Outros tempos: não foi bem assim

A história da comunidade judaica no Rio de Janeiro pede revisão. Dou aqui três exemplos a respeito. Tivemos no século 19 uma onda migratória judaica restrita proveniente da França, especificamente da Alsácia-Lorena, em razão da guerra franco-prussiana de 1870. Certo?

Errado. Os que migraram após a débâcle francesa e a anexação do território à Alemanha davam prosseguimento a um processo que se iniciou no final dos anos 40 do mesmo século e escolheram o Brasil e o Rio de Janeiro  pela existência de um ambiente propício à sua absorção com um núcleo considerável de judeus proveniente justamente da Alsácia-Lorena.

A primeira organização judaica beneficente na cidade foi a União Israelita do Brasil, fundada em 1870 e reconhecida em 1873. Certo?

Errado. Além de uma tradição improvável sobre a existência de uma sinagoga marroquina ainda na década de 40 do século 19, o primeiro fato noticiado sobre a comunidade se refere à realização coletiva dos ofícios religiosos de Iom Kipur em 1866. Mas, antecedendo a todos eles, desde 1860, judeus franceses, principalmente da Alsácia-Lorena, já mantinham uma sociedade beneficente no Rio de Janeiro.

A existência dessa entidade dez anos antes daquela tida como a primeira denota a presença de uma massa crítica de judeus franceses e alsacianos nesta cidade anteriormente a 1870, fato que exige uma revisão daquilo suposto até agora.

Passando para o século 20, 1906 é tido como o ano em que as chamadas polacas organizaram no Rio de Janeiro sua entidade beneficente: a Associação Beneficente Funerária Religiosa Israelita (ABFRI). Certo?

Novamente errado. Sua primeira organização se deu em 1898, isto é, oito anos antes daquela tida como a pioneira. Encontramos traços de sua atividade até o ano de 1900. Por razão que até agora desconhecemos esta primeira sociedade se desfez e houve necessidade de refundá-la anos depois.


Sociedade Israelita Beneficente e Funerária, 1898

Esta descoberta tem diferentes implicações. Pensava-se que a fundação da ABFRI em 1906 fosse decorrência da criação de entidade similar denominada Varsóvia (que depois mudaria seu nome para Tzvi Migdal), na Argentina, naquele mesmo ano. Logo, estaria a reboque de uma influência portenha. Ora, isto não ocorreu dentro deste padrão de explicação. As polacas no Rio de Janeiro não só foram cronologicamente pioneiras na organização deste tipo de entidade como se diferenciaram da argentina por ter sido a Associação fundada por mulheres e seu estatuto inicialmente só ter permitido a filiação destas. Na Argentina, foi fundada por homens. Estas evidências requerem uma reescrita de diferentes presunções anteriores, pois trazem implicações impossíveis de serem expostas em espaço reduzido.

Repúdio

Passando para outra faceta comunitária, considera-se que os anos de ouro do teatro ídish no Rio de Janeiro foram aqueles posteriores à década de 20 do século passado. Temo que esta assertiva não seja inteiramente correta.

Aliás, uma apresentação teatral pioneira nesta língua teria se realizado na cidade do Rio de Janeiro, com divulgação estampada em 13 de março de 1903 no Correio da Manhã. Noticiava-se sobre a futura presença de troupe de atores israelitas no Teatro Lucinda com a peça Bar Kochba, opereta em quatro atos de A. Goldfaden, sendo o representante do grupo H. (Harris) Stambulka. Temos provas de sua estadia no Rio de Janeiro e de sua partida para os Estados Unidos, onde fez carreira, mas nada encontramos sobre esta suposta apresentação. Fica a questão em aberto.

Cito como exemplo a presença maciça da Grande Companhia Israelita dirigida por Harry Starr (Harry) com atores arregimentados na Argentina. Entre 1912 e 1919, contabilizou a apresentação em longas temporadas de mais do que 35 peças e um número multiplicado de sessões (no mínimo 85) em espaços teatrais centrais no Rio de Janeiro, detectadas nos jornais, não cabendo neste espaço as menções. O senão era que a trupe tinha como público e sustentáculo os traficantes de mulheres e as polacas.

Embora repudiada oficialmente pela comunidade judaica, nem sempre esta companhia pode ser julgada unilateralmente. Harry Starr empresariou atores estrangeiros de língua ídish famosos, sem histórico de envolvimento com os traficantes, como foi o caso de Maurice Moscovich, veterano ator ídish que no princípio trabalhou na Rússia, depois na Grã Bretanha e Estados Unidos, tendo atuado  em Hollywood  em 14 filmes desde 1936, inclusive em O grande ditador , de Charles Chaplin (no papel do barbeiro que fazia dupla com Chaplin). Só para exemplificar, entre as cinco peças representadas constava Der fáter (O pai), de August Strindberg. Um dia antes de sua primeira apresentação, na Seção Livre do Correio da Manhã de 29 de abril de 1915, aparecia a seguinte declaração:

“À Colônia Israelita e ao Público em Geral

A propósito da companhia que trabalha no Teatro Lírico, assumindo o título de Grande Companhia Israelita, estamos obrigados a fazer a seguinte declaração: Muito desejávamos, com efeito, ouvir o célebre ator Maurício Moscovich. Infelizmente o grande artista se entregou à direção do Sr. H. Starr (Harry – nota do autor). Esta atitude do festejado ator profundamente magoou a todos os verdadeiros israelitas, que não podem transigir com um empresário cujos precedentes o fizeram excluir das sociedades israelitas. Por isso protestamos contra o procedimento do Sr. Moscovich e declaramos que não compareceremos às suas sessões. M. Wofer, B. (Barros) Tendler, S. Gorenstein, Jacob Schneider.

Portanto, caros leitores, há um espaço considerável como nos três exemplos acima para se afirmar que “não foi bem assim” no histórico da comunidade.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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