A Igreja, os judeus e Israel

João Paulo 2º no Muro das Lamentações

A editora deste bravo magazine on-line me sugere um texto sobre as relações da Igreja com o povo judeu e com Israel, por conta da visita de Francisco 1° à Terra Santa, agora em maio. Vou logo advertindo ao leitor desprevenido que, apesar da minha herança humanista, da Igreja Católica, por via de consequência, mantenho, desde sempre, uma desrespeitosa distância. Por exemplo, convidado anos atrás pelo meu querido rabino Henry Sobel a participar de uma atividade com a soi-disant Fraternidade Judaico-Cristã, recusei. Das igrejas, católicas, protestantes, evangélicas, quero distância. O que não me impede de ter bons amigos cristãos, inclusive alguns padres e ministros. Dito isto, vamos ao tema:

Constantino, o imperador que  matou esposa e filho depois de sua “conversão” e  subsequente adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano, promulgou em 313 o Edito de Milão, que prevê liberdades para os cristãos e ações contra os judeus. Em 325, o Concílio de Niceia muda o calendário e desconecta a Páscoa do Pessach. A Igreja começa a se mover de uma cosmovisão hebraica para uma greco-romana, paganizando em vários aspectos o que tinha sido o cristianismo bíblico com profundas raízes judaicas. Começa a teologia cristã do supressionismo (que  diz que Deus encerrou o assunto com os judeus e a Igreja é o novo Israel). A partir do século 2°, frases terríveis são ditas e escritas por muitos dos pais da Igreja, inclusive por alguns mais moderados, como Agostinho.

O cristianismo é adotado por muitos líderes por meros interesses políticos e  serve como desculpa para perseguir judeus. Cirilo, bispo de Alexandria, expulsa judeus e dá suas propriedades para uma turba de cristãos.  Em 590, o papa Gregório 1° institui o papado como a máxima autoridade do cristianismo ocidental. Em 632, depois da conquista de Jerusalém pelos persas e uma reconquista pelos bizantinos, começam os batismos forçados. Em 692, cristãos são proibidos de se consultar com médicos judeus, o casamento inter-racial é punido com a morte e nenhuma sinagoga pode ser construída. No século 10°, começa o costume de bater na face de um judeu na Sexta-Feira da Paixão e apedrejar casas de judeus no Domingo de Ramos, isso sem citar mortes, perseguição, discriminação, obrigação de vestir roupas diferenciadas para identificá-los e muitas outras humilhações.

Uma das piores acusações contra os judeus  foi a de roubarem crianças cristãs e usar seu sangue para fazer a matsá. Isso levou a mortes de até mesmo comunidades inteiras, como em Bloise, na França, durante a Segunda Cruzada (1146).

Acusadas de serem as responsáveis pela peste negra, muitas comunidades judaicas foram destruídas. Veio a Inquisição na Península Ibérica, e os judeus foram forçados a se converter ou morrer, sendo enfim expulsos da Espanha em 1492 pelos reis católicos Fernando e Isabel. Segregados em guetos, murados e trancados à noite e em feriados cristãos, os judeus só podiam sair dos muros com um distintivo amarelo, base da estrela de Davi amarela que Hitler nos forçou a usar durante a Segunda Guerra mundial.

Vem a reforma de Martinho Lutero. Pensamos que poderíamos respirar aliviados após tantas atrocidades cometidas pelo cristianismo contra os judeus…ledo engano. Passado o período inicial de simpatia, ao ver que os judeus não se convertiam ante a sua pregação (não é de se estranhar, depois de séculos de terror), Lutero se irritou e começou a escrever coisas como: “Sinagogas devem ser queimadas, judeus têm que ser privados de seus livros e suas casas, destruídas, rabinos têm que ser proibidos de ensinar, seus privilégios de viagem e passaportes têm que ser negados, e devem trabalhar manualmente. Ajam para que sejamos livres desse fardo diabólico e intolerável – os judeus” (Dos judeus e suas mentiras – Martinho Lutero, 1543). Hitler citou passagens como esta para justificar sua perseguição mortal contra os filhos de Abraão.

Enfim, no século 19, ao mesmo tempo em que os terríveis pogroms na Rússia dizimavam comunidades inteiras, começam a surgir os primeiros lampejos de um movimento sionista. Primeiro, com Moisés Hess (Roma e Jerusalém); depois, com  Theodor Herzl, que em 1896   publica O Estado judeu, chamando judeus para sua terra natal. Vocês estão carecas de conhecer essa história recente.

Joao Paulo 2° no Yad Vashem

Segundo capítulo

O Vaticano não reconhecia e, portanto, não mantinha relações diplomáticas com o Estado de Israel quando da visita do papa Paulo 6°, em 1964.  Em seus discursos, Paulo 6° nunca usou o termo Israel, recusou-se a ir ao Yad Vashem, não visitou rabino algum nem qualquer outra autoridade israelense. Quando o então presidente, Zalman Shazar, foi até Meguido para encontrá-lo, o papa usou termos vagos para a ele se referir, como “Sua Excelência”, em vez de “Senhor Presidente”, numa clara violação ao protocolo diplomático.

Diferentemente, João Paulo 2° foi o primeiro pontífice a expressar o direito dos judeus de voltar à sua terra natal e, em 1993, promoveu o estabelecimento das relações diplomáticas entre Israel e a Santa Sé, apesar dos protestos de outros líderes católicos que alegavam temer represálias muçulmanas… Em sua peregrinação a Israel reuniu-se com o rabino-chefe ashquenazi, Meir Lau, e visitou o presidente Ezer Weizman.

Mas os pontos altos de sua viagem foram a visita ao Yad Vashem (Museu do Holocausto) e ao Kótel (Muro Ocidental), em Jerusalém. Acompanhado do primeiro-ministro Ehud Barak,  o papa alimentou uma chama que nunca se apaga, em recordação das vítimas do Holocausto, e afirmou: “Não há palavras fortes o suficiente para deplorar a terrível tragédia que foi a Shoá.” Garantiu ainda: “Asseguro ao povo judeu que a Igreja Católica está profundamente entristecida com o ódio, atos de perseguição e demonstrações de antissemitismo  por parte dos cristãos, em qualquer tempo e em qualquer lugar.”

No Vaticano, João Paulo 2° já havia feito um mea-culpa sem precedente histórico. Pediu perdão em nome da Igreja Católica pela perseguição aos judeus durante  séculos e por dois mil anos de pecados cometidos em nome da instituição. O discurso foi baseado no documento “Memória e Reconciliação: A Igreja e os Erros do Passado”, elaborado por autoridades eclesiásticas.

Podemos esperar agora, com a visita do franciscano argentino, um repeteco, ou talvez algo mais, em relação ao povo judeu. Mas, acreditem, isso não é um consenso dentro da Igreja Católica.

Há aqueles que discordam totalmente do fato de a Igreja pedir perdão por atos do passado. Já líderes judeus seculares e religiosos criticaram João Paulo 2° por não mencionar explicitamente o silêncio do Vaticano diante do Holocausto, no papado de Pio 12, durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, João Paulo 2°conseguiu promover uma aproximação histórica.

João Paulo 2° fez mais do que qualquer outro papa, inclusive João 23. Ao trazer a comemoração do Holocausto para o Vaticano e citar repetidamente a Shoá como o grande exemplo do Mal, ele foi o primeiro papa a afirmar que o antissemitismo é um pecado cometido contra Deus. O primeiro a afirmar de forma explícita que os judeus são um povo abençoado por Deus e a reconhecer que o povo judeu é “o povo da Aliança” (negado durante séculos pela Igreja). O primeiro a usar a expressão “irmãos mais velhos” quando se referiu ao povo judeu, além de também ser o primeiro a visitar uma sinagoga (em 1986, em Roma) e a incluir reuniões com líderes judaicos em suas peregrinações pelo mundo.

Meir Lau afirmou, quando lhe perguntaram se estava satisfeito com o pedido de perdão: “Foi um bom pronunciamento – muito emocional –, mas prefiro aguardar o segundo capítulo.”

Pode ser que esse segundo episódio esteja às vésperas de ser concluído, agora, com a visita de Francisco. É pagar para ver.

Boletim nº 147 – março/abril de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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