Se essa rua fosse minha

Instituto Estadual Isabel de Espanha, Viamão, Rio Grande do Sul

Instituto Estadual Isabel de Espanha, Viamão, Rio Grande do Sul

Amigos, a história oficial utiliza vários meios para se impor como verdadeira. Utiliza os livros didáticos, os currículos das escolas, as lições dos professores, a mídia, o discurso dos políticos, os museus e suas exposições e, pensei agora, os nomes de ruas.

Por exemplo, provavelmente a maioria dos que passam pela Rua Isabel de Castela, no bairro paulistano de Vila Madalena, desconhece que a Rainha Isabel, também chamada a Católica, foi a responsável pelo decreto que expulsou os judeus da Espanha, em 1492. As alternativas eram a conversão forçada ou a vida secreta com a consequente ameaça da Inquisição. 

Em todas as capitais do país (e mesmo em cidades menores) há uma Rua, ou Avenida, Voluntários da Pátria. Trata-se da Guerra do Paraguai, que durou cinco anos e arrasou impiedosamente o país vizinho, tanto na guerra em si quanto na ocupação que se seguiu. É também chamada nos livros didáticos de Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Uruguai e Argentina contra Paraguai). Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança são nomes falsos. O massacre do Paraguai foi vergonhoso para nós, e a história oficial desde então tenta embelezá-lo.

Quem foram esses “voluntários da pátria” homenageados através do batismo de ruas, avenidas e estátuas? Não existiram. Houve, como em toda guerra, os homens ingênuos que sentiram ardor patriótico – o pior que há – ao saber que Solano López invadira o Mato Grosso. Houve os que se alistaram esperando melhorar de vida. Houve os políticos e empresários que contavam, no final, aumentar seu poder e sua fortuna – mas que preferiam, invariavelmente, se representar por escravos e agregados. A esmagadora maioria, porém, dos “voluntários” era alistada à força, presidiários, fora da lei, vadios, trabalhadores, rapazes distraídos, desempregados, sem-terra, pretos livres e escravos doados à pátria pelos amos.

Na Lagoa Rodrigo de Freitas há uma pequena Praça Filinto Müller. Filinto disputa com Sérgio Paranhos Fleury o triste título de rei dos torturadores brasileiros – um sob o Estado Novo, outro sob a última ditadura militar. Fleury foi homenageado numa rua de Vila Marina, no município de São Paulo; e em outra em São Carlos. Felizmente, a primeira foi trocada, por meio de assinaturas populares – a lei orgânica proíbe a troca de nomes de ruas – por Helder Câmara; a de São Carlos, ainda não foi trocada, pelo que sei.

Estátua de Arariboia em frente à Estação das Barcas Rio-Niterói

Estátua de Arariboia em frente à Estação das Barcas Rio-Niterói

Trocar ou não trocar

Num plano certamente mais ameno, a do combate entre o falso e o verdadeiro na História, está o caso do Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, no Rio. O longo domínio na direção do futebol mundial e do Brasil, por João Havelange, correspondeu à ditadura 1964-1980. Havelange foi o Médici do futebol: mandonismo, corrupção, alienação, prejuízo moral incalculável. Desmascarados ele e seu genro, Ricardo Teixeira, nasceu o movimento de torcedores, encampado pela Câmara Municipal do Rio, visando a trocar o nome do estádio para Estádio Olímpico João Saldanha. Este sim, um desportista autônomo e crítico.

Há, ainda, a Ponte Rio-Niterói, batizada Costa e Silva. Nenhuma das duas cidades merecia isso. Quando ele assumiu a presidência, em substituição a Castelo Branco, correu uma piada. Costa e Silva ditava ao secretário o discurso de posse: “Tendo em vista a conjuntura da revolução que nós fez…” O secretário interrompe, cauteloso: “Desculpe, presidente, o certo não seria a revolução que nós fizemos?” E o ditador: “Não, meu filho, você ouviu mal. Eu quis dizer a revolução que nos fez.”

Voltando à impostura dos toponímios, há um bom argumento para não trocar nomes de logradouros públicos. É que, mesmo homenageando nulidades, celebridades medíocres, torturadores notórios e conexos, nome de rua é um registro histórico e como tal deve ser conservado. Um nome de lugar é um testemunho, às vezes único, de um fato histórico, de uma situação social que sumiu da memória coletiva. O caso exemplar é o nome da maioria dos logradouros de Rio e São Paulo – Ipanema, Irajá, Nova Iguaçu, Guanabara; Anhangabaú, Tatuapé, Iguatemi, Congonhas… Testemunham que nos três primeiros séculos da nossa vida falamos nhenhengatu.

Testemunham e dão pista sobre nossa formação, como o nome de uma cidade no interior de Alagoas, Atalaia. Caído no esquecimento de muitas gerações, reapareceu na documentação sobre o Quilombo dos Palmares, destruído há quatrocentos anos: era o acampamento do genocida Domingos Jorge Velho, e o Memorial Zumbi, uma instituição do movimento negro, realizou uma invasão simbólica de Atalaia, nos anos 1990, sugerindo a troca do seu nome. Não conseguiu.

Outro exemplo. Ganharíamos alguma coisa trocando o nome da Praça Arariboia, na saída das barcas de Niterói, pelo nome de um dos muitos caciques que resistiram à invasão colonialista? Arariboia foi um renegado que ganhou dos portugueses terra em sua própria terra, por combater a favor de Mem de Sá. Triste modelo de “índio amigo”. Não faria sentido. Desde a creche as escolas de Niterói ensinam a amá-lo. Arariboia, herói do colonialismo, ficará. Imenso, para sempre, de braços cruzados na saída das barcas, abençoando os que voltam do trabalho. O juízo também aconselha a não mexer com as avenidas Voluntários da Pátria.

Não é o caso da Rua Sérgio Paranhos Fleury, da Praça Filinto Müller, da Ponte Costa e Silva, do Estádio João Havelange. Estes ainda não se consolidaram na memória coletiva. E podem, com o tempo, ser esquecidos, que a ninguém farão falta.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

É escritor e historiador.

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