Papa Francisco, dos gestos aos fatos

Monges ortodoxos gregos e armênios brigam na Igreja do Santo Sepulcro, nov.2008,Foto Ammar Awad,Reuters

Monges ortodoxos gregos e armênios brigam na Igreja do Santo Sepulcro

“Os judeus deram autorização a nós, cristãos de toda a Palestina, para irmos a Jerusalém, de modo que finalmente saímos um pouco da prisão em que estamos vivendo; levei meus filhos para passear em Jerusalém”, escreveu-me uma amiga, Nancy Seriani, cidadã de Belém.  O e-mail, apesar de curto, é interessante por várias coisas. Primeiro, porque fala dos “judeus” e os “cristãos”; segundo, porque em duas linhas também nos dá uma ideia da situação que ela define como “prisão” e de como, uma vez  relaxados um pouco os controles e liberadas algumas autorizações de circulação, eles sentem um alívio que lhes melhora a vida. Ela escreveu também “Tomara que o papa possa conseguir alguma coisa”, referindo-se à viagem do papa Francisco à chamada Terra Santa em maio próximo.

O papa poderá obter algum avanço na situação desde que atue mais como líder político do que como líder religioso.  O problema é político, não religioso. É verdade que os papas têm uma aura especial que lhes confere um handicap sobre outros políticos, uma certa veneração que foi  incrementada, no caso de Francisco, por uma excelente campanha de marketing que inclui atitudes de austeridade e uma maior aproximação com as pessoas. Isso ajuda, mas a sua gestão em busca da paz no Oriente Médio tem que ser mais política do que religiosa. Neste caso a religião não tem nada a ver, embora seja usada como desculpa para outras coisas.

E dá respaldo aos que a metem no meio do conflito. A prova é o e-mail da minha amiga, quando diz que “os judeus” deram permissão “aos cristãos” para que fossem a Jerusalém. O que Nancy – e muitos outros – deveria entender é que os responsáveis pela prisão em que ela vive não são os judeus, mas o Estado de Israel, que ocupa os seus territórios desde 1967. E que os que sofrem essa opressão não são os cristãos, mas os cidadãos palestinos, sejam cristãos, muçulmanos ou ateus, privados de ter um Estado, como ocorrera antes com o povo judeu.

Seria bom que todos deixassem um pouco Deus em paz, que deixassem a hipocrisia de culpar Deus pelas barbaridades que o homem comete não pela religião, mas por simples ambição e más intenções. Deus nada tem a ver com as Cruzadas medievais, nem com a expulsão de judeus e muçulmanos da Península Ibérica no começo da Modernidade, nem com a Shoá, nem com o Setembro Negro (1970 – forças jordanianas com apoio israelense contra refugiados palestinos), nem com Sabra e Chatila (1982 – cristãos libaneses com ajuda de Ariel Sharon contra refugiados palestinos), nem hoje com a ignomínia do novo muro da vergonha, nem com a atuação do exército israelense contra um povo inteiro, nem com as frequentes batalhas campais dentro do Santo Sepulcro entre cristãos ortodoxos, armênios, católicos e coptas.  Em todos os casos, o que está por trás é a exploração do homem pelo homem, exacerbada em nossos dias por um capitalismo financeiro mundial que, justamente por estar ferido, torna-se mais perigoso e incontrolável.

Capa da revista Rolling Stone, 31-01-2014

O lugar da religião

Francisco está perto de completar um ano como papa. Além de líder global da Igreja Católica, é um chefe de Estado: o Vaticano. Seu poder é muito terreno, muito concreto e muito grande. Durante este ano, foi construindo cada vez mais poder com o marketing que o levou, com ou sem razão, a ser o líder mundial mais visitado nas redes sociais, a ser destacado pela revista Time como o Homem do Ano de 2013 e a ser estampado na capa da revista Rolling Stone.

Não obstante não se viram até agora as mudanças profundas que ele promete em uma estrutura tão paralisada e corrompida como é a Cúria Romana. E muitos católicos ao redor do mundo estão aguardando transformações concretas que os ajudem a viver melhor em sua inter-relação cotidiana com a fé.  Entre eles há divorciados, homossexuais, padres casados, vítimas de abusos sexuais, mulheres que continuam discriminadas dentro da Igreja e muitos outros. Se as mudanças esperadas não chegarem, a esperança poderá transformar-se em desilusão.

Sem dúvida, há uma mudança, pelo menos no estilo e no discurso, em comparação com  Bento 16 e  João Paulo 2°, os dois papas mais retrógrados dos últimos tempos. Francisco tem a oportunidade única de se converter em um líder histórico, que ajude realmente a Humanidade, para além das belas palavras e das alusões a Deus. Que Deus se encarregue do além, porque nós precisamos de alguém que se encarregue do aqui.

Precisamos com urgência de alguém que ponha um freio nas injustiças no Oriente Médio, que suspenda a ocupação ilegal de territórios em nome de algum desígnio divino. Discutir com judeus ortodoxos e com muçulmanos conservadores sobre o Oriente Médio é realmente estéril, porque a argumentos que evocam títulos de propriedade outorgados por Deus é impossível responder. É preciso que o papa arregace a batina e se ponha a trabalhar politicamente com o governo de Israel, com a Autoridade Nacional Palestina e até com os representantes do Hamas que governam Gaza, e com todas as forças políticas da região, para finalmente dar pequenos passos, porém firmes, em direção à paz.

Estou convencido de que isso é possível – dois povos vivendo em dois estados, lado a lado e em paz. Essa paz será produto do respeito, e o respeito será muito mais possível se religiões e fanatismos ficarem isolados. Por exemplo, se o Estado de Israel deixar de ser uma teocracia e se o futuro Estado palestino evitar sê-lo.

Nisso o papa Francisco poderia desempenhar um papel importante, dando um exemplo e pondo a religião em seu justo lugar. Há pouco tempo ele disse: “O bispo de Roma não descansará enquanto houver homens e mulheres, de qualquer religião, desprezados em sua dignidade, sem o necessário para a sobrevivência, privados do futuro, obrigados à condição de nômades e refugiados.”

O papa tem algumas ideias e atitudes interessantes, como sua abertura ao diálogo inter-religioso, que ele já estimulava em Buenos Aires. Pode ser um primeiro passo.  Em sua viagem de 24 a 26 de maio visitará Amã, Jerusalém e Belém. Em Jerusalém, irá ao Muro das Lamentações e se juntará aos seus irmãos cristãos de outras tradições no Santo Sepulcro. Em Belém, fará uma refeição com palestinos que sofrem no dia a dia como a minha amiga Nancy.  Ele faria bem em ouvir ainda outros atores sociais e políticos que não necessariamente sejam de alguma religião.  Na Terra Santa há muitos religiosos que não têm nada de santos e, ao mesmo tempo, muito santos ateus, que trabalham pela paz mais do que muitos religiosos, como outro amigo, o professor Efraín Davidi (Universidade de Tel Aviv – dirigente do Partido Comunista), que trabalha permanentemente há décadas com organizações irmãs palestinas.

Faz pouco tempo, o papa Francisco recebeu o presidente palestino Abas. Presenteando-o com uma caneta, o anfitrião disse: “Certamente terá muitas coisas para assinar.” E Abas respondeu: “Espero usar esta caneta para assinar um tratado de paz com Israel.”

O papa pode empregar muito mais do que canetas para a assinatura de um tratado de paz. O Vaticano pode fazer muito mais do que fez até agora pela paz mundial. A questão central é que para resolver qualquer problema é necessário ir à origem.  Se a Igreja sempre se mostra muito preocupada com a pobreza, então tem que falar menos dos pobres e falar dos ricos e das desigualdades, que são os causadores da pobreza. O mesmo ocorre com a paz no Oriente Médio. Nunca se poderá avançar rumo a uma paz que dure e se respeite se não for baseada na justiça, e para tanto se terá que falar das causas que geram a violência.

Se o papa Francisco entender isto e tiver a coragem de passar das palavras bonitas à ação política, terá muito o que dizer e fazer na Terra Santa. Se não, passará irrelevante, como os seus dois antecessores imediatos.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Mestre em Relações Internacionais pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina), é colunista de política internacional do Canal 10 (Córdoba), da Radio Universidad (Córdoba) e da Radio del Plata (Buenos Aires).

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