Ainda dona Shprintze * (final)

RECIFE MATA manteiga e os outros produtos lácteos fazem parte orgânica da dieta judaica, especialmente nas festas de Rosh Hashaná (o Ano Novo), Pessach e Purim.  Mas, durante o ano todo, estava sempre presente: pão com manteiga de manhã no  café com leite, no lanche da tarde polvilhado com açúcar (dava a impressão de estar comendo uma fatia da melhor torta do mundo) e, de noite, na ceia. Sem ela e os derivados lácteos um verdadeiro desastre se instalava  na culinária judaica. Escutava-se em todo canto: – Vus machtmen, vus machtmen, vi ken ich koifn a shachtl píter? Un píter kenen mir nisht machn der náier iur, Rosheshune. ( O que se faz, o  que se faz, onde posso comprar uma caixinha de manteiga? Sem manteiga eu não posso receber o ano novo).

Nenhum antissemita na história impediu que o povo judeu festejasse seus dias sagrados.
A manteiga, sim. Vejam que coisa! O  produto conhecido como “margarina” não existia e quando sim, era comprado como medicinal, em farmácias ( não em todas), recomendado pelos médicos  para as judias de peso exagerado e perigos coronários.

Eu mesmo, na minha casa no Recife, nunca vi ou provei essa tal “margarina”, e banha de porco, nem  pensar. A manteiga era o “passa pão” de cada dia. Só nos anos 1950 tive a oportunidade de provar tal produto quando vivia num kibutz em Israel, onde a serviam  por ser um produto barato: a manteiga era destinada, na época, à burguesia, e nós éramos o proletariado judeu, os que mudariam o mundo, então era suficiente comer a tal margarina. Só depois de muitos anos a medicina descobriu que este produto era muito mais nocivo à saúde humana que a clássica manteiga.

Se não me falha a memória, até meados da década de 1940 ainda viviam  em nossa vizinhança dois judeus religiosos.

Não encha o saco!

O senhor Gedália Rath, avô de Uziel, Marcos, Sarita e Roberto Mutchnik, nossos amigos de infância, e Zíssie Girol, também avô de colegas de escola, os irmãos Krutman. Lembro-me muito bem desse shôichet , o matador de galinhas, o senhor Zíssie. Inúmeras vezes esteve na nossa casa para abater galinhas segundo o “procedimento”, necessário quando comemorávamos alguma festa religiosa judaica ou um Bar Mitsvá ou festa de Tnoim (noivado), e se não fosse feito assim, muitos judeus ortodoxos não compareceriam ao evento ou  se limitariam a comer salada e pão de centeio (preto),  mas nada de carnes procedentes do abatedouro goi. Nós, os meninos, zombávamos: – Chegou o mata-galinhas, chegou o mata-galinhas!  Mas ele nem se ofendia e nos olhava com complacência e dizia na saída a meu avô: – Di kinder zenen púshete goim vaksn vild vi di goim. Nisht kain respect far éltere lait (Esta meninada é igual aos natos daqui, crescem como verdadeiros nativos sem nenhum respeito aos idosos e à tradição dos ancestrais).

Meu avô concordava balançando com a cabeça, e dizia se despedindo: – Her Zíssie, dus is Brasil, zei vaksn azoi vi der brasilianer goi, gurnisht kemen machn! Zai gezunt her Zíssie. Gueit mit shulem! (Senhor Zíssie, aqui é o Brasil, eles crescem e se comportam como brasileiros natos. Não se pode fazer nada! Muita saúde,  senhor Zíssie, e vá em paz!).

Não era só com a carne, mas também com os produtos lácteos que o problema se mantinha: a solução para uma produção casher, nunca se conseguiu! O leite de goi nunca será permitido usar pelo judeu ortodoxo, pois não é casher.

Mas a vivacidade deste povo, cheio de prêmios Nobel, contornava este fenômeno negativo. Depois do falecimento destes dois senhores que entendiam das leis religiosas, nada mais era casher para os judeus no Recife, pois nada mais era elaborado segundo o “procedimento” das leis religiosas,  a Halachá. Não ficaram herdeiros nesta profissão que era considerada uma mitsvá.

Assim sendo, quando a necessidade aperta, o povo aprende a se comportar segundo o ditado: Quem não tem cão caça com gato (Na realidade, o ditado certo é: Quem não tem cão caça como um gato), e fim do dilema. Come-se de tudo e ninguém diz nem pergunta nada! A inteligente frase “Não diga, não pergunte” era o modus vivendi dessa comunidade que ficou sem as autoridades espirituais. Comiam de tudo e ninguém piscava, nem diziam e nem perguntavam. Enfim, excelente solução, sem comentários!

Conta-se que, numa noite calorosa de calmaria, destas que muito aconteciam no Recife, passou Abrãozinho, um rapazola da comunidade, pela Rua da Alegria (nomes bonitos tinham as ruas do Recife!) e viu através de um postigo aberto o senhor Frumkin comendo na ceia do sábado umas fatias de presunto. Assustado com a cena não comum nas casas judaicas, não se conteve, aproximou-se do postigo e perguntou quase sussurrando:

– Senhor Frumkin, o que está comendo?

– Peixe, isto é peixe, meu filho!

Retruca, meio envergonhado, Abrãozinho:
Senhor Frumkin, isto é porco!!!

Pego de supetão com a mão na massa e aborrecido com essa gente que mete o focinho nas coisas dos outros, responde o senhor Frumkin:

– Rapaz, eu te perguntei o nome deste peixe? Isto é peixe e não me interessa o nome dele. Anda, vai e deixa de encher o saco!

A dieta do Recife judaico naquela época era regida pela filosofia “Não diga, não pergunte”, mas sempre apareciam esses “fuinhas” pra botar “peninhas” em tudo. Oh, gente chata!

ONGs judaicas

Voltando a dona Shprintze.  Ela tinha também o seu pregão em ídish no Recife caloroso de postigos escancarados dos casarões antigos: – Píter, píter mit zalts un nisht guezaltsn. Gants rein, shein, a gueshmak, gúrnisht guelt, kimt shoin, ich hob nisht kain tsait,  ich hob in shtib kinder tsu guibn essn. Shoin, shoin Shabes. Píter, píter, iz shoin du píter, rein un gueshmak. Nishtu kain mil-húme. (Manteiga, com e sem sal, clara, fresca e gostosa e bem baratinha. Venham rápido, pois estou “avexada”. Tenho  filhos em casa pra dar de comer. Já, já entra o sábado. Manteiga, manteiga chegou agorinha a manteiga gostosa e cheirosa, a guerra, até de medo fugiu.

Sabíamos que estávamos sendo tapeados, com o preço que pagávamos pela caixinha de manteiga, às vezes até comprávamos duas ou três com o medo doentio de que ela viesse a faltar e só o diabo poderia nos dizer se era um sinal de tempos ruins que vinham por aí. Como diz o refrão popular: Melhor prevenir do que remediar. Os judeus sempre se conduziram desse jeito.

Parecido com o que conta a Bíblia.  Quando o Faraó no Egito sonhou que apareciam sete vacas gordas e depois sete vacas magras, José interpretou o sonho (ou pesadelo) desta forma: depois de sete anos de fartura (sete vacas gordas) viriam anos de seca (sete vacas magras) e grandes dificuldades para toda a população. Ele aconselhou ao Faraó  armazenar na época de fartura para usar nos anos de carência e, assim, atravessar o período difícil de uma maneira mais amena e segura. Por incrível que pareça, resultou certo!

Quando algo falta no mercado sabemos que o preço vai às nuvens; assim funciona a economia de mercado livre e assim funcionava a de dona Shprintze. Ninguém discutia o preço da caixinha de manteiga, pagavam o exigido e ficavam com a consciência tranquila e o espírito descansado, pois era também uma maneira de ajudar  uma viúva que criava sozinha três filhos. Naquele tempo não havia as “bolsas” governamentais para ajudar os necessitados, como hoje, então pagar o que ela ditava era um tipo de filantropia!

Passados muitos anos, a colônia judaica ficou ciente de mais e mais casos parecidos, que se acentuaram depois da Segunda Guerra Mundial. Chegaram imigrantes sem posses, destituídos de tudo, os quais necessitavam urgentemente de ajuda. As ONGs judaicas redobraram os esforços nesse sentido, entre elas, como sempre,  Relief, Wizo, Pioneiras, Kempner. Cada uma dessas organizações, acreditem, tinha sua tendência política, de direita ou de esquerda, sionistas e antissionistas, mas nesse momento em que a ajuda se fazia extremamente necessária as cores e as tendências desapareciam.

Naquele tempo, em “que se amarrava cachorro com linguiça”, a colônia israelita do Recife tinha vergonha de confessar que algumas de suas famílias eram extremamente pobres. Era um mínimo que podiam fazer para mantê-las com “a cabeça fora da água” e conviver na comunidade judaica do Recife de uma maneira mais ou menos decente e humana. Assim foi, minha gente, o cotidiano da colônia israelita durante a primeira metade do século 20.

P.S. Perguntariam vocês, por que o governo estadual ou a prefeitura do Recife nunca deram ajuda nenhuma a essa gente necessitada, verdade? Perguntam sério? Eu só poderia rir um bocado, gargalhar, em bom português.

*Postado originalmente  no blog Geleia General

Condensado e revisto por Renato Mayer

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

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