Martin

man-driving-car-111111-300x232Não era evangélico, o pai, mas admirador do líder negro americano, e quis que o filho, escurinho, com aquele nome significativo, tivesse a luz do inspirador para fazer as coisas certas, e começasse logo por aprender inglês para valer, fora do colégio, com um professor que morava ali mesmo, no Juramento; um professor que estudava a língua para ser guia turístico, tendo já conhecimento para ensinar as primeiras frases. Pouco mais de um ano, só, o pai faleceu e Martin ficou sem as aulas; mas restaram na memória a noção geral da língua e as palavras mais comuns; o bastante para que os amigos considerassem que Martin falava inglês.

Falava inglês e, depois, já homem, motorista profissional, serviu muito tempo a uma empresa de táxis de hotéis da zona sul, atendendo a turistas e sempre aprendendo mais. Até a morte da mulher, que lhe desorganizou a vida completamente, uns três meses perdidos em depressão profunda, salvo do fim pelo Duarte, o líder do morro, que mandava e comandava as vendas do fumo, e que não se conformara com aquele desmoronamento de um homem de respeito da comunidade, e providenciara a clínica.

Seis meses depois estava completamente recuperado, voltou a trabalhar, achou emprego na casa de um médico famoso que morava no Leblon. Conheceu Celeste, uma enfermeira que cuidou um tempo do filho desse novo patrão, que sofreu um acidente, atropelado por uma motocicleta, e quebrou uma perna. Apaixonou-se depressa e, meses depois, já perto dos 40 anos, estava casado com Celeste, quase 20 anos mais moça, morena mais clara, uma graça para a sua vida.

Era feliz, a sua vida, pensava. Os anos passavam e Martin apreciava os dias, trabalhava bastante e fruía aquele casamento novo. E gostava de pescar, seu prazer reparador de vida livre desde os tempos de depressão. Retomara o hábito: horas sobre a laje da Gruta da Imprensa, na Niemeyer, olhando o mar imenso e cortando o silêncio com palavras curtas trocadas com outros pescadores; palavras de pescador, não de referência a outro assunto ou queixa da vida, um que outro comentário só sobre futebol, pouco, era vascaíno e tudo ali era flamengo.

Mas só sábados e domingos, por vezes até com chuva, desde que não soprasse um vento frio. Deixava a mulher em casa, tinha confiança, tinha de ter, pensava muito nisso durante a pesca, na mocidade dela, muito fim de semana ela tinha plantão, pensava na saúde da mente que era frágil, observava tanto maluco, tanto neurótico, reconhecia uma tendência interna e buscava a cura na pesca, há muito havia deixado a clínica, nunca mais nenhum contato. A paz. A pesca era a paz. Celeste era bela, jovem, mais clara e, principalmente, muito feminina, nas formas, na pele, no gesto, na fala, nos olhos, no jeito, no gosto, como era mulher. Amigos lhe diziam da voz maravilhosa que ela tinha ao telefone. E na cama, nos fluidos do sexo, como era mulher. E de tanto ser, preocupava, botava ele pensando muito, exigia a disciplina dele na satisfação dela, depois do dia mais cansativo, de levar o patrão, a patroa, os filhos ao colégio, fazer compras, entrar na fila do banco, muitas vezes ficar até tarde esperando os patrões num jantar, mas mantinha a moral, cumpria as obrigações de fora e de dentro de casa. Cumpria; e não obstante, preocupava-se, Celeste era moça e feminina demais. Mas tinha de tirar da cabeça aquela preocupação, tinha de se despreocupar, pescava no fim de semana por bem à saúde; tomava maracujina de noite para dormir bem.

Surpresa

Ela trabalhava na Mangueira, no Hospital Jesus, emprego arranjado pelo patrão médico, uma distinção, sim, era auxiliar de enfermagem e, diziam todos, muito respeitada. Sim, mas ele preferia que ela não trabalhasse, tinham muitas vezes discutido isso, discussões pesadas, ela não aceitava, não tinha filho, não queria ter ainda, não ia ficar em casa à toa feito dondoca, gostava do trabalho, era respeitada; sim, com certeza, ele não duvidava nem um pouco, mas conhecia a natureza humana, e a proeminência dos médicos num hospital, o poder, o carisma, a insistência, o vezo dos doutores de comerem as enfermeiras, uma usança dos ambientes de plantão, ali mesmo, no hospital, oh, desviava o pensamento, usava o mar e a pesca para a saúde e o equilíbrio, nos dias de semana acalmava cumprindo o dever do trabalho e tomando calmante à noite. Um dos porteiros do prédio do patrão, o Santos, também tinha a mesma preocupação com a mulher, que era moça e bonita e trabalhava em Caxias, na Secretaria de Saúde, cercada de médicos, oh, a natureza humana.

E depois, não era só a relutância e a altivez da Celeste: tinha a prestação do apartamento, comprado havia pouco por insistência dela, em São Cristóvão, que não era subúrbio, num prédio novo, um padrão bem acima do deles, não teriam como pagar à Caixa sem o salário dela, tinha de aceitar, paciência, equilíbrio, pescava.

Quando o plantão dela era na sexta ou no sábado, na manhã seguinte, antes das 7, Martin estava na porta do hospital esperando por ela. E Celeste gostava daquela atenção, daquela preocupação dele, tinha o cuidado de não sair nunca junto com um homem, médico ou enfermeiro, não suscitar erupções no coração do marido.

Assim. Mas foi um dia de quarta-feira em que os patrões viajaram e ele não disse nada em casa, e foi esperar a mulher de surpresa na manhã seguinte. Foi e viu: vinha ela despreocupada e bela saindo do plantão, as formas femininas no vestido justo e no salto alto, não esperava por ele e olhava com atenção para o moço de branco com quem falava, uma atenção a que ele, o moço, correspondia na escuta, tanta atenção que ela não viu Martin na calçada do outro lado da rua, que era larga. Não viu e prosseguiu a andar em conversa, virou à esquerda depois do portão e continuou andando com o moço, cerca de 100 metros, até um estacionamento onde estava o carro dele, ele, de branco, de porte elegante e olhar firme; viu-o jogar um alô para o guardador e apertar o botão do destrancamento, Martin gelado do outro lado da rua, quase se jogando para impedir o que sabia que ia acontecer, ela entrou no carro, oh!

Tortura

Não foi para casa, não queria verificar se ela iria diretamente ou se passaria antes em algum motel, não queria, tinha horror à confirmação do pior, o desespero era paralisante, e foi andando ao léu, sem atinar com o que fazer, não ia para casa, não ia conferir, não ia ligar para o celular dela, o medo era de estar desligado, ela dizia que, quando em atendimento no hospital, tinha de desligar, e muitas vezes se esquecia de religar, ela não sabia que ele não tinha ido trabalhar, a surpresa planejada, espertamente planejada, tinha levado àquela desarticulação total. A surpresa tinha duplo sentido, claro, queria uma vez dar uma incerta, há muito, e a incerta jogava-o no fundo de um poço sem fundo e sem amparo, continuava a cair, pretendia levá-la aquele dia a almoçar na Barra, dia de folga dele, no Recreio, comer um pintado na brasa, e agora não tinha mais clima, pior, não tinha ar, não tinha luz, andava sem fim pela manhã nublada e serena, passou pela frente da grande Escola, Celeste adorava a Mangueira, tinha ritmo e sabia dançar, sambar no pé, uma graça, era uma mulher cheia de graça, evidentemente os médicos viviam assediando-a, difícil ela resistir, o cara tinha um carro novo, era o fim, perdia a mulher, tinha perdido a primeira e agora perdia a nova, a mulher que amava, mais do que Mariana que tinha morrido de câncer, amiga querida que deixara saudade mas não aquele desespero de perda que sentia agora com Celeste, aquele cadafalso em que caía, uma raiva do mundo, não adiantava procurar os filhos, nenhum deles ia compreender aquela tragédia, aquele fim reles sem nenhuma grandeza, corneado, ela simplesmente escapando com outro, sem nenhuma compensação, só se matasse os dois, Celeste e o cara, mas nem, nem pensar, não era homem de matar, nem pensar, nem pensar, ia andar o dia inteiro, isso sim que era dele, andar até cair  numa sarjeta qualquer e desaparecer, fim reles, ela nem ia saber, nem se incomodar, ia andar, ia andar até o fim.

E andando e andando e pensando, quando viu estava subindo o viaduto da Mangueira, desceu para a Visconde de Niterói, andando, entrou na Quinta, sentou ali na grama e gramou, e gramou, horas, respirou, sentiu sede e tomou dois copos de mate, reanimou, andou e sentou mais, sem saber, levantou-se e andou mais, andando e parando, seguindo, sem saber, sem tempo, andou então sem parar, estava no Campo de São Cristóvão, andou, e de repente estava na São Luiz Gonzaga. Era a sua. Sem saber, tinha chegado bem perto de casa, perdida a noção do tempo, já era de tarde. Não, não ia para casa, o celular não tinha tocado o tempo todo, Celeste não tinha ligado, não que ela costumasse ligar quando sabia que ele estava trabalhando, mas ele era que ligava, de tempo em tempo, e aquele dia não tinha ligado, então ela devia ter estranhado, e por que então não tinha ligado ela? Pensava e tornava, torturava, mas estava cansado, sim, sentiu o cansaço, e uma fraqueza, não tinha tido fome, mas sentia a fraqueza, sem comer desde a manhã cedo, mas para casa não ia, os filhos moravam na Rocinha, ambos, do outro lado do mundo, não dava, não sabia, entrou num boteco e tomou um café, pediu média e pão, pensava, e não chegava a nenhuma resolução. Irresoluto, foi andando e, no automático, chegou à porta do edifício, no automático perguntou ao Lacerda se sabia se Celeste estava em casa. Sim, achava que sim, tinha visto ela chegar cedo, na hora normal, e não tinha visto ela sair.

Vergonha

Bem, o mundo deu uma volta, que coisa, ia subir, não tinha como voltar, dar uma de maluco na frente do porteiro, bem, subia e tinha de falar com ela, explicar que não tinha ido trabalhar, que coisa, ia dizer o quê? Que tinha visto ela sair com o cara? Confessar a espreita? Não, não ia, mas entrou no elevador.

E decidiu, no elevador decidiu não falar nada, averiguar mais, olhar nos olhos dela sem perguntar. Mas a cara dele estava inteiramente desfeita, ela se espantou quando viu e foi logo perguntando o que tinha acontecido. Oh, ele não tinha preparado uma resposta, complicou-se, gaguejou, empacou, e de repente, perdeu a voz, e as lágrimas brotaram e inundaram a vista.

Era de fraqueza, de corpo e de alma, era de abatimento e de vergonha por todo aquele dia que não sabia mais explicar, não sabia o que dizer, nem como começar, não sabia mais o que tinha acontecido, e Celeste impactada, o que foi, o que foi, o que foi, queria saber da tragédia, e a vergonha de Martin aumentava, ela ofegava de aflição, o que foi, ele não dizia porque não conseguia dizer, a cena era trágica, e não havia tragédia nenhuma, objetivamente nada de trágico, a tragédia era a vergonha dele que acabou conseguindo falar “depois eu conto, desculpe, não aconteceu nada, desculpe minha querida, é só besteira minha, não houve nada, desculpe, depois eu conto”, e saiu em direção ao quarto, para deitar-se e deixar passar. Recuperar-se.

Mas a gravidade não deixou Celeste se aquietar, foi atrás, era evidente a ruína dele, seu marido, companheiro de algum tempo, foi atrás, sentou-se ao lado na cama, tocando-o com carinho e esperando, mas insistindo, queria saber.

E foi escutando o que ele ia revelando pouco a pouco, muito pouco a pouco, em palavras desencontradas, foi captando o sentido, o homem forte, de quase cem quilos de massa e um metro e oitenta de altura, o homem forte de coragem, duas vezes correra com bandidos, o homem forte na cama, o homem dela, ali derreado, contando o que se mostrava aos poucos, a sua fraqueza incrível, a criancice pequena escondida naquele corpão masculino, foi ouvindo, e não se agastou, nem um pouco, foi invadida pela compreensão do homem bom, foi tomada por um sentimento novo de amor, ternura envolvente, começou a acariciar Martin que mantinha a mão sobre os olhos fechados de vergonha e continuava a falar e repetir o pedido de desculpa, o amor foi tomando o coração de Celeste, aproximou o rosto do dele, tirou-lhe a mão dos olhos e beijou-lhe a face, a face e depois a boca, carinhosamente, tomada de amor, ternura enorme, queria um filho de repente, queria um filho com aquele seu homem, queria um filho como ele desejava.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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