Dona Shprintze *

IMAGEM Meu Recife MatutoO dia todo mais e mais vendedores ambulantes passavam na nossa Rua Gervásio Pires, o bairro da Boa Vista, no Recife.

Já de longe se ouviam os pregões anunciando a sua chegada com as mercadorias que traziam.  Não eram, porém, de profissão estável como ambulantes e só apareciam em determinadas épocas do ano e com produtos em falta no mercado. Produtos estes necessários à cozinha e aos “costumes dietéticos” dos judeus na época.

Era, portanto, comum ouvir com frequência a clássica frase: “Está em falta, minha senhora, quem sabe amanhã chega. Venha amanhã, guardo pra senhora. Amanhã sem falta.” Como isto mormente acontecia, criou-se um serviço voluntário (mediante pagamento, claro) que procurava encontrar o produto em falta fosse onde fosse, até nos cafundós-de-judas, pagando alguma propina ou por amizades nos lugares certos.

Um serviço desta espécie, entre outros, fazia uma senhora idosa, quando o produto rareava no mercado, a manteiga.  Tratava-se de dona Shprintze, corruptela da palavra esperanza, em espanhol.

Senhora já na meia-idade, judia de origem polaca, viúva, mãe de três filhos, cabelos brancos, rosto enrugado, não sabia o que era baton ou rouge, sempre ao natural e bem- disposta com um sorriso amargo nos lábios.  Vivia num quartinho rústico, em um pátio junto a outras casas simples de judeus pobres no Beco da Mangueira.  Aluguel caro pago pela “casa terra”, muito guabiru gordo que roía tudo dentro do casebre e goteiras irreparáveis quando chovia. No Recife daquela época chovia pra chuchu, não a tal chuvinha miúda como diz a canção, já não me lembro de quem: “chuva vai, chuva vem, chuva miúda não mata ninguém…”

No Recife daquela época não tinha disso não, chuva era chuva mesmo de “purmão roncar” (pneumonia) e daí pra frente!

Com  tantos problemas  mudou-se dona Shprintze para uma pensão barata, na Rua Barão de São Borja, lá pelas imediações da Rua da Soledade (nomes lindos tinham as ruas do Recife). Um dos filhos ela colocou num internato grátis e os outros dois, um casal, viviam com ela na pensão.  Vida difícil a sua, judia pobre.

O cotidiano

Faltava manteiga com ou sem sal e no mercado as prateleiras estavam vazias? Ninguém sabia dizer quando voltaria a manteiga para o bem geral da nação?

Os judeus eram os primeiros que ficavam agoniados e amedrontados com a falta deste produto. E por quê?  Lembrava a falta nas épocas de guerra ou revoluções no continente natal deles, a Europa. Tais acontecimentos fizeram os judeus passar fome, perseguições e até extermínio, sempre os primeiros a serem atingidos e os mais castigados.

A lição foi rapidamente assimilada e daí o medo quando começava a rarear comida no mercado. “Isso é sinal de coisa ruim que vem por aí”, silabavam como estivessem revelando um segredo que só eles conheciam.

E sempre o primeiro produto que desaparecia do mercado nessas horas era exatamente a manteiga e depois os produtos lácteos (coalhadas, queijo branco). A manteiga, porém, era uma espécie de barômetro naquele tempo, especialmente para o povo judeu. Pode-se  perfeitamente entender!

Para resolver o impasse caracterizado pela falta do produto nas vendas e quitandas da cidade do Recife (muitos ainda acham que o Recife era uma vila grande e atrasada no tempo) e, concomitantemente, acalmar os nervos da comunidade judaica, entrava em ação a senhora dona Shprintze: ela tinha conhecidos na Usina de Lacticínios e, com a ajuda destes, resolvia o problema dando uma solução viável e final ao “caos”.

Conseguia sempre o produto faltante que estava escondido nas câmaras refrigeradas para atender somente aos graúdos da cidade. Eles faziam exatamente como ela. Soltavam uma propina ou uma “gratificação” aos pobres armazenistas da Usina de Laticínios e o problema deixava de ser insolúvel. Nunca faltou o produto para os graúdos da cidade, mesmo que tivessem que importar da Holanda.

Como dona Shprintze tinha boa amizade com o pessoal da Usina, conseguia naquela época de falta comprar a manteiga a um preço algo maior (incluída a propina) que o distribuidor atacadista e vendia de porta em porta nas casas das famílias judias da comunidade. Como dizíamos na época: “A ovelha sã e salva e o lobo de barriga cheia.”
Ela cobrava por cada unidade (caixinhas quadradas de papelão, 250 gramas) o dobro ou até o triplo do preço de compra e assim sobrevivia. Verdade seja dita, sabia negociar e fazer contas.

Os judeus, ao constatarem que a manteiga estava na porta, se sentiam psicologicamente serenos e fora do perigo iminente: uma revolução bolchevique ou os nazistas por chegar ou, pior ainda, uma guerra mundial. Vejam só aonde a falta de manteiga levava este “povo preferido por Deus”, um bando de molengas medrosos.

Dona Shprintze dizia em ídish a minha mãe: Got zol mich uphiten, noch a revolútzie óder a krig feilt mich ietst. (Que Deus me livre e guarde de uma revolução ou uma guerra agora.) As duas acreditavam seriamente nestes “sinais do além” e  viviam murmurando em ídish: Got zol mich uphiten, Got zol mich uphitn (Deus me livre, Deus me cuide), feito quem estava rezando.

Viradora

A minha mãe foi por um período bastante longo presidentke  (secretária geral) do Relief, ONG de ajuda aos necessitados da comunidade judaica. Ela recomendou à diretoria desta organização reconhecer  dona Shprintze como “necessitada”:  assim,  tinha o direito de receber uma mesada para manutenção dos filhos. O tempo foi passando e com a idade e a dificuldade de caminhar recebia da Relief uma ajuda financeira para praticamente não sucumbir de todo.

Meu pai, porém, só acreditava no trabalho pesado e não de viver recebendo esmolas. Bem, ele era da velha guarda, daqueles que tinham vergonha na cara e mãos calejadas.

Mas dona Shprintze era uma mulher viradora. Antes das festas judaicas,  mandava os seus filhos entregar manteiga segundo uma lista que preparava em tempo.  Também
visitava as famílias judaicas para desejar um feliz ano novo (Rosheshune) ou os votos de uma boa Páscoa (A guitn un a kúshern Peissach) e, nesta oportunidade, aproveitava para averiguar se necessitavam do produto e a quantidade.

Sabia ela que nestas festas se usava muita manteiga para tortas, pastéis e comidas da Páscoa.  Dizem também que ela era uma boleira de mão-cheia e ajudava nas festas de casamento, noivado e outras comemorações das famílias da comunidade judaica.
Sua arte culinária e a riqueza dos sabores de suas tortas e pastéis causavam a admiração de todos. Até de Alagoas vinham encomendar a sua confeitaria.

Nas festas, ao comer algo de dona Shprintze, estalavam a língua  e diziam:
“Dou a minha cara a bufete se esta torta não foi receita da dona Shprintze.” (Em ídish: kenst mir guiben a patch in púnim ven ich bin nisht guerecht ven di tort is nisht a retzept fin froi Shprintze!)

Fato que ninguém conta era que ela sempre foi uma mulher enérgica e de muita iniciativa apesar de ser considerada necessitada. A prova disso, quando realmente escasseava de todo a manteiga na Usina e nem para os graúdos da cidade restava, ela fazia uso do conhecimento que tinha com alguns donos de vacarias na Ilha do Leite e no Curado e daí vinha a solução alternativa.

Viajava de bonde, fizesse sol ou chuva, comprava leite dos donos das vacarias e lá mesmo produzia manteiga com uma batedeira manual que possuía e que carregara toda esta distância consigo, desde a  pequena aldeia na Europa, sua terra natal, até o Recife.
Tanto esforço não só para ganhar a vida, mas também trazer calma à colônia judaica.

“Manteiga, manteiga, tem de novo manteiga, já se sente até o cheirinho” e isso fazia dissipar o medo psicológico deste povo sofrido. Falta de manteiga é sinal que algo de ruim está por acontecer. Zol Got mich uphitn. (Deus me livre, em ídish).
Vige!

Paulo Lisker vive em Israel.

* Postado originalmente  no blog Geleia General

  Condensado e revisto por Renato Mayer

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

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