O porteiro negro

IMAGENS Vitral 3Não é comum na profissão a raça bem explícita, a africanidade sem miscigenação; pelo menos na zona sul é incomum. Já escutei que os nordestinos brancos, chamados paraíbas, dominam o setor e o sindicato, reservam o nicho profissional para a sua gente e apregoam junto aos moradores sua qualidade essencial, característica daquele meio sertanejo, que é a lealdade firme aliada à sagacidade, fundamentais num bom porteiro. Aí pode haver alguma verdade, mas o proprietário da zona sul é branco e prefere conviver e tratar com brancos; isso vem de tempos, sabemos, e se vê claramente em todo o comércio desses bairros mais chiques. Exceções, sempre há: a doméstica, a mucama, a cozinheira que é feminina e dócil, e sempre teve doçura, na cozinha e na cama, sempre foi bem aceita, desde antes de Gilberto Freire.

Pois Pedro era bem negro de raça, mas também tinha qualidades: agilidade de corpo e de mente, limpeza, educação nos modos, força física, na tarde do apagão, tinha carregado no colo a senhora velhinha do quinto andar pelas escadas. Confiança? Aquela firmeza de caráter dos paraíbas? Bem, Dona Judite jurava por ele.

Mas Pedro tinha a paixão do jogo: eis o perigo. Era tudo quanto é jogo: loterias várias, uma em cada dia da semana, bicho, pelo menos duas vezes por dia; carteado todo domingo naquela pracinha da Maria Angélica com Alexandre Ferreira. Ganhava às vezes, acertou num milhar e comprou um carro de vinte mil reais, que estímulo! Que perigo. Mas Dona Judite garantia o caráter, conhecia bastante, tinha carregado Pedro no colo, filho de uma cozinheira de sua mãe.

A paixão do jogo era também do carro, teve mal-estar pesado com o síndico porque pretendeu guardar o carro num cantinho da garagem do prédio. Não podia. Deixava então na rua mesmo, muito preocupado, toda hora ia olhar, na calçada da beira do canal, um certo risco, e no sábado de manhã ia dirigindo em plena felicidade para Cabuçu, onde morava sua velha mãe com duas filhas. Uma vez teve briga feia com dois foliões de bloco de carnaval. Pedro ficava inquieto quando coincidia de ser dia de bloco na Alexandre Ferreira um sábado em que dava plantão no prédio. Pois flagrou dois foliões fazendo pipi, um em cada roda do carro. No meio do bloco, aquela animação alegre, viu e partiu para cima, agarrou e jogou ao chão um dos porcalhões, partiu para o outro feroz e foi agarrado por uns dez carnavalescos deixa disso.

– Porcalhões! Vão pegar uma estopa com água e limpar!

– Quá, quá, quá! Porra nenhuma! Essa merda de carro é para se mijar mesmo!

A berraria foi grande, furiosa e demorada; mas era muita gente alegre a separar a briga, a música continuava dominante e o bloco seguiu o curso, levando os dois, aliviados, cercados de protetores deixa disso. Pedro ficou ruminando rouco por algum tempo; pegou ele mesmo a estopa molhada e limpou. O carro era a sua joia.

Doutor Mário, o síndico, não tinha muito apreço pelo porteiro, mas não pensava em substituí-lo. Era o jeito de falar do Pedro que não lhe agradava, engolia metade das palavras, falava aos arrancos, muitas vezes tinha que pedir que ele repetisse, aquilo parecia uma falha de articulação mental, Pedro era meio avoado, fazia as coisas direito, mas esquecia algo com frequência, faltava-lhe um pouco de atenção. Mas não chegava a ser motivo para demissão, era uma pessoa de confiança, dava para conviver com ele, e achava que a figura do negro, com mais de um metro e oitenta, infundia respeito a ladrões e vigaristas, tinha suas vantagens, não era para demitir, inda mais que o porteiro tinha onze anos de casa, a indenização seria grande, ia levando. Não gostava, entretanto, nem um pouco, da figura do bicheiro que de manhã e de tarde vinha escrever o jogo do Pedro ali na porta do prédio, era uma intimidade que incomodava. Tinha falado com o porteiro, não queria mais aquilo.  Pedro corria até a pracinha e fazia o jogo lá, também não era bom porque deixava vazia a portaria, mas eram cinco minutos. Bem, o síndico fechava os olhos, mas não deixava de reclamar, vez por outra algum morador se queixava, era uma tensão permanente, aquela jogatina.


IMAGENS Vitral 4Lost keys serviceAs chaves

Até o dia do molho de chaves. Dona Iracema, do segundo andar, que não gostava nada da figura do porteiro, ficava da janela a vigiar-lhe os passos e a comentar com a Lélia, sua cozinheira, com o Luiz Olavo, vizinho de porta, e até com o doutor Mário as figuras esquisitas que vinham procurar o Pedro na frente do prédio e a conversa de cochichos que ele mantinha com aquela gente. Pois dona Iracema voltava do mercado com a Lélia, pelas onze da manhã, abriu o portão da grade externa e, ao encaminhar-se para a segunda porta, a do hall do elevador, viu jogado no chão, ao lado do grande vaso de antúrios, o grosso molho de chaves do prédio, que era do porteiro: umas dez chaves, as duas principais da entrada e mais as do play-ground, as da casa de máquinas, as dos quartos de guardados do subsolo, a do quarto dele, com certeza, sabia-se lá de onde mais. Ficou olhando e esmiuçando o conjunto pesado na mão, eram nove chaves; todas jogadas ali no chão, olha o perigo! Alguém com uma vara puxava aquilo, abria o prédio, podia tirar cópias, olha o perigo!

Levou consigo o molho, para mostrar ao doutor Mário quando ele chegasse no fim da tarde; de prova, a prova do desleixo e da irresponsabilidade!

Oh, o dia infernal do Pedro! Caíra-lhe o molho do bolso quando subia os degraus da escada de madeira que tinha usado para ajeitar o suporte do ar refrigerado do salão do play, que estava vibrando e fazendo um barulho esquisito. Sentira e escutara a queda das chaves no meio da subida, tinha visto onde haviam caído e ali as deixara ficar para apanhá-las quando descesse após o conserto. E não sabia como nem por que, porque era um avoado, um cabeça tonta, ou porque estava pensando no milhar que ia jogar à tarde, o fato é que concluiu o que tinha de fazer, desceu, retirou a escada e esqueceu as chaves no chão. E depois, quando lembrou e foi procurar, oh, procurara por todos os lados, as chaves haviam sumido!

Existe a palidez na pele negra; Pedro ficou branco de um temor vago e paralisante, não sabia bem de quê, o temor da culpa, um temor que lhe tirava todas as ideias: de repente, um cadafalso se abria e ele não sabia o que fazer. A primeira reação foi intestinal, a cólica violenta que o fez correr ao banheiro. Depois, a confusão na cabeça, a gagueira mental que o impedia de falar, que travava aquele arranco das palavras que era dele, o não saber o que fazer, o recolher-se ao quarto, dar parte de doente, até voltarem as ideias. Não almoçou nem reapareceu após o horário do almoço. Só lá pelas duas da tarde, ocorreu-lhe que algum morador que tivesse entrado pudesse ter recolhido as chaves. Mas quem? Bater às portas, um por um, perguntando? Ia alarmar todo o prédio com o sumiço das chaves. Nem de longe podia imaginar que teria sido logo quem? Sua inimiga número um!  Não; na verdade imaginou, sim; o que elevou muito a sua aflição; só podia ter sido ela; outro qualquer teria procurado por ele para devolver.

Adoeceu de verdade e passou a tarde na cama, até perto das sete horas, quando sabia que o síndico voltava, tinha de falar logo com ele, não havia alternativa.

Reunião extraordinária

Falou, explicou tudo, como as chaves lhe tinham caído do bolso quando ele subia na escada e como não as tinha encontrado no lugar depois que foi guardar a escada. Omitiu o esquecimento por quase meia hora. A gagueira era oclusiva, travava as palavras, custou a concluir o relato. Doutor Mário era engenheiro de obras, tinha o conhecimento instintivo do ser humano que comandava na organização e na realização das tarefas. Pensou que algum morador devia ter encontrado as chaves no chão e concluiu, rápido, para si mesmo, que, não tendo procurado o Pedro para devolvê-las, devia ser quem não gostava dele e haveria de incriminá-lo, dona Iracema.

Mal entrou em casa, o telefone tocou, chamando-o: era dona Iracema que da janela havia observado a chegada dele e a conversa nervosa do Pedro, e foi logo contando a sua versão do acontecido, para exigir: “Temos que demitir esse rapaz!”

Doutor Mário viu que era chegada a hora de enfrentar aquela questão e convocar uma reunião extraordinária do condomínio.

Foi tensa, a reunião, como era de esperar. Todos compareceram e todos mais ou menos já sabiam do ocorrido, relatado de boca em boca por telefone e por pessoa. Todos conheciam o clima em favor da demissão, uma inclinação que já tinha tempo, sempre agravada por dona Iracema, e também pelo Luiz Olavo, talvez influenciado por ela, uma tendência que já se teria efetivado não fosse a questão da indenização e, principalmente, a resistência tenaz de Dona Judite. Havia, também, a benevolência do senhor Cândido, que relutava exatamente porque via naquela tendência uma feição de racismo que o indignava.

Todos já sabiam, mas o síndico iniciou a reunião com o relato que todos escutaram sem perguntas. Nomeou, inclusive, quem tinha achado as chaves e as tinha entregado a ele, síndico. Ninguém perguntou por que não havia entregue ao próprio Pedro, porque todos já sabiam. Só dona Judite, calada, flamejou pelos olhos.

Doutor Mário disse que havia a sugestão da demissão, que ele mesmo achava em princípio recomendável, diante não só do acontecido, mas de outros desleixos anteriores, e principalmente da questão sabida da relação do Pedro com o jogo. Mas queria ouvir os condôminos, informando desde logo que a despesa com a indenização montaria a algo perto de vinte mil reais.

Dona Iracema x dona Judite

Dona Iracema não precisava falar, esperou, sabia quem ia falar primeiro depois de um curto silêncio com troca de olhares. Dona Judite então pediu a palavra e disse que achava que todos poderiam se arrepender muito depois, já que o Pedro, distraído, sim, e com algumas fraquezas, era entretanto uma pessoa de total confiança, que dava tranquilidade ao prédio, coisa cada vez mais importante e difícil de se achar hoje em dia.

– Pois tranquilidade é o que se tem menos com esse porteiro que só pensa em jogo, todo mundo sabe o que é este vício – rebateu dona Iracema, com o tom que todos já esperavam.

– Pessoas que têm maldade no coração não podem ter mesmo tranquilidade, seja qual for o porteiro… – veio a resposta. – Mas acho que não é o caso da maioria aqui.

Pronto, tinha começado o esperado duelo. Dramático, todos sabiam que seria, eram anos de raiva represada, só não esperavam que crescesse tão rapidamente. A barragem da civilidade se rompia logo no início.

– Pois aqui todos sabem da sua proteção ao Pedro, só não se sabe o que ele tanto faz na sua casa.

– O que está querendo dizer com isso?

– Não estou querendo dizer nada, estou dizendo que todos sabem que o Pedro almoça quase todo dia na sua casa.

– Almoça, e daí? Ele merece.

– Janta também.

– Não janta nunca porque lá em casa não tem jantar, eu só tomo um lanche.

– Dorme, parece que merece também.

– O que é isso?!

Dona Judite levantou-se da cadeira. Palavras e gestos de ambos os lados trocavam descargas elétricas que excitavam incontrolavelmente as duas partes e toda a sala, impossível colocar um anteparo, ninguém tentava, na verdade, só o doutor Mário não estava excitado, mas assustado com a iminência do choque maior dentro da sua casa.

– Eu não sei o que é isso – prosseguiu dona Iracema – e nem quero saber; tive uma mãe que me educou, graças a Deus, me ensinou a não ser grosseira. Havia qualquer referência que raspava pela mãe da dona Judite.

– Pois eu vou lhe ensinar a calar a boca!

Partiu em direção à dona Iracema e só não atingiu a meta porque doutor Mário jogou-se no meio e a conteve com energia. Com energia levou-a à porta, abraçando-a, chamou o elevador, abraçado a ela, garantindo que nenhuma decisão seria tomada ali, colocou-a no elevador, pedindo calma, muita calma, voltou ao apartamento onde todos, calados e estupefatos aguardavam, dona Iracema respirando vitoriosa. Pediu desculpas e declarou encerrada a reunião pela impossibilidade de uma decisão, por falta absoluta de clima; chamaria outra reunião futuramente, pedia muitas desculpas, e todos foram saindo e se despedindo consternados. Consternados, mas levando no outro lado da mente um certo comprazimento com o excitante espetáculo ao vivo que haviam presenciado.

Pedro não foi demitido. Reforçou sua atenção no trabalho e na obsequiosidade com os moradores, até mesmo com dona Iracema, de forma mais cerimoniosa. Até incomum nos modos de um porteiro. Como incomum era um porteiro tão africanamente negro e brilhante na zona sul do Rio de Janeiro.

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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