Enem para gestores de novas frequências

Treme Brass Band

Calma, meu caro candidato: não admira que você, até aqui, não tenha entendido nem do que se trata. Relaxe. Isto aqui não passa de amostra de simulado de concurso público. Vai!

Quem é Chico Dub?

a) Codinome de Frantischek Dubchenko, filósofo tcheco precursor de Marx

b) Líder do movimento PSDB (Populações Sexualmente Dubitativas Brasileiras)

c) Ex-baterista do ex-Filthy Wound, atual Purulent Runny Nose

d) Ndra

Se você gabaritou a resposta d), acertou. Com alguma paciência de sua parte vamos estar identificando o personagem,  que se considera pertencer ao mundo da música, que – embora não pareça – é do que vamos estar falando (esse “vamos estar” é uma alusão proposital ao linguajar do telemarketing, o qual vai estar perpassando  insistentemente o assunto principal).

Uma das coisas mais legais que têm acontecido nos últimos meses  é a parceria entre músicos, bandas, curadores e produtores artísticos. O Ruído (um tipo assim minifestival) reuniu… nove bandas de noise e industrial. No estúdio de criação SuperUper  oito artistas se apresentaram para celebrar o momento histórico que vive a música contemporânea do Rio, onde os sons mais experimentais e vanguardistas vêm saindo do gueto.  Pausa para meditação: um desses conjuntos… perdão, bandas, se intitula Rabotinik, que, em russo (corrigido) significa trabalhador, palavra que pretende remeter, vagamente, à ideia de revolucionário.  Infelizmente, rapazes, ao ouvirmos  uma banda noise a palavra “revolução”  cederá gentilmente seu lugar a “involução”. O próprio título geral  dos eventos (Novas Frequências) explica por quê: os sons da música variam , de acordo com  o número de vibrações da fonte sonora por minuto  – ou seja, frequência – numa faixa que vai das mais altas (ou sons agudos) às mais baixas (sons graves). Mais abaixo de uma certa frequência  o som vira ruído que deve ser o repertório das bandas noise. Assim torna-se urgente  modificar o nome Novas Frequências do nosso festival para Velhas Baixas Frequências: é que o ruído tornou-se conhecido do macaco milênios antes dos sons de alta frequência.  Para produzir ruídos dispensam-se instrumentos – uma panela e uma colher de pau fazem o serviço. Se vocês insistem em lembrar os vínculos da banda com a música, mantenham as guitarras (sem cordas, basta uma caixa de som poderosa), a bateria (que, a rigor, dispensa as guitarras) e as vozes (que não precisam cantar, bastando gritar a “letra” ). Infelizmente, pessoal, com pequenas modificações nos figurinos, estamos na caverna, em pleno alto-cambriano, chamando chuva ou elevando orações pela extinção dos dinossauros.

Evento diário

Já que a conversa saiu de vez da sala, pulou o muro do quintal e foi bater com os fundilhos no mato – onde não se fala de arte, mas de sobrevivência –, podemos estender a meditação a mais um aspecto das bandas drone, noise, industrial, ambiental, free jazz e house que têm entortado a MPB, gerando música de pista digna de lançamento em Berlim. Trata-se de coisa que, aparentemente, escapa da área exatamente musical, mas tem suas implicações: é, justamente,  a banda. Embora não pareça, a terminologia explica muita coisa sobre a história daquilo que identifica.  Umas duas gerações atrás reservava-se “banda” para grandes conjuntos de sopros – cornetas, trombones, clarinetas, flautas, etc. – ,  geralmente militares, e que eram vistos  em paradas  acompanhando a marcha das tropas.  Na virada do século 19-20, com o fim da guerra de secessão e a “emancipação” dos negros no sul dos Estados Unidos, a coisa mudou: surgiram em New Orleans os pequenos grupos  de pobres de maioria negra (uma corneta ou clarineta, uma guitarra e um tambor) que tocavam em bailes populares, festinhas e, principalmente, enterros; sempre havia alguém usando alguma farda, algum quepe da marinha, alguma botina, tudo alusão aos militares; para selar a ironia  contra os símbolos do poder,  referiam-se a si mesmos como “banda”.  O termo passou pelas big bands dos anos 1930-40 e veio parar nas garagens onde “ensaiam” os garotos armados de guitarra e bateria. Com certeza não será por saberem disto que as nossas bandas noise  deixarão de se considerar bandas.

Já nos fica mais claro  o destino da música não só por aqui (o MoMa de NY já promove … digamos, “eventos performáticos” expondo instalações de sound art.  Soa como receita de saladão… e é). Há no mundo uma profusão de gravações com releituras de obras clássicas por artistas populares e vice-versa (pianistas americanos de jazz tocam sonatas de Bach com violinistas polonesas), quase todos em princípio de carreira. Resta saber quem nos conduz a tal destino: aqui nos festivais estiveram presentes Mariana Roberts, saxofonista, e o baterista Paal Nilssen Love, dois dos maiores músicos de jazz do mundo  (que mundo?). No entanto – não sem certa surpresa –, aceitam participar das  Novas Frequências compositores do pessoal da tomada (música eletroacústica, ainda aninhada entre os clássicos) e instrumentistas  brasileiros consagrados (bandolinistas e flautistas egressos do forró), já ouvidos em ousadas derrapagens pela pista do clássico adentro.

É hora de revelar,enfim, quem é o personagem da questão de prova proposta acima.  Há que reconhecer que, feliz ou infelizmente, também não sabemos.  A fonte impressa   o apresenta como  convidado da semana, foto 3 x 4 e só. A foto seria compatível com as respostas a, b ou c, mas, a julgar pelo texto, caberia ainda mais um chute: DJ. A rigor restariam ainda dois termos que pipocam alegremente no noticiário de eventos (especialmente os que se consideram “culturais”): gestor  e curador. Talvez não seja intencional, mas ambas sugerem  uma certa isenção do portador de tais títulos com relação aos eventos (tipo assim “Faço só a gerência, sabe? Contratos, direitos, funcionários, pagamentos.” ou  “Curadoria é uma espécie de tomar conta geral.”). Ambos transferem a responsabilidade da criação para terceiros. Exemplo: bem aqui em frente, rola um evento todos os dias das 7 às 23 horas. É  sound art.  Os autores são engenheiros, os “performers”, uns caras de macacão e capacete, a curadoria é da prefeitura e a gestão, da companhia do Metrô. Bom espetáculo.

NB – todas as frases e expressões em itálico são citações de matéria publicada na imprensa no dia 30.12.2013, seção O estado da arte.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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