Beethoven perde jogo para adolescente

Parada militar do 7 de Setembro

Parada militar do 7 de Setembro

Polêmico cronista da nossa imprensa se mostra, aparentemente, confortado por episódio descrito por um pai de adolescente dito muito “conectado na internet”.  O personagem – embora reafirmando sua admiração e respeito pela cultura do pai – lhe teria dito: “Você sabe tudo sobre o que já aconteceu, mas não sabe nada sobre o que está acontecendo.” Com alguma ironia… sábias palavras. Com direito a outras interpretações, a mais cabível parece ser: “Vocês aí, dinossauros, se orgulham de não saber nem ligar um computador e desprezam a nossa geração  que só consome game, face, rock, além de ser sempre suspeita de outras marginalidades, mas no fundo  é inveja; vocês levam horas lendo esses moribundos jornais de papel,  gastam tempo escrevendo ponto-e-vírgula só de pirraça, acumularam na cabeça essa montanha de livros… enfim, o mundo está aí acontecendo e vocês aí escrevendo ponto-e-vírgula.”

Ao final do texto o cronista tem  mais um episódio a comentar, desta vez pessoal: o filho de 13 anos está profundamente absorto num game. Ele, pai, paladino doméstico da cultura universal, aciona o CD-player, e passa-se a ouvir o Quarteto de Cordas Op. 133 de Beethoven (que ele considera, com razão, um momento máximo da história da música). O menino “ouve atentamente enquanto, no ritmo exato do quarteto, joga o game no Xbox. Beethoven unido ao game em perfeita harmonia. Talvez haja um futuro”. Talvez, mas a creditá-lo ao episódio, sobrou otimismo.

Breve flash back: é um alto-cambriano daqueles; o macaco vira bípede, sai da caverna todo pimpão… É que passou a ouvir o ruído dos próprios pés batendo no chão, o que desconhecia enquanto vivia pendurado nas árvores.  Estava descobrindo uma coisa que se chamaria ritmo (que se tornaria elemento fundamental para o balé, o carnaval carioca, o roque e as Forças Armadas no 7 de setembro ). Crente que estava abafando, deu-se por satisfeito. Os outros componentes sonoros que viriam formar, com o ritmo, a entidade música (melodia e harmonia) só surgiriam milênios mais tarde. O ritmo, portanto, é o elemento mais primário da música – não admira que alguém acumule alguma função, mental ou artesanal, com movimentos rítmicos de alguma parte da anatomia.  No caso, o adolescente, com certeza, ouviu “atentamente” apenas o ritmo do quarteto, mas Beethoven, mesmo… game over.  Quanto a haver um futuro, há mais (más?) notícias.  Não é apenas Beethoven quem anda perdendo games: desde as últimas duas décadas do século 20, a música clássica vem se afastando… da música, deixando a impressão de que está  regredindo ao alto-cambriano, ou seja, só ao ritmo, mais explicitamente, ao ruído.  A eletrônica e seus monumentais avanços comunicativos permitem a qualquer um produzir sons, mas também, preferivelmente para os compositores, estrondos, assobios, alarmes, catástrofes, tudo amplificado, recortado e colado, batizado com termos latinos ou gregos, e rotulado hoje de música eletroacústica.

As dúvidas quanto a um futuro exigem muito mais especulações, análise, estatísticas; haverá argumentações otimistas acenando com as orquestras juvenis de subúrbios, de um ou outro Estado, claro que comoventes, celeiros possíveis de grandes artistas, até que o futuro assuma a conversa.  Quanto ao passado, não há discussão necessária: temos uma herança musical acessível, de algum modo, aos ouvidos, quaisquer ouvidos, desde que interessados.  Devemos isto também a um game – naquele tempo Beethoven só jogava xadrez e não mais que uma vez por semana.

Boletim nº 146 – janeiro/fevereiro de 2014 – Ano 25

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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