Um catálogo inefável de listas

Sapatos de prisioneiros exterminados

Sapatos de prisioneiros exterminados

Listas e enumerações são recorrentes em romances que têm a Shoá como tema. O trauma e as lacunas na memória parecem proporcionar a essas narrativas ficcionais um certo pendor ao rol das coisas que restaram ou que se perderam na grande catástrofe. O romance Ver: amor, do escritor israelense David Grossman (Companhia das Letras, 1993, tradução de Nancy Rozenchan), é paradigmático dessa espécie de poética das listas inerentes aos romances sobre a Shoá.

Esses catálogos do inefável pertencem a uma tradição literária em que coleções obsessivas de objetos são elencadas num esforço de construir ou restabelecer a memória. Vertiginosos, como no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, o acúmulo e a desordem desses empreendimentos apontam para um valor literário que Italo Calvino chamou de multiplicidade em suas Seis propostas para o próximo milênio.

A ficção sobre a Shoá se constitui como um espaço marcado por uma tentativa de compreensão do que os estudiosos chamam de “experiência-limite”. O recurso de um texto que se organiza a partir de verbetes, como o de Grossman, sinalizaria para uma forma que poderia ostentar a tentação de alcançar todo o saber possível sobre a Shoá. No entanto, o verbete e as listas não alcançam, no romance, seu objeto de conhecimento pleno, como queriam os enciclopedistas do século 18.

Ao contrário, a estratégia de construção do romance coloca em jogo uma “enciclopédia intertextual”, “um arquivo aberto” em que cada verbete se torna não o limite, mas a possibilidade de um espaço em que inúmeros significados podem ser acessados pelo leitor.

Nessa capacidade do verbete de se apresentar como possibilidade de condensação e de multiplicidade, de espaço aberto e de uma ponte em direção ao relato testemunhal, vislumbra-se uma poética do fragmento e um valor de resistência.

Em Ver:amor, um quarto branco é imaginado e nesse espaço fictício do Museu Yad Vashem, em Israel, trata-se da irrepresentabilidade da Shoá, ou de suas múltiplas e possíveis representações. O sentido do acúmulo, no quarto branco, mais adensa do que apaga as salas onde estão acumulados os sapatos dos prisioneiros, onde o sentido da coleção, do acúmulo de restos, alia-se ao de saturação, de tautologia da imagem, dos sentidos, dos significantes. Calçados que se avolumam num amontoado exalam o cheiro do tempo, do couro, do mofo. Esses despojos compõem cena e confluência de centenas de narrativas e histórias pessoais que resistem nesses restos de lembrança.

Os donos dos óculos não precisavam mais deles

Os donos dos óculos não precisavam mais deles

Os objetos pessoais, íntimos, em sua maioria coloquiais e anônimos, trazem o caráter de monumento, de relíquia fúnebre. A memória, no entanto, está viva. Os sapatos dos trabalhadores, os sapatos femininos, os sapatos das crianças são, pois, acervo anônimo que reenvia o espectador para, além dos cinco sentidos, o tempo da catástrofe. Tal qual os sapatos, estão acumulados bengalas, roupas, retratos, livros, valises, carrinhos de bebês… A esse espólio juntam-se os cabelos, as unhas, os dentes… Os corpos aviltados resistem metonimicamente nesse nefasto acervo.

Tradição enciclopédica

Alguns exemplos de romances-enciclopédias ou romances enciclopédicos fazem parte de uma tradição literária enciclopédica: o clássico O nome da rosa, de Umberto Eco, e O dicionário khazar, romance-enciclopédia em cem mil palavras, de Miroslav Pavic, que, além de se constituir a partir de verbetes, traz, em dois volumes, uma versão feminina e outra masculina, problematizando, de forma original, a escrita e o gênero, além de redefinir o conceito de enciclopédia e dicionário ligado à narrativa. Mais recentemente Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler, alia a estratégia das listas a uma narrativa policial requintada sobre a Shoá.

Ver: amor inscreve-se nessa tradição. Berta Waldman assim descreve a estrutura do romance: “O livro divide-se em quatro partes distintas, centralizadas em Momik, Bruno Schulz, Vasserman e A Enciclopédia da Vida de Kazik. Essas partes são interligadas por personagens que atravessam o romance, e Momik é o que ‘costura’ a travessia.  Cada uma das partes marca uma tentativa diferente de entendimento da Shoá.” (Ver “A memória vicária” em Ver: amor, de David Grossman. WebMosaica. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/webmosaica/article/view/11984 2007). Um livro escrito na forma de uma enciclopédia, afirma Waldman, “talvez auxilie o leitor a perceber o contorno episódico da obra, mas ele terá de olhar por trás dos episódios, para um plano mais abstrato, para enxergar os temas vastos como a morte e o amor, a arte e a barbárie, a raiz da existência, os sentidos e os não sentidos da vida que servem de solo ao romance”.

Como uma espécie de prefácio, o narrador adverte que essa seria a “primeira experiência do gênero no preparo de uma enciclopédia que abranja a maioria dos fatos importantes na vida de um só homem”; que a “classificação dos diversos verbetes por ordem alfabética da língua hebraica transforma as personagens num material de trabalho cômodo”; que o “leitor pode ler os verbetes da enciclopédia na ordem que lhe convier e até saltar para frente ou para trás, como quiser”, mas o narrador agradece ao leitor disciplinado que seguir o caminho seguro da ordem conhecida do alfabeto hebraico.

A título de uma conclusão provisória deste texto, vale lembrar que a chamada literatura do trauma, na medida em que apresenta a fragmentação do discurso nos diários, depoimentos e testemunhos, reinscreve-se na literatura ficcional sobre a Shoá por meio  do verbete, da simulação de uma enciclopédia que, no entanto, se apresenta a partir de um curto-circuito da narrativa. Entre o afã de tudo dizer e de tudo circunscrever pela escrita e a consciência da fratura entre linguagem e narrativa, se organizariam, no romance de Grossman, na forma do verbete, a fragmentação e multiplicidade.

Talvez Grossman esteja dizendo ao leitor que o escritor torna-se, quando se trata da memória, um pequeno Momik, um razoável copista ou, ainda, um quase alter kop em meio a um mundo que não faz mais sentido. Por isso, a aproximação entre narrativa, ou poesia, e enciclopédia, em suas formas mais contemporâneas, parece pôr em xeque não só uma teoria da poesia pós-Auschwitz e a sentença adorniana que sobre ela recai, mas uma possibilidade de leveza, a da imagem do romancista que, como queria Italo Calvino, sobreleva o peso do mundo.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

É professora da Faculdade de Letras da UFMG.

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