Emigração indesejada

Protestos por justiça social, junho de 2011

Protestos por justiça social, junho de 2011

No verão de 2011, sem aviso prévio, centenas de milhares de pessoas foram às ruas se manifestar no maior protesto da história de Israel e um dos maiores do mundo em relação ao tamanho da população do país. Jornalistas estrangeiros ficaram confusos. Seus editores em Londres, Nova York, Berlim e Roma queriam explicações. O que estava acontecendo? Por quê? Mas os repórteres não sabiam.

As pautas costumavam ter quatro temas: guerra, territórios ocupados, ultraortodoxos e nação empreendedora. A ocupação das ruas era um tema novo, e os repórteres estavam perdidos. Um deles me telefonou, pediu um encontro urgente e desandou a fazer perguntas. Conversamos, e eu também tinha uma pergunta para ele: Você está em Israel há mais de dez anos, até fala hebraico. Por que nunca escreveu uma matéria sobre a estrutura da economia israelense, sobre o custo de vida estratosférico, o feroz capitalismo de compadrio, o capital investido pelo sistema ligado à segurança?

Na verdade, respondeu ele, ninguém jamais havia levantado esses tópicos. Nem os políticos, nem os diplomatas, nem o pessoal da segurança. Tampouco os repórteres. Em todo caso, acrescentou, nem os editores manifestaram interesse.

Foi assim que, no verão de 2011, a imprensa global passou a divulgar uma informação a respeito de Israel que nem a imprensa local estava cobrindo – a economia israelense é terrivelmente concentrada.  Um punhado de magnatas controla a maior parte do dinheiro do público;  a desigualdade é medonha;  a economia está a serviço de uma panelinha e  o custo de vida é insano.

De um modo geral, as pessoas vão às ruas quando sentem que não há outra forma de manifestar a sua insatisfação com os políticos, a imprensa e os empresários. Protestos levam tempo para causar impacto, mas esse teve algumas repercussões imediatas. Uma foi a amplificação do desgosto do povo com o  capitalismo de compadrio  e com as trocas de favores entre políticos e grandes empresários.

O verão de 2011 foi o momento em que as ideias alternativas provaram ter força  contra os grupos de interesses, obrigando o sistema a ouvir as massas não organizadas, não apenas o grande capital.  E outra pequena vitória para a democracia ocorreu em outubro último, quando as pessoas reagiram em massa às observações do ministro das Finanças, Yair Lapid, e do presidente da Loteria, Uzi Dayan, que denunciaram os israelenses que deixam o país por motivos financeiros. 

Yair Lapid

Yair Lapid

Não sabem de nada

Personalidade midiática, Lapid escrevia uma coluna semanal nos jornais e aparecia na TV até liderar os protestos e entrar para a política. Ele e seu  partido, Yesh Atid, então recém-formado, conquistaram impressionantes 19 das 120 cadeiras na Knesset. Uzi Dayan preside a Conferência de Sderot sobre Sociedade e Economia. Assim como em 2011, os que estão no poder parecem completamente isolados do povo nas ruas. Reagindo às observações antiemigração, jovens e idosos enviaram uma  mesma mensagem: vocês não têm a menor ideia do que está acontecendo.

Lapid e Dayan tentaram a velha fórmula que funcionou no passado: começar com sionismo, misturar um bocado de Holocausto, polvilhar “não temos outro país” e servir. O que eles não perceberam foi que os israelenses que se preparam para ir embora sabem tudo isso. Eles não são antissionistas. A maioria preferiria ficar. Mas se desespera para conseguir levar uma vida decente em Israel.

O quê? Israel não está mais forte e mais rico do que nunca? Também tem enormes reservas de divisas e uma riqueza em gás natural (embora, no momento, ainda no fundo do Mar Mediterrâneo). O desemprego é baixo. No entanto, tem uma geração inteira de gente que se sente perdida e desamparada, que percebe que sem pais ricos e bons contatos nos lugares certos não conseguirá ser bem-sucedida.

Lapid e Dayan (e muitos outros como eles) não entendem. Eles vêm de famílias ricas, com raízes profundas no sistema. A riqueza deles não os desqualifica para emitir suas opiniões e agir, mas parece distorcer a forma como eles percebem a realidade. 

Uzi Dayan

Uzi Dayan

Traidores

Algumas estatísticas: a pensão média de funcionários do sistema de segurança em vias de se aposentarem, dos 45 aos 50 anos, vai de 5 milhões de shekels (1 milhão e 400 mil dólares) a 10 milhões de shekels. Não são poucas pessoas; milhares se aposentam anualmente com direito a essas pensões.  Vejamos agora um trabalhador high-tech médio: ele não tem estabilidade no emprego e, aos 45 anos, o seu direito à aposentadoria atinge 140 mil dólares, talvez o dobro.  Isso equivale à décima parte do que o irmão dele recebe ao se reformar do exército.

Outra estatística: a razão entre o salário médio em Israel e o custo médio de moradia é a mais alta do mundo, o dobro da registrada  nos Estados Unidos e o triplo da da Suécia. E esse cálculo inclui os salários mais altos pagos em Israel.  O salário  mensal médio é de 6 mil shekels enquanto o preço  de um imóvel médio  é superior a um milhão de shekels.

Os aposentados não têm um  padrão de vida decente por três motivos: salários baixos, mercado de trabalho estruturado para proteger apenas grupos de trabalhadores favorecidos (deixando todos os demais desprotegidos), além de sistemas de proteção social em frangalhos e serviços públicos que podem piorar.

A maioria dos israelenses que deixam o país não alimenta a expectativa de ter  boa vida logo de cara.  Eles sabem que na Europa o desemprego é galopante; sabem que o sistema de saúde americano está quebrado e fora de alcance;  sabem que as  populações locais  amarram a tromba para os imigrantes em geral, que dirá para os israelenses.

Mas essa é a questão. Eles não saem por estarem otimistas quanto às suas chances fora do país. Eles estão desesperados  diante de suas chances dentro dele. Eles sentem que o Estado não os quer.

A maior parte fica porque as barreiras à migração ainda são altas demais. O problema é que as pessoas que se vão são aquelas de quem mais precisamos. Israel não pode  dar-se ao luxo a que se dão outras nações. Mas é preciso lembrar que essa não é a ordem natural das coisas.  Não precisamos ter uma desigualdade tão gritante, ou um custo de vida tão insanamente alto.  Tudo isso e mais outras coisas  não constituem uma força da natureza, mas uma alocação de recursos orientada não para o bem geral, mas para o bem de pequenos grupos de interesses; evidenciam  gente e elites que traíram o seu país e a próxima geração, agora reduzida a buscar sua sorte em outro canto.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Haaretz É vice-publisher do grupo Haaretz e fundador do jornal diário para assuntos financeiros The Marker. Ganhou em novembro o Prêmio Sokolov 2013 por “tornar o jornalismo econômico um fator significativo no discurso sócio-econômico”.

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