Um pessoal muito pé na terra

James Hetfield e Lars Ulrich, guitarristas do Metallica

James Hetfield e Lars Ulrich, guitarristas do Metallica

Houve um tempo em que os macacos só tinham uma preocupação: sobreviver. Saíam da caverna atrás de algum pterodáctilo para o almoço, mas era melhor ser rápido e voltar correndo porque algum tiranossauro morador das redondezas os espreitava com as mesmas intenções: almoço. Depois de alguns milênios, a natureza, que já naquele tempo era sábia, abriu concurso público para quadrúpedes interessados em promoção a bípedes. Foi assim que, utilizando as fraudes de praxe para descartar os mamutes e dinossauros, grandes demais e de alto custo de manutenção, a macacada ganhou a licitação e passou a andar só com as patas traseiras. Ganharam um título honorífico – Pythecantropus erectus, concedido em cerimônia na câmara –, mas ganharam coisa melhor: velocidade.  Foi um verdadeiro apigreide: não mais fugas em correrias desabaladas, altura suficiente para encarar aqueles monstros e não levar desaforo pra casa… e enfim tiveram tempo para conhecer o próprio corpo. Descobriram o ritmo. Hoje sabemos que o ritmo não passa da repetição regular de um movimento, mas, para um macaco pré-histórico, foi um achado: a marcha, a respiração, os batimentos cardíacos…  E os sentidos? Antigamente só tinha ouvidos para ameaças e catástrofes: um dinossauro urrando na porta da caverna, uma tempestade chegando, avalanches, maremotos e nevascas, que faziam a alegria do pleistoceno.  Agora, ao ouvir o ruído dos próprios pés batendo na terra, achou-se o máximo. Sentado na sua poltrona de pedra passou a imitar com os pés o ruído da própria marcha; era uma sucessão regular de batidas alternando o pé esquerdo com o direito. Logo entendeu – ou descobriu sem querer – que podia modificar a regularidade e a duração dos intervalos, pisando ora mais depressa, ora mais devagar, ora mais forte com o direito, ora mais forte com o esquerdo… pressentiu, orgulhoso, que estava entrando para a História como precursor da bateria da Mocidade Independente. E era verdade: não estava mais apenas descobrindo coisas, mas sim inventando – tinha inventado a dança.

A dança é a forma mais primitiva do complexo fenômeno que é a música.  É a expressão não verbal – espécie de descrição – de certos aspectos da fisiologia do corpo humano. Como era não verbal (pois o macaco ainda não falava), resumia-se a movimentos executados com a cabeça, os membros e a cintura (também chamada quadris e, mais popularmente, cadeiras). Para dançar, reproduzindo os ritmos que descobrira no próprio corpo, dispensava o som (ou seja, a música propriamente dita): bastavam-lhe ruídos – os pés batendo no chão, algum osso de brontossauro batendo na cabeça da esposa, as palmas das mãos distribuindo tapas em si mesmo ou em quem passasse perto… Não faremos ideia do que poderia ter sido a coreografia do corpo de baile do Theatro Neandertal, mas ainda é possível   imaginar assistindo à dança da Festa da Baleia numa tribo de esquimós do Alasca ou a rituais em algumas culturas indígenas brasileiras. É claro que lá pelo século 19 chegou o Tchaicovsky, juntou uma orquestra sinfônica ao naipe de percussão … e aí… Lago dos Cisnes.

Metallica

Alguem aí gostaria de ver o Lago dos Cisnes sem violinos, flautas, harpas, isto é: só com tímpano, bumbo, pratos, caixa e triângulo? Ou logo, simplificando, só com uma bateria? Evidentemente esses balés todos, de Tchaicovsky a Stravinski, foram concebidos como unidade entre seus quatro elementos: melodia, harmonia, ritmo e dança. Fica uma coisa muito linda.  No entanto, o ritmo e a dança podem encenar a obra mesmo se o resto da orquestra entrar em greve.

Infelizmente, chegamos aonde não queríamos: ao roquenrio. Diz aqui o jornal: “o Metallica botou o povo pra dançar”. Qual foi a proeza do Metallica? Desculpem, Metallica, mas nenhuma. O povo – esses caras que só servem pra ficar incomodando as autoridades – quer dançar. Certamente menos de 5% da plateia terá ouvido falar em Lago dos Cisnes. Visto, também improvável. Implicaria, entre outras inconveniências, numa orquestra sinfônica. Ora, para dançar – e de pé se equilibrando numa cadeira – basta o Metallica, pois que se trata de um conjunto de ritmo: uma bateria, duas (ou três) guitarras em forma de fuzil automático e que não tocam propriamente música, tudo isto enfumaçado de vermelho, e alguns engenheiros nas caixas a garantir que se ouça tudo. Nesse “tudo” entra a letra da “canção”, que o povo agradece penhorado, mas dispensa, pois ela é supérflua: queremos é pular – se quebrar cadeiras, azar – ao som do ritmo do Metallica.

Mesmo diante de tão gigantesca popularidade e consequente longevidade, é inevitável a busca pelo diagnóstico, reconhecendo ainda que as dúvidas e perplexidades superam de longe as certezas. Terá o patrocínio de grandes ícones comerciais do capitalismo tal poder sobre as massas? Por outro lado, conhecemos o fenômeno da hipnose, que ocorre quando a repetição insistente de estímulo auditivo, visual ou tátil cria uma zona de inibição da função cerebral (ou seja, em cinco minutos o baterista do Charm of the Killers bota o cidadão para pular e gritar yu-huuuu, sendo que ele sabe não só o nome do baterista como o da banda da qual saiu e o da ex-mulher e o do atual baterista marido dela).

Não tem choro: estamos vivendo em plena age of the rock.

N.B.  –  em inglês a palavra rock pode significar tanto balanço como pedra.

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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