de quererem manter os rituais judaicos. Chegaram a erguer uma casa de orações, ou esnoga, como se dizia então sinagoga, escondida e camuflada no meio da plantação de açúcar. Os Grandes Dias(como o Ano Novo e o Dia do Perdão) eram frequentados por vários judeus que passavam por cristãos. Entre eles, ninguém menos do que Ambrósio Fernandes Brandão, que sempre visitava a família, autor da obra Diálogos da grandeza do Brasil.

Depois de morte do marido, que sucedeu logo em seguida à queima da plantação de açúcar pelos índios, e submersa em dívidas, Branca Dias viu-se como senhora de engenho, talvez a primeira mulher a ter posse e mando de um pedaço de terra no Brasil. Adiantada para a sua época, mandou destruir o pelourinho na sua propriedade, o que foi recebido pelos negros com festanças à moda africana, como descritas em pormenores no “diário”. Com empréstimos do donatário e de cristãos-novos vizinhos, ela tentou levar adiante o sonho do marido, o de conservar as terras para os seus descendentes, mas, ao fim, isto não se concretizou.  Depois de anos como dona do engenho, teve de vendê-lo, recuperando os juros que o tinham afundado, num jogo irônico da vida, o que a levou a abrir-se caminho em outro local. A força espiritual que a acompanhava desde menina, ela devia à sua já falecida avó. Sempre que se saía bem de alguma dificuldade, dizia mentalmente “obrigada, avó”,  o que passou a ser um bordão que finaliza quase todos os capítulos dessa biografia.

Com o resultado da venda do engenho, ela se mudou para Olinda, em companhia da filha primogênita, que nascera com uma concorva e tinha dificuldades mentais, e um dos filhos, que nascera sem os dois braços e que aprendera a escrever e a desenhar com os pés. Novo panorama se desdobrou para essa  lutadora  – abriu uma escolinha para ensinar meninas, filhas dos portugueses, brancas e mestiças, a bordar e a costurar. Deu-lhes uma ocupação e manteve-se com os proventos dessas aulas.

Anos mais tarde, algumas dessas alunas, instigadas pelos representantes do chamado Santo Ofício, declararam que a mestra tinha hábitos muito semelhantes aos cultivados pelos judeus – os já propagados vínculos judaicos, como limpeza pessoal e doméstica na véspera do sábado, enfim, os relatórios que os padres queriam escutar. Como Branca Dias já fosse falecida, agarraram-se os clérigos aos filhos e aos netos, levando para Lisboa a filha que sofria das faculdades mentais – ela acabou recitando tudo o que os inquisidores queriam escutar, sob as costumeiras sevícias dos santos padres.  Parece, pois não se sabe ao certo, que chegaram a exumar os ossos de Branca e levá-los a Portugal, onde foram execrados como pertencentes a uma pecadora irreconciliável com a Igreja.  Todos os bens deixados aos filhos e aos netos foram confiscados pela “Santa Madre Igreja”.

O diário é intercalado com ilustrações encontradas em obras reconhecidas e admiradas, de autoria de pintores como Albert Eckhout, Zacarias Wagener, Frans Post, Jean-Baptiste Debret. Outros trabalhos serviram de base a esta obra que personifica a figura histórica de Branca Dias, que passa a viver e a respirar como se fosse uma pessoa próxima a quem ler seu “diário”. Ficcional que seja, é um documento que espelha, até um certo ponto, vidas judaicas sob a estrutura persecutória da Igreja Católica no Brasil Colonial. Também reflete a vida de uma mulher que se identificava como “quase feliz” e que, devido às circunstâncias opressoras, foi também quase cristã e quase judia – mas era integralmente forte e decidida, pioneira como proprietária e dirigente de um engenho, guardiã de uma esnoga e fundadora, até prova em contrário, da primeira escola para meninas no Brasil.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

 

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar