Os comunistas

Rua da Glória

Rua da Glória

Jorge era um garoto nosso amigo – filho de pais judeus, ambos longe de qualquer tendência de esquerda, que moravam na esquina que dava de cara com a entrada da Ilha do Leite.

A mãe, quando bem de saúde – imagina! – reclamava sempre em alemão: “Aqui não existe cultura, nada de bom aqui no Brasil, e o clima é uma merda. Meu Deus! Onde minha família veio se meter, ai da minha vida!”

Jorge, o caçula, estudava no Colégio Americano Batista, na Praça do Peixe Boi, quando eu ainda estudava no Colégio Hebreu Brasileiro, na Rua da Glória. Nessa época, chovia muito no Recife, caíam aguaceiros, relâmpagos e trovões de fazer medo. Quando, depois dos fortes aguaceiros, começavam as enchentes do Rio Capibaribe, lá pro lado da Ilha do Leite, Jorge, voltando do colégio, passava pela nossa casa, almoçava, secava as roupas, fazia os deveres e, se possível, mandavam-no com o empregado Capitulino de volta a sua residência, para que sua mãe não ficasse receosa com o atraso.

Quando o garoto virou simpatizante do comunismo, ninguém sabe exatamente. Contam-se teorias, mas nenhuma explica como uma pessoa jovem, a quem nada faltava na vida, envereda nessa trilha que só causaria a si e sua família sofrimento e transtorno. Talvez, o clima político de esquerda que sempre prevaleceu na capital pernambucana. Recife, tal como Porto Alegre, sempre foi reduto pioneiro dos movimentos de esquerda, deu prefeitos, governadores, gente dos meios artísticos, jornalistas e na academia. Então era fácil concluir que em algum momento esse “vírus” contaminou o jovem judeu pernambucano.

Interessante que Jorge nunca frequentou os meios sociais judaicos em geral ou pertenceu a algum dos movimentos juvenis de esquerda que se estabeleceram no Recife durante anos. Muitos dos meus amigos lá formaram o seu caráter, receberam educação humanista informal e se tornaram amantes da paz entre os povos, defensores dos direitos humanos e das democracias populares etc., etc.

Mas, para Jorge, com certeza esse movimento não era suficientemente radical: um bando de “frouxos molengas”, com um socialismo só para inglês ver. A polícia, porém, pensava o contrário; volta e meia fazia batidas nas casas desses dirigentes e os levava. Às vezes, os interrogatórios duravam horas, e se tivessem pegado um “pássaro vermelho”, ainda mais judeu, ficava “encanado” com os demais comunas na prisão da chefatura, até que alguém da comunidade o tirasse mediante fiança.

Com o passar do tempo ninguém via mais Jorge. Sabíamos dele quando os jornais da cidade relatavam que a polícia dera batidas nas células vermelhas e, entre as fotos dos “perigosos subversivos” presos estava também a do nosso Jorge. Mesmo que espancado, sujo, camisa rasgada, posava de cabeça erguida, fazendo com os dedos o V da vitória.

Sujo e fedido

Comunista orgulhoso era esse jovem judeu pernambucano.  No entanto, nós, os garotos judeus do Recife, não tínhamos conhecimento sobre o pessoal da nossa colônia ativista no PC até que ficamos sabendo do Jorge. Era difícil acreditar. Pensávamos que com o tempo isso passaria e que ele, como todos nós, se tornaria simpatizante do futebol local, mas isto nunca aconteceu.  Vá entender.

Uma noite ele apareceu lá em casa pedindo guarida, comida, roupa e algum dinheiro. Causou espanto a todos pois, quando tínhamos notícias dele, era através dos poucos encontros de nossas mães e tias que se reuniam para escutar as novelas intermináveis de João Loureiro, transmitidas pela Rádio Clube de Pernambuco e, mesmo nessas ocasiões, a mãe de Jorge não falava quase nada sobre ele.

No nosso casarão, tínhamos um enorme sótão, onde habitava meu avô, então a questão de passar a noite escondido estava solucionada; era só por uma noite, depois os camaradas do partido encontrariam alguma solução mais viável. Para as outras coisas que pediu não havia maiores problemas.
O visitante “subversivo” estava sujo e fedia à distância. Minha mãe logo tirou da cômoda uma toalha de banho, abriu um novo sabão Lifebuoy e ordenou que fosse tomar banho. “Nossa, por onde você andou?”

A roupa do meu tio Nafti (o sertanejo, eternamente embrenhado no mato), estilo safári, de cor cáqui, ficou exatinha nele. Comeu o que ficou do jantar. Já penteado e limpo, sentado numa cadeira de balanço, das inúmeras que tínhamos na sala de visitas, parecia um artista de cinema.

Meu pai, que após a Revolução Bolchevista fugira da Rússia com destino ao Uruguai mas acabou desembarcando no Recife, não podia nem de longe suportar o cheiro do comunismo soviético, e ainda agora com aquele “comunista tupi”, em carne e osso, dentro do nosso casarão. De vez em quando sibilava em ídish: “Oich a shmok a comunist bai undz in shtib, Got zol mir uphitn in maine eltern!” (Era só o que me faltava, um babaca comunista aqui em nossa casa e na minha idade, Deus me livre).

Eu estava louco para ter uma conversa com Jorge sobre esse tal comunismo, queria mesmo saber muita coisa sobre a Rússia, mas, infelizmente, a conversa  que eu tanto queria não resultou, pois ele teve que ir-se em busca de outro esconderijo.

Na casa vizinha à nossa, morava um dos informantes de polícia, um dedo- duro. Que eu saiba havia dois, e um não sabia da existência do outro.

A polícia os contratara para penetrar, vigiar e saber em tempo útil o que acontecia na colônia judaica em geral e, em especial, nos movimentos juvenis de tendência esquerdista.

O namorado da empregada

Era judeu, o nosso vizinho, e tudo delatava sobre o que ocorria na colônia, fossem casamentos, festividades, reuniões e assembleias, atividades femininas de caridade, viagens repentinas para o exterior, etc., até a “falta de respeito” de não hastear a bandeira nacional nas festas da colônia israelita. Naquele tempo, tudo poderia ser considerado ato subversivo, e era preciso ter o máximo cuidado.

Como a polícia andava atrás de Jorge e seus comparsas, também o informante prestava atenção aos movimentos dessa gente no bairro da Boa Vista e vizinhanças, onde se concentravam muitas residências de famílias judaicas. Ele deu fé que Jorge rodara pela Rua Gervásio Pires e entrara em nossa residência. Tiro e queda. Quando viu o acontecido, a peste saiu às carreiras para relatar o fato na delegacia da Rua da Aurora (telefone era raro, na época, e nem o informante o tinha em casa). Não demorou nem duas horas e a polícia em seus carros chegou para nos visitar com o pretexto de que um bando de ladrões estava assaltando residências na rua.

O que eles não podiam saber era que o namorado da nossa linda empregada Maria do Carmo era policial, músico na banda da polícia. Ele escutou na delegacia que iriam fazer uma batida na Rua Gervásio Pires, ligou uma coisa com a outra, veio correndo e avisou que a polícia estaria em pouco tempo procurando subversivos, e se houvesse alguém escondido em nossa casa, que saísse de imediato e se escondesse no sítio encostado ao nosso casarão, pois lá ninguém se meteria a procurar de madrugada.

Assim foi, e Jorge passou a noite no barracão do senhor Ramos, o vigia do sítio, inesquecível personagem que muitas vezes salvou os foragidos verdadeiros ou imaginários da nossa intrépida polícia recifense. Dessa vez, Jorge se salvou, mas eu fiquei frustrado, pois essa era a oportunidade para lhe fazer um monte de perguntas sobre o tal comunismo. A coisa falhou, e continuei por um bom tempo ignorante no assunto.

Mas nem sempre a informação sobre as blitzes chegava a tempo. Era um corre-corre danado para esconder ou se desfazer de algum material tido como subversivo pelos “defensores” da sociedade na luta contra o comunismo tupi, ainda mais quando vinha de judeus.

Quando a batida vinha de surpresa, então a coisa era séria mesmo. Só no dia seguinte ficávamos sabendo.

Chapeuzinho vermelho

Certa vez, de manhãzinha, deram uma batida na casa, quase um palacete, de Faivel Blanche, no bairro da Madalena, em busca de Marcos, um dos dirigentes do movimento juvenil Hashomer Hatzair.  A ordem dada aos agentes era que o prendessem para interrogatório e trouxessem toda a “literatura vermelha” encontrada nas dependências da casa.

Dona Zina, a mãe de Marcos, “o vermelho”, conseguiu em duas oportunidades ludibriar bem os agentes antissubversivos.  Na primeira, despachou o filho de oitão a oitão para a casa do Frechtman, vizinhos do fim da rua, que também tinham dois filhos nesse movimento, mas que de momento estavam numa convenção no Rio.

Na outra, ela colocou nas pastas escolares dos meninos menores não os livros normais de ensino, porém tudo que era literatura marxista-leninista e as “revistas subversivas” que tinham em casa. Depois, o senhor Faivel, seu marido, levaria os meninos com as pastas cheias do material incriminatório no seu calhambeque para o colégio ídish, na Rua da Glória.

Os agentes, porém, não saíram de todo com as mãos vazias. Depois que tomaram um café bem forte, coado na hora, servido fumaçando dum bule verde de ágata, e saborearam as torradas com manteiga e fatias de goiabada Cascão servidas por dona Zina, só então iniciaram a sua missão.

A ordem era prender o líder vermelho e juntar tudo que fosse “literatura subversiva vermelha”. Deveriam cumprir ao pé da letra a tal missão. Pediram desculpas à dona Zina e se meteram em todas as dependências em busca do líder juvenil e do material subversivo escondido em algum lugar da casa.

O líder, claro que não acharam, porém levaram todos os livros de capa vermelha, rosada ou roxa ou com título que lembrasse a subversiva palavra “vermelho”, não importando o tema. Levaram O chapeuzinho vermelho, O Barão Vermelho, O vermelho e o negro, A dama de vermelho, O cartão vermelho, este último sobre as novas regras oficiais do Futebol Association, e assim por adiante. Pobres agentes da lei. Cumpriram a ordem ao pé da letra, nada de cor encarnada escapou à sua batida. Juntaram tudo, colocaram num saco vazio de Café Santos e missão cumprida!

Claro que na delegacia, ao colocarem os “livros subversivos” na mesa do delegado, a gozação foi enorme, a notícia vazou e o fiasco foi comentado em outros rincões, muito longe do Recife, até na distante Argentina.

Tempos em que Stalin ainda era visto como “O Sol dos Povos”.

 Paulo Lisker vive em Rehovot.

* Publicado originalmente em geleiageneral.blogspot.com.br .

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

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