Um espertalhão na Amazônia

360x360_8599031082

O judeu mestiço

Frederico Veiga

Manaus: Norma Editora, 2012

462 págs.

Ostensivamente, o livro parece referir-se a um homem em situação intermediária entre duas circunstâncias, uma como descendente de judeus e outra, como não judeu. Entretanto, embora o “judeu mestiço” seja o fio condutor do romance – o primeiro livro de ficção do amazonense Frederico Veiga – , a narrativa tem inúmeros focos: as mudanças ocorridas na vida de Ari Stein, o protagonista, filho do judeu alsaciano Albert Stein e de Maria dos Santos, uma índia Ticuna; o golpe de 1964, no qual ele figurou com proeminência como estudante revolucionário; sua transformação em empresário de altos negócios, dono de terras e de seringais e, por fim, a sua carreira de deputado federal.

A vida de Ari transcorre ao longo da narrativa sobre a história da borracha do Amazonas, a ascensão e o declínio das transações comerciais dos poderosos seringalistas, o sistema eleitoral nos confins da floresta amazônica, as experiências de jovens privilegiados como estudantes vivendo longe de suas famílias… enfim, o romance se revela como um mapa com rios de falcatruas por parte de políticos, montanhas de dinheiro escuso de parte de seringalistas e seus cúmplices, ilhas de bem-aventurança habitadas pelos barões da borracha, por políticos e administradores de negócios,  rodeados por um mar de miséria, onde se afogava lentamente o povo, além dos vales de lágrimas vertidas nos calabouços da ditadura militar… É um panorama trágico que explora os momentos mais importantes da história do Brasil pelos atos encobertos de muitos de seus autores.

Ari, de jovem idealista e grande arguidor do comunismo, apoiador irrestrito de João Goulart, que até figurou no palanque presidencial nos espasmos do período janguista, passou a ser exatamente quem ele mais repudiava quando jovem: um capitalista sem escrúpulos, pronto para “fazer um agradinho” em termos de passar vultosas quantias de dinheiro sempre que precisava de um reforço de alguém, de apoio num desvio das normas, de algum conluio que o ajudasse na vida comercial, política e também pessoal. São suas estas palavras, dirigidas a Maria Helena, sua primeira mulher: “Eu quero te alertar com todas as letras que estou entrando na política como negócio e não por idealismo ou por vaidade pessoal” (p.355). Para o amigo de infância, José Carlos, não passou despercebida sua mudança de caráter. Disse ele: “A vida prega muitas peças na gente. Imagine a ironia do destino de Ari ao se filiar e candidatar-se pela Arena, exatamente o partido do governo militar, assumidamente um partido de direita, que ele tanto combateu!  … Acho que ele já enterrou as lembranças dos tempos de esquerdista, agora só pensa nos negócios e no poder” (p. 357).

Os meandros da vida política para alguns dirigentes são percorridos pelo olhar analista e crítico do autor, que incorpora à ficção situações similares ocorridas na história real do país. Ari se forma em Engenharia por uma faculdade no Rio de Janeiro, um ano depois de a capital ser transferida para Brasília. Já não tinha pai, e sua mãe, Maria dos Santos, tinha outro companheiro e com ele se mudara para Porto Alegre, cidade onde se refugiou Ari, quando perseguido pela polícia militar da ditadura. A narrativa intercala o passado (incluindo a história dos avós europeus) de Ari e o período em que ele era estudante de Engenharia no Rio de Janeiro, até se fixar numa só trajetória, o percurso do homem que desistiu de seus ideais humanistas e passou a viver, bem adaptado, o modelo do político e homem de negócios, uma função interferindo na outra, para benefício de ambas.

Suas muitas aventuras amorosas e seu empenho em não se mostrar o “garanhão” que era o levaram a dois casamentos e a várias aventuras; sem inquietações metafísicas, mas pensando em vantagens, decidiu “converter-se ao judaísmo” (visto que, pela lei judaica, é judeu quem nasce de judia, o que não era o caso de Ari). Alcançou o que queria em tempo rápido, subornando um mediador para apressar o processo que, em vias convencionais, exigiria estudos, provas de conhecimento e prática das leis judaicas. Ari Stein não precisou de nada disto, soube fazer seus “agradinhos”…

Impropriedades

Antes de Frederico Veiga, alguns escritores não judeus marcaram a presença de judeus na região amazônica, como Paulo Jacob (1921-2004), em Um pedaço da lua caía na mata (1990). Nesse romance, a Amazônia emerge em toda sua exuberância, e o isolamento sofrido por uma família judaica tem a ver tanto com sua religião quanto com as circunstâncias restritas da floresta. Entre os judeus, sobressaem-se Samuel Benchimol, que publicou o livro documentado Eretz Amazonia: Os judeus na Amazônia (1998), concentrando-se na imigração marroquina naquela região; os irmãos David e Elias Salgado, que revelaram vários aspectos da vida judaica naquele mesmo rincão brasileiro na revista Amazônia Judaica, antes impressa e de circulação pela internet; Henrique Veltman (colaborador deste Boletim), com o livro Os hebraicos da Amazônia (1983), uma curta, mas válida apresentação da coexistência judaica na floresta. Mais tarde, em colaboração com um cineasta brasileiro radicado em Londres, fez um vídeo sobre os judeus amazônicos, cujas fotos foram expostas no Museu da Diáspora, em Tel Aviv.

O que me atraiu ao livro de Frederico Veiga foi o título. No entanto, verifiquei que o romance não indica que a ascendência judaica do protagonista tenha algo a ver com sua atuação na política estudantil ou nos seus negócios como engendrados em Brasília. Suas manobras profissionais, por ser chefe de uma firma de engenharia, se coadunavam com sua habilidade de aproveitar-se da posição de político influente, como deputado.  O romance me parece um relato sobre um espertalhão, espelho de inúmeros outros, tanto homens quanto mulheres, que aprimoraram a arte de se aproveitar do “momento oportuno” através de atividades que são mais bem servidas quando escondidas. O judeu mestiço, como narrativa, é uma arca onde cabem várias amostras, insinuações e denúncias de impropriedades efetuadas por empresários e políticos desonestos, cínicos e sem consciência civil, mas, sobre a coexistência dos judeus mestiços no Amazonas, há pouco. Pois este revelou-se malandro e aproveitador desde que saiu de Manaus. Muitos anos mais tarde, sua segunda esposa, judia e aparentada a ele, tentará retirá-lo do mapa dos aproveitadores. A história se suspende aí.

Boletim nº 145 – novembro/dezembr0 de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar