Ondas alvissareiras

Slide1Vivemos um momento de grandes transformações. Como se, de todos os lugares, começassem a ocorrer mudanças, grandes e pequenas.

Na África, a chamada Primavera Árabe começou na Tunísia, onde um pequeno vendedor se imolou em protesto contra as arbitrariedades dos fiscais do governo. Sua atitude deu início a uma onda de protestos que acabou por derrubar o governo. Como um rastilho de pólvora, em outros países do norte da África surgiram movimentos que cresceram a ponto de também resultar em queda de presidentes, como no Egito. As demandas por democracia, emprego e melhorias para a sociedade levaram multidões à Praça Tahrir, derrubando o ditador Hosni Mubarak, num processo que parecia abrir espaço para uma democratização à moda ocidental. Na Síria, a guerra sangrenta do governo autoritário de Bashar al-Assad contra a oposição atinge a população civil com armas letais, sem permitir ainda alguma percepção de mudanças nos destinos daquele país.

Na Europa, os indignados espanhóis e os grevistas gregos questionam as medidas de contenção de gastos sociais e os cortes nas aposentadorias, resultado da pressão dos bancos centrais e do FMI. O velho continente derrapa no desempenho econômico enquanto, politicamente, partidos xenófobos culpam os imigrantes pelos problemas de renda e emprego. Nós, judeus, já vimos este filme.

Nos Estados Unidos, o movimento Occupy Wall Street veio questionar o processo de acumulação de poucos em detrimento de muitos, apontando para o sistema financeiro internacional como o espaço de articulação dos setores que se beneficiam da miséria da maioria da população. No Brasil, no mês de junho, o aumento de R$ 0,20 no preço das passagens de ônibus desencadeou uma onda de protestos não só contra o reajuste, mas também por transporte e serviços públicos de melhor qualidade. Tais protestos aprofundaram as mobilizações, entre elas a greve dos professores no Rio de Janeiro, fruto de anos de descaso com a educação. A greve encontrou grande apoio na sociedade civil, levando à reflexão sobre os parcos investimentos públicos no setor e o papel dele para o desenvolvimento de nossa sociedade. Ao mesmo tempo, a repressão e a violência da polícia com os manifestantes levaram a população a questionar os meios empregados pelos órgãos de segurança no exercício de suas funções, inclusive os sequestros e assassinatos de trabalhadores e moradores das favelas.

O mundo e o Brasil caminham para uma nova forma de viver? Será que o mercado ainda vai dominar o sistema político? Será que ainda teremos de passar por diversas manifestações até que se dividam melhor as riquezas?

O mundo sempre passou por ondas de transformações. Esta, no entanto, atinge diversos continentes. Não sabemos exatamente aonde chegarão, mas já é possível ver que nada será como antes. Entendemos que o mundo só será melhor se distribuirmos o que produzimos e se formarmos cidadãos mais conscientes. Desejamos sorte à onda de transformações que jorra sobre a sociedade, especialmente a brasileira.

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

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