Pessach e liberdade

Slide1Pessach está chegando. Dentro do calendário judaico, é a festa com a qual mais se identificam os judeus progressistas. Mesmo reconhecendo que a narrativa tradicional tem fortes elementos míticos, percebe-se nela uma riqueza simbólica consistente, da qual a liberdade é um dos exemplos mais marcantes. O enfrentamento da tirania, elemento comum nas muitas versões da Hagadá, serviu de inspiração para gerações de judeus e não judeus. Não por acaso, o início do levante do Gueto de Varsóvia, em 1943, coincidiu com o primeiro dia do Pessach. Não por acaso, a resistência contra o racismo nos Estados Unidos é celebrada, em vários espaços comunitários, durante o seder. Judeus e negros irmanados na memória comum de preconceito e luta.

Uma pergunta, muitas respostas: o que é liberdade ? Será aquela conseguida pelas mãos de uma liderança forte, como foi Moisés, sem muita participação dos envolvidos? Quanto dura o que se consegue sem convicção, sem esforço? Nos dias que correm, é frequente dizer que é livre aquele que pode consumir. Consumo, logo existo. É isso mesmo? Liberdade combina com exclusão, com mecanismos econômicos, políticos e culturais que marginalizam enormes massas? Pode-se afirmar que é livre aquele que convive sem traumas com a violência contra os diferentes? Como conciliar a liberdade individual com a vida em grupo? São questões que perseguem o homem em sua jornada pelos tempos.

Pessach também evoca exílio. Vivemos numa época de deslocamentos forçados. Gente desesperada, à procura de condições dignas de existência, arrisca a vida em embarcações precárias, em transportes clandestinos. As fronteiras se fecham cada vez mais e o discurso anti-imigração ganha força. Parafraseando uma conhecida passagem da Hagadá: que sintamos esse drama como se fossemos nós os barrados nas fronteiras.

Neste Pessach, olhemos ao redor. Agucemos nossa sensibilidade, não raro entorpecida pela rotina. Demonstremos solidariedade ativa aos que sofrem com múltiplas formas de servidão. Aos humilhados e ofendidos. Aos que padecem por falta de esperança. Aos que perderam a centelha que os torna humanos. Enfim, a todos a quem falta uma referência inspiradora como o Pessach para dar sentido a suas vidas.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

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