O verão se move

Emb. Itzhak Aviran

A questão do atentado não esclarecido contra a sede da AMIA em Buenos Aires, em 1994, é um tema que se apodera de maneira brutal dos membros da comunidade judaica argentina, estejam ou não integrados a alguma instituição. Questão ainda não solucionada em nenhum sentido, ferida lacerante na malha comunitária, é matéria de árduas controvérsias.

Entidades de dentro da comunidade e de fora  (movimentos sociais, partidos políticos), familiares e amigos das vítimas, instâncias governamentais (Justiça, diplomacia, Executivo, legisladores) participam de um penoso debate com opiniões de todo tipo, seguindo as diferentes alternativas do caso.

Em 2014 completam-se 20 anos – duas décadas! – desse terrível acontecimento. À medida que a data se aproxime (18 de julho), certamente as intervenções e os posicionamentos dos diversos setores irão subindo o tom. Dada a amplidão do leque, são de se esperar fortes opiniões de caráter político, mas também emocionalmente carregadas, o que não poderia ser de outra maneira.

Recentemente, um fato absolutamente inesperado sacudiu a modorra do verão: o embaixador de Israel na Argentina naquela época, Itzhak Aviran, advertiu que “a grande maioria dos culpados” do atentado foi abatida por Israel. Além disso, exigiu do Estado argentino respostas para os atentados contra a Embaixada de Israel e a mutual judaica em Buenos Aires, e criticou o chanceler Héctor Timerman por fazer “coisas anti-israelenses e antijudaicas”.

Em uma entrevista ao diretor da  Agencia Judía de Noticias (AJN), Daniel Berliner, em 2 de janeiro – como também para o portal Iton Gadol – , logo reproduzida pelos meios de comunicação, Aviran sustentou que “a grande maioria dos culpados já está no outro mundo, e isso fomos nós que fizemos”, ao ser perguntado sobre a impunidade que pesa sobre os ataques de março de 1992 (contra a Embaixada, com saldo de 29 mortos e 200 feridos) e julho de 1994 (contra a AMIA, 85 mortos e cerca de 300 feridos).

Aviran foi embaixador de Israel entre 1993 e 2000 (durante grande parte do período presidencial de Carlos Menem) e se encontrava a apenas duas quadras da AMIA no dia do atentado.

Na entrevista disse que “sabiam quem eram os autores do atentado à Embaixada, e o fizeram uma segunda vez… Depois veio a luta com o governo argentino para encontrar os culpados, que sabemos quem foram, e a grande maioria já se encontra no outro mundo”, insistiu, afirmando que “com isso o caso não está encerrado, e embora eu não esteja em posição de pedir alguma coisa ao governo argentino, ainda precisamos de uma resposta para o que ocorreu…”

Consultado sobre o Memorando de Entendimento assinado por Argentina e Irã no começo de 2013 para tratar de esclarecer o ataque, Aviran o criticou duramente, qualificando-o de “farsa”, já que há oito ex-funcionários  iranianos incriminados pela Justiça argentina, entre os quais o ex-ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, o ex-presidente Ali Rafsanjani (1989-1997) e o ex-conselheiro cultural do Irã  na Argentina, Mohsen Rabani.

“O mais importante é que, depois de tantos anos, em Israel, ouço que Timerman… quer fazer uma comissão para encontrar os culpados dos atentados, com os iranianos, que foram os principais responsáveis”, denunciou, afirmando que “nem [Carlos] Menem, nem [Fernando] de la Rúa [ ambos presidentes durante o serviço do embaixador], nem os que vieram depois fizeram algo para esclarecer o sucedido… Os investigadores acabaram denunciados, como o juiz [destituído Juan José] Galeano e [o ex-delegado Jorge] Palácios… creio que os dois fizeram um bom trabalho, mas depois foram afastados, e quem retomou a investigação ainda não deu uma resposta ao governo israelense nem à comunidade judaica na Argentina.”

Ato de protesto pela impunidade no Caso Amia

Fantasia

Dado o teor das afirmações, todo o espectro judaico argentino se pronunciou. A Chancelaria israelense emitiu um desmentido oficial. Numa tentativa de aliviar as tensões entre  os dois países, Israel sustentou que as declarações de Aviran “estão completamente desconectadas da realidade”, acrescentando que, “feitas sem autoridade nem conhecimento, são pura fantasia e de forma nenhuma refletem acontecimentos ou fatos como os que ele pretende descrever”. O texto oficial, autorizado pessoalmente pelo primeiro-ministro Netaniahu, reitera a cooperação com a Argentina, “com plena transparência”, na investigação  dos ataques à AMIA e à Embaixada.

O promotor Nisman, encarregado da investigação do atentado de 1994, disse que realizou todos os trâmites e que está “pronto para ser enviado a Israel” e fez uma exortação a que o ex-embaixador  preste depoimento com detalhes sobre suas revelações. “Pela minha experiência… posso duvidar de tudo o que afirmou Aviran”, declarou.

O chanceler Timerman criticou Israel, acusando-o de “ocultar” informação sobre o atentado à AMIA e de “se opor” ao Memorando de Entendimento assinado com o Irã: “Se tivesse havido cooperação com a Justiça argentina conforme os tratados internacionais, talvez os culpados já estivessem purgando os seus crimes, e os familiares poderiam, finalmente, saber que as vítimas receberam a justiça pela qual vêm lutando há tanto anos.”

O vice-presidente da Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA) comentou que  não darão “maior relevância  a um ex-diplomata aposentado que fez declarações extraoficiais”.

Uma das organizações de familiares de vítimas do atentado, a Asociación 18J-Familiares y Amigos de las Víctimas Del Atentado a la AMIA, pediu ao promotor que intime Aviran a prestar esclarecimentos, levando em consideração a “gravidade” de suas declarações, que, caso “sejam verdadeiras,  conteriam dados não revelados quanto à autoria e às responsabilidades no atentado à sede da AMIA”. Pediu para assistir à audiência, instando a AJN a remeter o original da entrevista ao promotor da vez “a fim de que se determine a possível existência do delito de  acobertamento, ocultamento de evidência ou informação ou qualquer outro ilícito”.

O ICUF – Federación de Entidades Culturales Judías de la Argentina assinalou “o caráter negativo destas declarações, acentuando o seu conteúdo fanfarrão e perturbador,   tendente a embolar o meio de campo para impedir que se chegue à verdade e se alcance a justiça. Nós, judeus, forjamos a frase clássica e milenar ‘a justiça, a justiça perseguirás’. As declarações de Aviran fazem retroceder o relógio da História, justificando e celebrando a justiça com as próprias mãos com métodos compatíveis com o terrorismo de Estado”, considerando que este tipo de ação supõe uma operação punitiva dos serviços secretos israelenses similar à organizada contra os guerrilheiros palestinos que assassinaram onze atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

Duas questões não resolvidas estão presentes em todo este episódio: justiça e impunidade.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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