O fotógrafo

Vitórias-régias no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Não era profissional, mas amador enlevado e dedicado, de muito tempo, àquela arte; ultimamente ligado à natureza, pássaros e belezas vegetais, não mais aos instantâneos de pessoas e situações evocativas. O Jardim Botânico era o melhor cenário de fundo: todo sábado pela manhã ele passeava durante horas de câmera na mão e olhos bem atentos, caprichosos. Começava bem cedo, antes das 7, era sócio, e podia entrar naquele momento em que, quase só, desfrutava todo o verde, com as emanações e as cores mais puras, o frescor e os animais em liberdade, antes mesmo dos colegas, vários, alguns com tripés e equipamentos mais sofisticados, que vinham também naquele horário que precedia a abertura, às 8, dos portões aos visitantes em geral.

Era a pureza da Criação que tinha diante dos sentidos, e registrava as imagens com calma e meticulosidade, fruindo os aromas e as brisas, bebendo a água fresca das fontes com auxílio de um copo de plástico que levava na mochila. Sentia o deleite, o aprazimento completo de um homem em plenitude. E gostava também do reconhecimento: por duas vezes havia conquistado prêmios nos concursos do Jardim Botânico; uma vez o primeiro prêmio, com a foto de duas saracuras se atropelando sob o jato de uma ninfa que despejava água de um cântaro. Enviava fotos aos amigos e admiradores e recebia com agrado aplausos e agradecimentos.

E naquele sábado, passava já das 8h30, ia saindo, quando viu e parou num ato reflexo: viu que ingressava no herbário a mãe com a garotinha encantadora de vestidinho curto cor-de-rosa. Ele tinha acabado de beber água na bica da saída e, instintivamente, voltou-se como para beber mais e simulou um escorregão e um tombo à beira da fonte de ferro. Inexplicável, completamente irrefletido e involuntário o gesto, o movimento que se iniciou simulado e findou por ofender-lhe a mão que amortecera a queda para proteger a câmera. Sentiu a dor e teve que procurar socorro médico mais tarde, para constatar que havia fraturado um dos pequenos ossos da mão. No momento, entretanto, o instinto que autonomamente comandara os movimentos venceu, obteve o resultado, a moça largou a mão da filhinha e acorreu na ajuda.

Moça educada

Só então, Ramalho deu de si, isto é, após alguns segundos de retomada. Conscientizou por inteiro a razão que motivara o mover incontido do seu corpo: a beleza extraordinária daquela mulher. Nada de cinematográfica, exuberante ou luxuriosa, era uma beleza jovem indescritivelmente pura, irradiava uma aura, como se fosse a própria imagem da ideia platônica de beleza pura, transcendente, a forma de mulher. Compreendeu então toda a agilidade do reflexo do seu corpo, ou do seu espírito comandando o corpo, algo acima da  sua vontade consciente. Tinha de tirar uma foto daquela mulher, daquela imagem primeira e única.

Ramalho era um homem de firme senso comum, era um engenheiro como são os engenheiros, que estudam física e desenvolvem o bom-senso profissional. Mas tinha sensibilidade apurada, tinha sentidos e ademanes levemente afeminados, que se refletiam no jeito e num modo de falar que inspirava delicadeza, mesmo quando tinha a firmeza das afirmações seguras de um engenheiro. Falava de máquinas, de estruturas e processos químicos em tonalidades que adquiriam certa beleza que não era comum nesses atos de fala. Falava de lentes e dioptrias em palavras técnicas que refletiam um forte senso estético. A beleza era o seu motivo maior. Era a sua busca. Sua câmera não era das mais avançadas tecnologicamente, nenhuma lente majestosa, mas era manejada com a sensibilidade e a precisão do artista da imagem.

Aproximou-se um guarda, funcionário, chamado pela moça e o levou a sentar-se no banco mais próximo. Percebeu que a moça se movimentava para despedir-se e iniciar o seu passeio, já que ele estava atendido por quem podia ajudar mais do que ela. Percebeu e novamente seu corpo falou com agilidade maior do que seu pensamento. Dirigiu-se a ela sem rodeios, perguntando se morava longe dali, já que, frequentando há vários anos, nunca a tinha visto no Jardim Botânico.

Bem, era uma moça educada, hesitou um ou dois segundos em busca da compreensão do momento, da natureza daquela pergunta, do caráter do homem à sua frente, intuiu naturalmente que a resposta conduziria a outra pergunta e a uma conversação que nada tinha a ver com o pequeno acidente, que era um intuito dele. Processou todas essas avaliações na mente enquanto respondia, de forma neutra, sem simpatia nem aversão, enquanto chegava a si a menininha que se enroscava nela. Olhava Ramalho nos olhos, avaliava e ia dizendo que era de Florianópolis, que estava ali de passagem na casa da irmã que morava na Lagoa.

Com efeito, vieram outras perguntas, a forma ovalada do rosto era perfeita nas proporções, os cabelos escuros, quase pretos, caíam distraidamente sobre a testa bem clara, a claridade dela toda, se era a primeira visita ao Rio, ao Jardim Botânico, o ponto mais encantador da cidade, que com certeza voltaria a passear ali todos os dias da sua permanência no Rio, os olhos eram castanhos mas esverdeados, uma cor cheia de luz.

Havia obviamente um intuito, e ela sentiu o impulso de saber qual era, respondia no tom neutro, não alimentava, mas deixava prosseguir, podia pretextar a  impaciência da garotinha e pedir licença educadamente, mas sentiu o impulso, estranho, de conhecer o ponto de chegada daquele rodeio de indagações triviais feitas com uma brandura incomum. Algo inusitado movia sua mente em muitas direções a tatear com interesse o ponto objeto daquele homem que era, sem dúvida, não apenas educado e sereno, mas também diferente na conversação amena que prosseguia.

Os negativos

Ramalho não fazia esforço de convencimento, era natural e cuidadoso ao indicar aprazíveis e belos recantos do herbário, flores, aromas, o porte era gracioso e natural, as curvas perfeitamente femininas e as pernas bem desenhadas entre o meio joelho que aparecia, formoso, e os pés delicados, bem tratados, entrevistos em sandálias de salto baixo, olhava a menininha com encanto, mas não se dirigia a ela. O funcionário retirou-se ao fim de algum tempo, e Ramalho percebeu a iminência do momento em que ela ia também  tomar seu rumo. Não podia perder sua oportunidade maior e única. Sentiu que havia conquistado, se não a simpatia, uma certa dose de confiança, um julgamento benevolente dela que propiciava o risco do lance. Pediu-lhe então, de chofre, um minuto de atenção.

O pedido entrou direto em ressonância com o desejo dela de conhecer o intuito dele. Aquele desejo curioso que a tinha mantido em conversa alguns bons minutos a mais do que seria de admitir nas circunstâncias. Entrou de tal forma que Ramalho captou a sutilíssima agitação, as micro-ondas daquela radiação que vinha dela, a cor da pele, que era luminosa, resplandeceu por um segundo.

Ajeitou-se no banco; durante todo esse tempo de conversa ela havia permanecido de pé e ele, sentado; obviamente na sua condição de acidentado. Fez um pequeno esgar de dor ao se ajeitar e segurou a mão ofendida, como a lembrar seu sofrimento e obter um pouco mais de indulgência.

E falou, foi direto, ou quase, divagou muito rapidamente sobre sua paixão de vida. Não importava quem ele fosse na sociedade, não tinha dito nada sobre sua condição familiar, sobre seu sólido emprego na Vale do Rio Doce, importava sua paixão pela fotografia, pela captação do belo em seu sentido mais diverso e completo, que o trazia havia anos ao Jardim Botânico. Isso foi o que disse, diretamente, com uma vibração que tinha a serenidade e a maturidade do seu ser, que ela absorveu com um sentimento emergente e raro de fraternidade, uma afetividade repentina e generosa que, antes de ele dizer explicitamente, logo percebeu o que buscava, o intento dele, o desejo dele, que era fotografá-la.

Explicou que entregaria a ela os negativos, e as fotos seriam dela; que não faria nenhum uso daquelas que ficassem com ele, sem a permissão dela. Só pedia confiança.

Ela sorriu. Sorriu ele também ao entender o sorriso dela; sorriu o corpo dele todo apesar da mão dolorida. Havia recebido a Graça.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

 

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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