SP – História para ser lembrada


113971479SZRecordações dos primórdios da Imigração Judaica em S.Paulo

org. por Maria Luiza Tucci Carneiro

S.Paulo: Maayanot, 2013 (Série Brasil Judaico)

230 páginas

Com uma Introdução assinada pelo rabino David Weitman, em que se esclarece “O significado mais profundo da dispersão e das migrações do povo judeu”, esta obra coletiva conta com a colaboração de sete estudiosos, entre historiadores e pesquisadores independentes. Foi concebida em 2012, ano do centenário da primeira sinagoga do Estado de São Paulo, a Kehilat Israel.

O foco dos estudos aí apresentados é, como o título indica, o início das experiências vividas por imigrantes judeus  em São Paulo. Nesta cidade se formou a maior coletividade judaica do país, hoje constituída, entre outros, pelos descendentes dos primeiros imigrantes.  Alguns entre eles são os autores dos estudos reunidos neste volume, aqui listados pela ordem de apresentação de seus trabalhos: Reuven Faingold (“Judeus nos tempos da Guerra do Paraguai – Brasil, 1864-1870”), Paulo Valadares e Guilherme Faiguenboim (“Kehilat Israel, a primeira sinagoga paulistana (1912) – Origem e fundadores”), Rachel Mizrahi (“Diversidade cultural dos imigrantes judeus sefaraditas e judeus orientais em São Paulo”), Bernardo Lerer (“Aculturação, sim; Assimilação, não”), Maria Luiza Tucci Carneiro (“Cumplicidade secreta – O Brasil diante dos judeus refugiados do nazifascimo [1930-1945]”), José Neistein (“Infância e juventude no Bom Retiro: Fragmentos de memórias”). Todos os ensaios são equipados com grande número de fotos, enquadrando famílias, indivíduos, aspectos da cidade no começo do século 20, e farta documentação, incluindo certificados de compra e venda de terrenos, cartazes antissemitas, eventos públicos, interior de sinagogas e cenas de rua.

Com exceção do primeiro artigo, que se refere à Guerra do Paraguai, a D. Pedro 2° e suas inclinações filossemíticas, os demais ensaios focalizam diretamente os núcleos imigratórios na cidade de São Paulo. Como se informa no ensaio “Kehilat Israel”, por Valadares e Faiguenboim, estes se formaram gradativamente, com gente provinda de vários países europeus, principalmente depois da chegada de D. João 6° ao Brasil, em 1808. Os alsacianos foram os primeiros judeus a se estabelecer na Pauliceia, poucos anos depois daquela data. Fincaram âncora em São Paulo, então uma cidade sem maiores glórias do que ter um colégio fundado por jesuítas e ser povoada por habitantes ecléticos, entre índios e portugueses.  Mais tarde, chegaram judeus que falavam ídish, provindos de uma região da Bessarábia.  A partir de então, começaram a se aglomerar, em ondas imigratórias, em alguns bairros paulistanos, mas principalmente nas imediações da Estação da Luz, que facilitou muito o deslocamento dos comerciantes ambulantes para o interior e o litoral do Estado por via férrea.

Uma das primeiras e grandes realizações da comunidade estabelecida no Bom Retiro foi a fundação da Kehilat Israel, em 1912. Os pesquisadores revelam, com fotos, mapas e documentos de tabelionato (como escrituras de compras e vendas), o percurso daquela sinagoga, ao mesmo tempo que descrevem os perfis dos seus fundadores abrangendo a história do bairro nas primeiras décadas de sua existência como “bairro judeu” (hoje é mais conhecido como “bairro coreano”).

Aculturação e assimilação

A diversidade desta coletânea inclui o pouco difundido tópico da imigração de judeus sefaraditas, focalizado por Mizrahi, no trabalho sobre a “Diversidade cultural” daqueles que se deslocaram do norte da África, do Oriente Médio, de países muçulmanos colonizados por europeus. Segundo seu ensaio, os primeiros imigrantes levantinos judeus que falavam francês contribuíram para a economia brasileira com atividades relacionadas à “importação e exportação do café, cereais, frutas, tecidos finos, tapetes orientais, minérios e negócios imobiliários”. Mais tarde, sefaraditas de idioma árabe chegaram ao país e, em São Paulo, se estabeleceram na Moóca, um bairro já privilegiado por imigrantes maronitas e muçulmanos. Em 1929, foi construída a primeira sinagoga de rito sefaradita na cidade. No entanto, conflitos entre hábitos, idiomas e rituais mantiveram as duas comunidades – ashquenazita e sefaradita – separadas por muitos anos. Casamentos e convivências nas universidades e nas esferas sociais, comerciais e industriais têm envolvido ambas, e uma compreensão mútua passou a prevalecer no âmbito comunitário judaico.

Outro tema de interesse neste volume é o artigo de Lerner, a respeito da aculturação como preferível à assimilação. Fazendo um histórico de atividades intelectuais relevantes dos que se adaptavam ao novo país, o autor inclui datas e nomes de judeus que tiveram a possibilidade de contribuir para os setores intelectuais e as artes plásticas no Brasil. Entre esses, o pintor Lasar Segall, que fez parte da geração da Semana de Arte Moderna, estopim literário e artístico paulistano que desencadeou uma nova era no país. Bibliotecas e jornais na língua ídish também são foco de comentários na sua compilação seletiva de informações, que abrangem roteiro teatral e descrições de ideologias e partidos políticos incipientes na comunidade judaica. O texto ensaístico, que segue uma linha cronológica coerente com os acontecimentos, falha, no entanto, na altura da página 132, onde repentinamente se inserem alguns parágrafos sobre uma instituição esportiva, deslocando o eixo da narrativa. A interrupção (quando entra a descrição do clube Macabi, por si muito interessante também, mas não cabível no fluir da história) talvez seja um cochilo da revisão…

O assunto principal do ensaio seguinte trata de aspectos que emergiram no “Brasil diante dos judeus refugiados do nazifascismo”, de Tucci Carneiro. A grande mancha na história do país em relação a imigrantes de origem judaica é destrincada em suas partes mais secretas, pelo exame de cartas, telegramas, reuniões incentivadas por conspirações antissemitas, tudo com o propósito de impedir a entrada de judeus no Brasil durante e após a Segunda Guerra. Como em muitas de suas obras sobre o mesmo tema, a historiadora faz um relato minucioso sobre os principais mentores das proibições, partindo da presidência e atingindo postos diplomáticos brasileiros na Europa e na Ásia.

Da Chevra Kadisha ao Itamaraty

O último dos textos é um relato pessoal de Neistein, que revela como foi sua “Infância e juventude no Bom Retiro”. Ele retira, do seu baú de memórias, fragmentos elucidativos sobre a vida naquele bairro, por muitos anos o centro da vida judaica na cidade. Mas além disto,  faz um relato do que foi o panorama cultural daquela região, onde conviveu com a literatura ídish, ouvia e falava este idioma em casa e na rua, em expressiva conjunção de ambientes religiosos e seculares. Muito do que se descreve no ensaio a respeito da sinagoga da Rua da Graça foi vivido pelo menino Neistein, que cresceu fazendo parte dos rituais religiosos, circunspectos ou festivos. O seu bar-mitsvá foi celebrado na velha casa que serviu de templo de orações antes da mudança para o edifício novo, em que a congregação completou seus primeiros cem anos em 2012.

O autor entrega, nas suas descrições, uma atmosfera especial, talvez somente vivida no Bom Retiro dos judeus, “no final da década de 1940 e no início da de 1950” … “tinha características de um shtetl das pequenas cidades provincianas da Europa oriental, … a exemplo do shtetl,  havia também no Bom Retiro um pletzl, uma pracinha, onde os homens se reuniam para colher o que pudessem das informações que vinham de fora e de longe …”.  Ele descreve seus trabalhos junto à Chevra Kadisha (agência funerária judaica), em que não se respeitava horário, nem dia, como a morte tampouco respeita nosso calendário… No entanto, nesse emprego, o jovem Neistein se aproximou do rabino Valt, homem de suma erudição religiosa e secular, a quem ele se refere com carinhosa lembrança, pois era seu chefe na agência e o deixava estudar, ler e se preparar para a universidade. Na sua modesta casa, na Rua Prates, seus pais recebiam amigos, parentes e vizinhos, enquanto o autor, com outros jovens do bairro, percorria os cinemas, teatros e concertos oferecidos naquela São Paulo tranquila e quase adormecida. Foi então que se abriram novas perspectivas, na linha do horizonte intelectual que ele criou para si: cursando Filosofia na Universidade de São Paulo, se encontraria com críticos teatrais e literários, jornalistas, escritores e compositores. Neste período aprendeu a conviver com o mundo não judaico, encontrando nele ecos e desafios, desbravando em si mesmo a possibilidade de se desenvolver fora do Bom Retiro. Seu progresso intelectual levou-o a fazer o doutorado na Áustria com uma bolsa de estudos e, uma vez concluído, entrou nos quadros diplomáticos do Brasil, a convite do Itamaraty.

No relatório de Neistein pulsa uma linguagem exata que é, ao mesmo tempo, emotiva sem ser sentimental, saudosa sem ser piegas, imagética e colorida. Assim é que vemos tanto os passantes comuns pelas ruas do Bom Retiro como seus chefes espirituais, rabinos que marchavam com sua roupagem específica, e também procissões católicas e rasgos de antissemitismo cristão. O bairro não era especificamente judeu, ainda que o fosse majoritariamente. Imigrantes de diversas origens trouxeram no seu mapa mental a ideia europeia de que o judeu fosse mau elemento e, em São Paulo, tentaram impingir tal imagem entre os brasileiros natos, respaldados por alguns padres nas igrejas locais. Situações constrangedoras se repetiam por um certo espaço de tempo. O alento de Neistein foi um encontro e a amizade dele decorrente com Maria José de Carvalho, figura ímpar na crítica teatral brasileira. Ela lhe ensinou que “ser judeu e incorporar nessa realidade tudo o que ela [lhe] havia revelado era perfeitamente possível, e desejável, porque as verdades das criações e a legitimidade das ideias e do trabalho intelectual não são mutuamente excludentes”.

Por este e pelos demais ensaios aqui brevemente resenhados, este livro é altamente recomendável. Pode ser visto como a história dos judeus no Brasil, em seus reflexos paulistanos, nas esferas políticas, religiosas, seculares e pessoais. Pode-se aprender muito com a leitura dos ensaios e do Prefácio.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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