Peronistas: os genuí­nos

Hector Timerman

Hector Timerman

O artigo “Perón e os judeus”, de Luis Brunati [nesta mesma edição, ASA 145], expressa uma visão favorável e benévola de Perón em relação aos judeus. Em todo caso, há que se diferenciar Perón do peronismo.

Provavelmente a pessoa Perón não foi antissemita nem abrigou sentimentos antijudaicos, porém, de acordo com o próprio artigo, a sua condição de militar de carreira, católico e conservador o aproxima muitíssimo das posições assumidas pelas direitas fascistas e fascistizantes dos anos 1930 em diante. Reforça o fato a sua simpatia pelo regime de Mussolini, o qual, ainda que não fosse antissemita por definição – mais ainda, na sua origem, muitos judeus aderiram aos postulados do duce por uma simples questão de classe – , praticou políticas racistas no decorrer da Segunda Guerra Mundial.

Não à toa, no período entre o golpe de junho de 1943 e 1946/47, quando já era presidente constitucional, Perón e o peronismo foram classificados de “naziperonismo”. As alternativas internacionais e o início da Guerra Fria foram colocando Perón em um lugar que ele denominou “terceira posição”. Esta pretendia ser equidistante tanto do capitalismo (EUA) quanto do socialismo (URSS), mas o situou definitivamente do lado dos EUA, já que, por exemplo, a Argentina foi um dos signatários do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), em setembro de 1947, primeiro tratado desse tipo depois da Segunda Guerra Mundial (a OTAN é de 1949).

No período de sua gestação o peronismo foi profundamente anticomunista. Utilizou todos os instrumentos legais e ilegais para destruir os sindicatos dirigidos pelos comunistas, incluindo prisões, torturas, perseguições e manipulação de desordeiros. Muitos desses desordeiros são provenientes das anteriores formações direitistas, como a Legión Cívica Argentina. Nesse contexto nasce a Alianza Libertadora Nacionalista (ALN), como apoio civil ao Grupo de Oficiales Unidos, do qual Perón era membro notável. A ALN apoia desde o início a carreira política de Perón, associando-se com o incipiente movimento peronista como força relativamente independente, apesar de alguns encontrões quando do rompimento das relações diplomáticas com a Alemanha, em 1945. Seus postulados eram profundamente antiobreiros, anticomunistas, católicos reacionários e antissemitas. Alguns estudiosos a definem como uma força de choque do peronismo e como fundamentalista de direita, católica e violenta. Numerosos locais partidários foram invadidos e personalidades de esquerda atacadas por essa formação.  Há que se considerar que, naqueles dias, muitos judeus integravam a esquerda orgânica, especialmente o Partido Comunista – única organização consequente na luta contra o nazismo – , e que os sucessos da URSS eram, sem dúvida, inspiradores.

Beatriz Rojkes de Alperovich

Beatriz Rojkes de Alperovich

Esquerda, centro e direita

É provável que Perón tenha demonstrado tudo o que o artigo de Luis Brunati assinala, e talvez mais. Contudo, o peronismo, como movimento político social muito complexo, talvez não tenha sido tão condescendente.

No seu interior conviviam – e convivem – setores de origem e trajetória muito diferentes, alguns vinculados à esquerda e outros à direita, ao conservadorismo ou diretamente ao fascismo. Vale a pena lembrar que nos anos 1970 (1971-1975) conviveram diferentes expressões esquerdistas e esquerdizantes (como a organização armada Montoneros, as Fuerzas Armadas Peronistas, o Peronismo de Base, a Juventud Peronista e outras) com outras de direita ou de extrema-direita (a Juventud Sindical Peronista, a direção política de José López Rega, durante bastante tempo secretário de Perón e ministro do Bem-Estar Social).  Estas últimas foram a base da tristemente célebre Alianza Anticomunista Argentina (Triple A), que, uma vez produzido o golpe de estado de 1976, integraram-se ao aparelho de repressão.

Durante o governo neoliberal de Carlos Menem, Carlos Corach foi um de seus principais ministros, Alberto Kohan foi ministro da Saúde e Ação Social e duas vezes secretário-geral da Presidência, e Elias Jassan ocupou o Ministério da Justiça.

Por outro lado, há uma quantidade importante de personalidades e militantes judeus dentro do peronismo, muitos provenientes de vertentes de esquerda. Boa parte dos jovens judeus sequestrados – desaparecidos durante a ditadura genocida de 1976-83 – militava dentro do peronismo. Atualmente, o senador e ex-ministro da Educação Filmus, a deputada Brawer, o chanceler Timerman são alguns exemplos. Mais para o centro figura o governador de Tucumán, Alperovich, e sua mulher, Beatriz Rojkes, terceira na linha de sucessão presidencial.

Como se pode ver, nem tanto nem tão pouco.  Como movimento policlassista, no interior do peronismo coexistem as contradições. Muitos dos que se assumem como “peronistas genuínos” nada têm a ver com outros que também se veem como “genuínos peronistas”.

Daniel Silber é diretor da Escuela de Enseñanza Media para Adultos N°1028, integrante do Consejo Consultivo Regional del INADI (Inst. Nac. contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo), membro do Comité Provincial del PC e presidente do ICUF/Arg.

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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