Tempos sombrios

Dieudonné M'bala M'bala, comediante francês acusado de antissemitismo, faz "la quennelle"

Dieudonné M’bala M’bala, comediante francês acusado de antissemitismo, faz “la quennelle”

Vivemos tempos sombrios. Crescem a intolerância e a indiferença, o terreno no qual floresce a violência.  Há exemplos no Brasil, onde se criminalizam oficialmente os manifestantes do inconformismo; há exemplos no mundo, onde a extrema direita e os antissemitas ganham força. Multiplicam-se os “cortejos do ódio”, como classificou suas passeatas o ministro francês do Interior.  Lá mesmo, em Paris, a Cidade-Luz, reclamam a saída do presidente Hollande, mas repetem clamores não ouvidos desde a ocupação nazista de “Fora com os judeus”.   Produzem o milagre de juntar jovens de origem africana e árabe a skinheads.

Em nosso país, o tom subiu de escala, e nem estou falando da atitude de explícita segregação que cerca o combate aos chamados rolezinhos – quando os jovens dos subúrbios e da periferia intentam acorrer em massa aos shoppings.  Mas, em dezembro do ano passado, o Ministério da Defesa aprovou a Portaria Normativa nº 3461, pela qual as Forças Armadas podem ser mobilizadas para traçar e aplicar a repressão a “forças oponentes”, por estas entendidos em sentido amplo qualquer agente ou manifestação que possa vir a perturbar a ordem pública.  Tornamo-nos, assim, todos, virtuais inimigos internos.

Os primeiros atos contra a Copa em 2014, provocados, ensaiados ou talvez legítimos,  tiveram o desenvolvimento esperado: serviram para justificar  com antecedência mais repressão policial, aperfeiçoá-la e tentar reverter a favor desta a desconfiada opinião pública.  O teatro de representação do que deverá ser este megaevento não é para ser palco de distúrbios enquanto a melhoria dos transportes públicos, especialmente dos que atendem aos trabalhadores de moradia mais distante,  importante bandeira das manifestações de junho, continua empacada.

Manifestação de simpatizantes do Partido Svoboda, Ucrânia

Manifestação de simpatizantes do Partido Svoboda, Ucrânia

Defeito de caráter

Aqui também não estamos infensos ao crescimento do antissemitismo, seja por desconhecimento, pré-julgamento, miopia política ou, simplesmente, má-fé.  Amigos progressistas não judeus me dizem estarem fartos dessa “cultura do Holocausto”, que faz render filmes, publicações e exibições sobre eventos de duas gerações atrás como autojustificativa de uma postura vindicante e dominadora, principalmente em relação aos palestinos e a tudo mais que se passa no Oriente Médio.  Jornalistas até aqui tidos como responsáveis repassam blogues com charges antissemitas ou de apologia à quenelle, o gesto de braço cruzado sobre outro estendido para baixo – como uma saudação fascista invertida – , repudiado na Europa como evocador do nazismo.  Na geleia geral da indiferença, poucos ousam protestar contra, lembrando que antissemitismo e racismo são crimes parelhos.  O fato é que a política opressiva de Israel, a crueldade da ocupação que se estende desde 1967 e que se amplia com novas construções em território alheio, respinga cada vez mais no judaísmo diaspórico.  Por conta disso, vamos, aos poucos, nos sentindo imprensados entre os posicionamentos políticos e as nossas relações atávicas e culturais, olhados meio de lado, como se trouxéssemos algum defeito de caráter.  “Triste época!”, dizia Einstein.  “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.”

E aí voltamos nossos olhos para a imprensa dita livre. O momento é da Ucrânia, merecedora de manchetes por ter parte da população em luta por uma aproximação com a mais democrática União Europeia.   Em nome da maior liberdade, a mídia patrocina abertamente a causa dessa fração em luta na Ucrânia. No entanto, não estão em questão políticas sociais e direitos sindicais, como seria característico das lutas populares.  Ao contrário, emergem na linha de frente desse mesmo lado apoiado pela mídia internacional e pelos governos ocidentais estranhas organizações de cunho e inspiração nitidamente fascistas.  Hipernacionalista e anticomunista, destaca-se o partido Svoboda.  Seu nome quer dizer liberdade.

Enquanto isso, no Oriente Médio, os diversos fundamentalismos religiosos recorrem cada vez mais à força das armas para imporem o seu regime, a sua fé, como se fossem a verdade, a ciência.  Não passa dia em que não vejamos um novo grupo sectário atacar com violência alguma instituição ou associação encarada como rival, fazendo-nos perder qualquer esperança de um futuro acordo de apaziguamento.  O entendimento que prevalece é a linguagem do fuzil-metralhadora.

A frase já estava em conhecido poema de Brecht e serviu de título a um livro de Hannah Arendt: realmente, vivemos tempos sombrios.  No entanto, a inquietação já produziu no passado reações criativas e solidárias.  Esperemos que a história se repita.  E não sob a forma de farsa.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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