Perón e os judeus

Perón

Perón

A nota vinha com o título “A Mãe da Plaza de Mayo que sobreviveu à ocupação nazista” e saiu publicada no diário La Nación em 26 de agosto passado. Sobrevivente de Auschwitz, ela chegou ao Paraguai em 1948 com a ideia de se transferir logo para a Argentina, onde tinha família.

“Após chegarem clandestinamente de barco – conta a protagonista – , foram alojados em uma sinagoga com uma centena de imigrados e lá os alertaram de que poderiam ser devolvidos ao país vizinho porque ‘na Argentina não se admitiam judeus. Então Bernardo (o marido) enviou uma carta em polonês a Evita relatando a nossa história. Vê-se que a traduziram bem porque em pouco tempo nos chegaram as autorizações para nos radicarmos na Argentina.”

A comovedora história dessa família judia, obrigada a reviver um calvário a partir do sequestro e desaparecimento de seu filho durante os anos da última ditadura, animou-me a levar adiante um velho e adiado desejo: escrever sobre Perón e o fascismo, tema que conheço um pouco depois de uma forte experiência vivida na Europa.

 

Emilio Corbière

Emilio Corbière

Nazismo à parisiense

Em fins da década de 1980, recebi um convite da Universidade de Sorbonne para falar sobre o peronismo. Naquele momento, havia interesse na Renovação Peronista, e eu era secretário-geral do Partido Justicialista (PJ). A minha análise era um tanto enviesada, própria de quem havia chegado ao peronismo pela esquerda. Em outras palavras, eu tinha uma visão idealizada. Sintetizando, estava treinado na defesa de ideias de esquerda dentro do peronismo e mesmo fora dele no plano local, mas pouco sabia da forte aposta em favor do alfonsinismo feita pela social-democracia europeia.

Regressei do giro muito impactado. “Além de conhecer pouco ou nada sobre a Argentina e muito menos sobre o peronismo, lá, dizer Juan Perón é como dizer Adolf Hitler”, comentava eu entre os companheiros e amigos. “Eles não têm ideia da contribuição de setores do radicalismo e da esquerda para a formação do Movimento e muito menos da participação ativa de membros da comunidade judaica…”

Um dos que ouviram mais atenta e interessadamente o meu lamento foi um lúcido intelectual socialista: Emilio J. Corbière. Além de uma grata amizade e de ele ter integrado o gabinete no Ministério do Governo da Província de Buenos Aires durante a minha passagem por lá, costumávamos nos reunir na hora do almoço na área do Congresso.  As mesas do El Ruedo, na esquina de Sarmiento com Rodríguez Peña, foram testemunhas de intermináveis discussões sobre a questão.  Corbière, a quem era difícil surpreender com algo que não soubesse, decidiu investigar e documentar os seus conhecimentos. Em 1992, publicou Estaban entre nosotros, a meu ver o melhor e mais documentado material existente sobre as origens do fascismo na Argentina e as manobras destinadas a endossar a conta de Juan Domingo Perón.

Wernher von Braun com John Kennedy

Wernher von Braun com John Kennedy

O avesso da trama

Sabe-se que a campanha para vincular Juan Perón ao fascismo é criada em 1946 pela Unión Democrática Argentina, coalizão eleitoral que enfrenta Perón nas eleições de 24 de fevereiro daquele ano. Com o tempo, ela vai se nutrindo de novos ingredientes, como a participação do jovem capitão Perón no golpe de Estado que derruba Irigoyen em 1930; sua designação para a função de adido militar argentino na Itália entre 1939 e 1941; sua admiração por Benito e a suposta adesão a ideias fascistas do Grupo de Oficiais Unidos, alegado promotor do golpe militar de 1943 que põe fim à “Década infame”.

Também se incorporam a essa lista o apoio de Perón ao estabelecimento de cinco mil alemães nazistas na Argentina e o apoio a Ronald Richter, técnico alemão a quem confiou o desenvolvimento de um ambicioso programa nuclear e coisas do gênero.

No sentido oposto, é possível afirmar que, em 1943, a corrente germanófila nas fileiras do exército estava muito enfraquecida, entre outros motivos porque àquela altura da guerra era previsível o desenlace funesto para as tropas do führer. Tanto assim que o pró-alemão general Rawson, que assumira a presidência substituindo o deposto Castillo, teve que renunciar a suas aspirações em favor de Ramírez a partir do questionamento dos oficiais pró-aliados.

Em honra à verdade histórica deve-se reconhecer em Perón um militar conservador – no sentido não pejorativo do termo – , isto é, defensor das estruturas tradicionais e dos valores vigentes, naturalmente inclinado a um sentido social e humanista, claramente anticomunista e pouco ligado à Igreja. Em outras palavras, Perón foi um homem pragmático, capaz de reconhecer as injustificadas dificuldades sociais em que viviam amplos setores de nosso povo e uma distribuição de renda fortemente regressiva.

Perón manifesta admiração por Mussolini e sua obra de governo sem que isto signifique adesão pura e simples ao fascismo. Ele não se constrange em adotar símbolos utilizados pela União Soviética, como os planos quinquenais, apoiar projetos de lei apresentados pelo socialista Alfredo Palácios ou convidar dirigentes socialistas como Angel Borlengui e Atilio Bramuglia, este de origem judaica.

Quanto ao estabelecimento de cinco mil nazistas em nosso país, a verdade é que o número soa um tanto avantajado, sobretudo se se levar em conta que em Nuremberg foram julgados uns seiscentos réus, entre presentes e foragidos, e emitidas 24 condenações.  Não estou convencido de que seja muito justo grudar o rótulo de nazista à imigração alemã como um todo – ainda que muitos possam ter simpatizado com o Terceiro Reich – , pois o termo nazista induz a pensar nos responsáveis diretos pelo Holocausto. É preciso lembrar que, finalizada a guerra e ainda antes, a América do Sul, especialmente Brasil, Paraguai e Argentina, foram destinos apreciados por muitos alemães, sendo que o nosso país teve duas importantes ondas imigratórias, uma anterior e outra posterior à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Tanto a Argentina como o Brasil e o Paraguai estiveram longe de constituir redutos exclusivos dos criminosos de guerra nazistas. E mais: muitos chefes nazistas procurados estavam vivendo na Itália, Suíça, Espanha, Hungria e outros países da Europa Central.

Merecem um parágrafo à parte os Estados Unidos, destino reconhecido de uns dez mil imigrantes nazistas, número que também deveria ser revisto para evitar uma condenação maciça. Muitos eram cientistas, entre eles Werner von Braun, inventor das temíveis bombas V1 e V2, que, em troca de sua cooperação para o desenvolvimento de mísseis balísticos e da organização da NASA, foi eximido de suas responsabilidades e nacionalizado norte-americano, tendo inclusive recebido honras oficiais.

César Tiempo

César Tiempo

Os judeus

Talvez o único serviço que se costume reconhecer no governo Perón em relação ao povo judeu, e como exceção, seja o decisivo voto argentino nas Nações Unidas para a criação do Estado de Israel. No entanto, são muitas as ações políticas em que o peronismo assume uma atitude não segregacionista e muito menos de viés fascista.

Uma das mais relevantes é a dispensa dos soldados de origem judaica para a celebração de suas festas religiosas. Também, Perón foi o primeiro presidente argentino a formalizar, através de uma carta dirigida à Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA) a sua saudação por ocasião das festas da comunidade. Além disso, a Argentina, na Constituição de 1949, foi o primeiro país a incluir uma condenação à discriminação e ao racismo, em consonância com a Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Menos conhecido é o fato de que os primeiros juízes, políticos e diplomatas argentinos de origem judaica a tomar posse de seus cargos sem necessidade de abjurar de sua crença religiosa o fazem durante o governo de Perón.

Em 1949, para insatisfação da hierarquia católica, a Fundación Eva Perón envia a Israel um carregamento de medicamentos, alimentos e artigos básicos para atender as necessidades elementares resultantes do confronto bélico com os estados árabes.

Em 20 de agosto de 1948, Perón, Eva e vários funcionários comparecem à inauguração, na Avenida Corrientes 2015, da OIA (Organización Israelita Argentina), organização de clara inclinação peronista, o que lhe acarretou um confronto com a DAIA e a AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), de viés mais tradicionalista.

É Perón quem intervém pessoalmente para que o suplemente literário do La Prensa, expropriado e entregue à CGT, seja oferecido ao intelectual judeu Israel Zeitlin, mais conhecido pelo pseudônimo de César Tiempo, que acolheu em sua equipe Enrique Dikmann, figura do socialismo argentino.

Juan Perón, o General da Nação que soube falar em mangas de camisa aos trabalhadores nos tempos em que os empregados vestiam terno, gravata e chapéu – mas foi considerado fascista – , foi o único presidente argentino a designar um rabino como assessor pessoal na categoria de ministro para Assuntos Religiosos, como foi o caso de Amram Blum. Comentam os que têm boa memória que Blum, prestigiado rabino catedrático da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, estava celebrando os serviços religiosos do ano novo judaico em seu templo da rua Paso 400, quando foi interrompido e agredido por um grupo que aclamava a Revolução Libertadora, tendo que exilar-se pouco tempo depois, e, pelo que sei, faleceu em Israel.

Madonna e Antonio Banderas em Evita

Madonna e Antonio Banderas em Evita

A lenda continua

Não foram nem são poucos os adeptos da ideia de associar o peronismo ao fascismo, sem dúvida com o objetivo de demonizar Perón. Embora o seu mentor tenha sido provavelmente o embaixador norte-americano Spruille Braden, tenaz defensor dos negócios colonialistas de seu país na Argentina, o eco foi importante e a campanha não se resumiu àquela época nem àqueles atores.

No relato de Américo Ghioldi, os operários peronistas agridem estudantes aos gritos de “alpargatas sim, livros não”.

Jorge Luis Borges, indubitavelmente um dos maiores expoentes da nossa literatura, conta em “La fiesta del monstruo” o linchamento de um estudante judeu por mãos peronistas.

Em um relato livre de amarras históricas, Evita dança com Che na versão da ópera homônima de Alan Parker, com o objetivo de apresentar Eva Duarte como diferente e antagônica à figura de Perón.

* Publicado originalmente em Argenpress.info

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